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Assistência Social e EspiritismoSérgio Biagi Gregório SUMÁRIO: 1. Introdução.
2. Conceito. 3. Histórico. 4. Assistência Social no Centro Espírita
Ismael: 4.1. Posição da Assistência Social no Organograma do Centro
Espírita Ismael; 4.2. Funcionamento de um Dia de
Trabalho 1. Introdução O objetivo deste estudo é refletir sobre a ação social. Sendo assim, a nossa peça oratória comportará uma visão histórica do termo, a estruturação da Assistência Social no Centro Espírita Ismael e os subsídios que a Doutrina Espírita nos oferece para praticá-la a contento. 2. Conceito Assistência – do lat. Assistentia. Ato ou efeito de assistir a alguma coisa. Assistência Social – Conjunto de medidas – reforço alimentar, creche, serviços de saúde etc – através das quais o Estado procura atender a certas necessidades das pessoas que normalmente não dispõem de meios para fazer frente a elas, ainda que em nível mínimo. (Dicionário de Ciências Sociais) Voluntário – Segundo definição das Nações Unidas, “o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos...” 3. Histórico O fato de na antiguidade não haver asilos nem orfanatos como os encontramos hoje, não é motivo para afirmarmos que a Assistência Social não existia. Registros históricos mostram que os Egípcios – 5000 anos a.C. – respeitavam o próximo e reverenciavam os mortos, os Babilônios – 3000 anos a.C. – dispensavam consolo aos aflitos e não separavam os casais de escravos, os Hindus (na pessoa de Buda) – 600 anos a.C. – ensinavam por parábolas a tolerância, a igualdade e a bondade e os Chineses (pela influência de Confúcio) – 600 anos a.C. – ensinavam a bondade e a lealdade, a fim de se alcançar um ideal superior. Afigura-se que somente depois da aceitação do Cristianismo como religião legal é que os povos do passado trataram de organizar instituições de assistência com caráter oficial e permanente. Com Jesus Cristo a assistência resplandece em cada ato, como está gravado nas páginas do Evangelho, abrangendo o tríplice sentido de universalidade: 1) alcança a todos os homens: escravos, inimigos e perseguidos; 2) estende-se além do campo material, atendendo também às necessidades morais e espirituais, visando ao mesmo tempo o corpo e a alma; 3) penetra todas as instituições, dilatando o conceito de justiça e de fraternidade. O Evangelho de Jesus dá a base para a verdadeira caridade e amplia o conceito de amor ao próximo, conforme se depreende dos ensinos: O Bom Samaritano (Lucas X: 25-37); “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei também a eles...” (Mateus VII:12); “Tratai todos os homens como quereríeis que eles vos tratassem.” (Lucas VI:31); O que é necessário para salvar-se (Mateus XXV:31-46); O amor aos inimigos (Mateus V:43-47; Lucas VI:32-36). Com o surgimento da Revolução Industrial (séc. XVIII), o Capitalismo (séc. XIX) e os avanços da globalização na época atual, em que muitos empregos e ocupações foram se extinguindo, o desemprego passou a imperar e com ele a necessidade daqueles que têm mais auxiliar os que têm menos. O Espiritismo, com Allan Kardec, traz nova luz à tarefa assistencial, realçando a responsabilidade de seus seguidores pelo preceito “Fora da Caridade não há Salvação” A primeira campanha promovida por entidade espírita de que se tem notícia foi realizada por Kardec através da Revista Espírita (janeiro de 1863) com o objetivo de arrecadar recursos para socorrer os operários de Rouen, França, vitimados por rigoroso inverno. Graças às doações recebidas foi possível levar alguma tranqüilidade a inúmeras famílias em provação. No Brasil, muitos foram os espíritas cuja dedicação e amor, no campo assistencial, se transformaram em exemplo. Entre eles, destacam-se Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco e Batuíra. Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) – apóstolo do Espiritismo. Como médico, dedicou-se, com grande desapego e amor, à assistência aos doentes e a todos que o procuravam necessitados de auxílio. Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), natural de Sacramento-MG, educador, espírita, dotado de diversas faculdades mediúnicas, dedicou sua vida à educação do jovem, aos aflitos e abandonados pela sorte. Atendia a todos que o procuravam e ainda, em momentos de folga, saía pelos arrabaldes da cidade a socorrer doentes, assistindo os necessitados de toda ordem e pregando a doutrina do amor ao próximo. Anália Franco (1856-1919), emérita educadora, se entregava, de corpo e alma, à prática do bem. Fundou e supervisionou mais de 70 asilos, creches e escolas espalhadas por vários Estados brasileiros. A síntese do seu pensamento era: “O nosso fim é procurar diminuir cada vez mais em nosso meio a necessidade da esmola pelo desenvolvimento da educação e do trabalho, de que provém o bem-estar e a moralidade das classes pobres. Eduquemos e amparemos as pobres crianças que necessitam de nosso auxílio, arrancando-as das trilhas dos vícios, tornando-as cidadãos úteis e dignos para o engrandecimento de nossa pátria.” Antonio Gonçalves da Silva – “Batuíra” (...- 1909), português, veio para o Brasil ainda criança e, como imigrante, aqui cresceu e desenvolveu sua obra de dedicação ao próximo. Em 1873, por ocasião da epidemia de varíola, assistiu aos doentes e flagelados com verdadeiro espírito de renúncia, dando não apenas o remédio, mas também o pão, o teto e o agasalho. (Manual de Apoio da FEB) 4. Assistência Social no Centro Espírita Ismael 4.1. Posição da Assistência Social no Organograma do Centro Espírita Ismael O organograma é o quadro geométrico representativo das unidades de uma organização ou serviço e indica os limites das atribuições de cada uma delas. Assim, no topo do quadro está a Diretoria Executiva, em seguida os Departamentos e abaixo destes, os Sub-Departamentos. O topo do organograma do Centro Espírita Ismael pode ser visualizado abaixo:
DEPCOM - Departamento Comercial O organograma do Departamento de Assistência Social do Centro Espírita Ismael pode ser visualizado abaixo:
1) Gestantes – Setor em que se
compõe o enxoval, que será distribuído às
gestantes carentes,
depois de terem freqüentado 12 reuniões. Um enxoval é constituído de mijãozinho,
meias, blusa, chupeta... 2)
Famílias (alimento) – As gestantes cadastradas (aproximadamente 80 famílias)
recebem cestas básicas – compostas de arroz, feijão, óleo, açúcar, sal
etc. – por um período de 3 a 4 meses.
3)
Orientação Profissional – Com aulas de pintura em tecido, tricô, crochê,
bordados, a Assistência Social do C. E. I. procura incentivar o trabalho,
inclusive como alternativa de renda, pela venda das peças produzidas. 4) Setor de Costura –
Confeccionam-se roupas para: 1) composição das peças do enxoval; 2)
serem vendidas no BAZAR permanente. 4.2.
Funcionamento de um dia de
Trabalho 1) Todas as gestantes participam de um trabalho de Assistência
Espiritual, recebendo orientações para a vivência cristã e passes
espirituais. 2) Enquanto as gestantes ouvem as palestras, seus filhos participam
da evangelização infantil, com os respectivos passes espirituais. Além disso,
tomam lanche, suco e periodicamente ganham brinquedos usados. No início do ano
letivo, o Centro Espírita Ismael auxilia com doação de material escolar. 3) Após a reunião é
facultativo às gestantes e freqüentadoras carentes terem aula de pintura em
tecido, tricô, crochê, bordados, com alternativa de geração de renda. 4) Ao término das
reuniões, as gestantes tomam lanche e suco. 5) Periodicamente
recebem a visita de um Psicólogo ou Assistente Social, os quais ministram aulas
sobre saúde, higiene, prevenção de doenças venéreas e AIDS. 6) Há sorteios
variados e, duas vezes por mês, faz-se uma "feirinha", em que
escolhem as roupas que foram doadas. O restante dessas roupas é enviado à Casa
de David. 7) Distribuem-se cestas
básicas e enxoval, conforme programação.
4.3.
Financiamento do Trabalho Assistencial
Recebemos doações em
dinheiro e em espécie. As doações em espécie são feitas diretamente nas
dependências do Centro. Destino das doações: 1) Quando o material
está em bom estado, guarda-se para os Chás Beneficentes; 2) Material mais ou
menos bom, guarda-se para um Bazar mensal; 3) Material em estado
regular é posto no Bazar diário, sendo que nos dias do atendimento às
gestantes, faz-se uma "feirinha", em que as gestantes escolhem os
objetos que lhes interessam e levam-nos gratuitamente. 5.1. Pública e Privada A ação social espírita fundamenta-se no voluntariado que, à semelhança da “Casa do Caminho”, procura levar reconforto material e espiritual aos mais necessitados. Nesse mister, diferencia-se do Serviço Social governamental, pois enquanto este visa dar apenas o alimento, aquele procura ver o indivíduo como um todo, no sentido de fazer-lhe desabrochar os germes de sua evolução espiritual. 5.2 Missão do Espiritismo Considerando que a missão precípua do Espiritismo visa à “transformação da humanidade pela melhoria das massas por meio do gradual aperfeiçoamento dos indivíduos”, todo o auxílio feito ao próximo deve ser acionado dentro de um programa que tenha por objetivo o reequilíbrio moral; a reintegração social e a educação espiritual. Assim, de acordo com os pressupostos codificados por Allan Kardec, devemos não só dar o alimento que mata a fome, o agasalho que supre o frio, mas também o reconforto espiritual da palavra esclarecedora, que estimula o nosso irmão menos aquinhoado materialmente a caminhar com os próprios pés. 5.3. Não confundir os meios com os fins Um dos grandes erros da humanidade é a confusão entre os meios e os fins. À pergunta, qual é o fim da religião, responderíamos que é para salvar almas, fazer a pessoa evoluir, conhecer melhor a Deus. Dentro desse raciocínio, qual é o fim do Espiritismo? Transformação do indivíduo? Burilamento interior? Mas será que os meios empregados tendem para este fim? Tomemos, por exemplo, a doação de cestas básicas. Se, paralelamente a essa dádiva, não estivermos incentivando a pessoa a se melhorar, a se aperfeiçoar, a evoluir espiritualmente, estaremos apenas criando dependentes, o que contraria sobremaneira o objetivo do Espiritismo que, segundo o Espírito Emmanuel, é a libertação da consciência. Resumindo: o alimento é o meio, a libertação da alma é fim. Saibamos distinguir um do outro. 6. Subsídios para alicerçar a Ação Social Espírita Na literatura espírita há diversos ensinamentos sobre a melhor maneira de praticar a caridade. Eis alguns deles. 1) P. 768 de O Livro dos Espíritos “Nenhum homem dispõe de faculdades completas e é pela união social que eles se completam uns aos outros, para assegurarem seu próprio bem-estar e progredirem. Eis porque, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados”. No isolamento o homem se embrutece e se estiola. 2) A Parábola do Bom Samaritano, que bem compreendida, dá-nos o exato conceito do que seja a Caridade ensinada pelo Cristo. 3) P. 886 de O Livro dos Espíritos - Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? – Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. “O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos”. 4) Fora da Caridade não há Salvação – “Meus filhos, na sentença: Fora da caridade não há salvação, estão encerrados os destinos dos homens, na Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque os que a houverem praticado acharão graças diante do Senhor”. Essa divisa é o facho celeste, a luminosa coluna que guia o homem no deserto da vida, encaminhando-o para a Terra da Promissão. Ela brilha no céu, como auréola santa, na fronte dos eleitos, e, na Terra, se acha gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: Passai à direita, benditos de meu Pai. - Paulo, o apóstolo - (Kardec, 1984, Cap. XV, item 10) 5) Na Obra Assistencial “Jamais reter, inutilmente, excessos no guarda-roupa e na despensa, objetos sem uso e reservas financeiras que podem estar em movimento nos serviços assistenciais”. Não há bens produtivos em regime de estagnação. (Vieira, 1981, p. 53) 7. Conclusão A ação social numa Casa Espírita reveste-se de particular importância. Não nos sirvamos dela para criar dependentes, mas para auxiliar cada qual a alcançar a sua libertação, tanto material quanto espiritual. 8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA KARDEC, A. O
Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984. São Paulo, outubro de 2002
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