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Frustração e Consolo

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. conceito. 3. Aspectos gerais. 4. Impopularidade; 4.1. Contradição Socrática: 4.2. A Política Segundo o Espiritismo. 5. Dinheiro Insuficiente: 5.1. O Ponto de Vista do Epicurismo; 5.2. A Desigualdade das Riquezas Segundo o Espiritismo  6. Sobre a inadequação: 6.1. Inadequação Sexual: 6.1.1. Observações de Montaigne; 6.1.2. Posição de André Luiz e Emmanuel. 6.2. Inadequação para a Cultura: 6.2.1. Montaigne e a Arrogância das Pessoas; 6.2.2. O Progresso na Ótica Espírita. 6.3. Inadequação Intelectual: 6.3.1. O Conhecimento Verdadeiro Segundo Montaigne; 6.3.2. Os Pobres de Espírito. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre os diversos tipos de frustrações – impopularidade, falta de dinheiro, inadequação – e as respectivas consolações oferecidas tanto pela Filosofia quanto pelo Espiritismo.

2. CONCEITO

Frustração – do lat. frustratio que vem do advérbio frustra (em vão, debalde). Ação de impedir que um ser atinja o objetivo ao que tende pela sua própria dinâmica. Estado em que se encontra o organismo quando depara com um obstáculo mais ou menos importante no caminho que o leva à realização completa de um comportamento. 

Em Psicanálise designa a privação sentida como injusta, de satisfações materiais ou psíquicas.

Consolar  - do lat. consolare - significa aliviar ou  suavizar  a  aflição,  o sofrimento, o padecimento; dar lenitivo  a,  mitigar,  confortar. 

3. ASPECTOS GERAIS

Embora o terreno das frustrações possa ser vasto – inclui todos os tipos de dificuldades que o ser humano está sujeito –, no âmago de cada frustração encontra-se uma estrutura fundamental: o choque entre um desejo e uma realidade imutável.

Em termos do ser humano, a criança passa por uma série de frustrações necessárias à sua educação: desmame, aprendizagem de limpeza, interdições diversas.

No adulto, as frustrações mais sentidas são as de ordem afetiva: decepções sentimentais, perda de entes queridos, desprezo, impopularidade etc. Pode também ser afetado por incômodos materiais: vizinhos barulhentos, colegas de trabalho que obtêm vantagem de que ele é privado. (Dicionário de Psicologia)

Uma tendência frustrada nunca perde o seu dinamismo. No animal, e no homem, quando este não usa a sua razão, esse dinamismo pode transformar-se em agressividade. O cão pode morder aquele que lhe tira o alimento; o homem, desprovido da razão, pode se encolerizar facilmente quando defrontado por uma contrariedade corriqueira.

Há diversas maneiras de se administrar uma frustração. Um ideal nobre rechaçado pode se transformar em boêmia ou uma vida voltada para a interioridade religiosa; um amor partido pode ser deslocado para a solidão ou para uma experiência voltada ao auxílio ao próximo.

A frustração pode ser um elemento motivador por excelência, desde que o indivíduo canalize a sua força para projetos que propiciem o aperfeiçoamento do Espírito imortal. (Enciclopédia de Moral e Civismo)

4. IMPOPULARIDADE

Impopularidade é não ter a estima geral, não ser reconhecido publicamente, não ter o nome estampado nas colunas de jornais e revistas.

4.1. A CONTRADIÇÃO SOCRÁTICA

Sócrates, filósofo que viveu na Grécia do ano 470 a 401 a.C., oferece-nos subsídios para enfrentarmos a impopularidade.

Sócrates era um tipo de aspecto cômico, calvo, nariz grosso e rebitado e largas barbas. À semelhança do Cristo não nos deixou nada escrito. Tudo o que dele sabemos veio por intermédio do seu discípulo Platão.

Sabe-se que ele fora condenado à morte por três razões:

a)      Não venerar os deuses da cidade;

b)      Introduzir inovações religiosas;

c)      Corromper os jovens de Atenas.

Segundo relato de Platão, ele desafiou o júri com as seguintes palavras: “enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la (...) Portanto, senhores (...) seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes”.

O fato de ser acusado por um júri e ser relegado à impopularidade não abalou as suas convicções filosóficas. Na vida e na morte de Sócrates havia um convite ao ceticismo inteligente.

Para a cidade grega, a opinião da maioria equiparava-se à verdade. Lembremo-nos de que o júri encarregado de julgar Sócrates era movido por evidente preconceito. Todos haviam sido influenciados pela caricatura que Aristófanes havia feito de Sócrates e achavam que o filósofo exercera alguma influência nos acontecimentos desastrosos que haviam assolado a cidade, cujos dias de esplendor, naquele final de século, haviam chegado ao fim.

A filosofia de Sócrates ensina-nos a não dar muita atenção a uma idéia contrária. É preciso verificar o peso de tal idéia. (De Botton, 2001, Cap I)

4.2. A POLÍTICA SEGUNDO O ESPIRITISMO

De acordo com a orientação dos amigos espirituais, o homem não tem necessidade de poder e de popularidade; basta que se submeta à vontade de Deus. Na maioria das vezes, a popularidade é um entrave ao cumprimento de seu dever como espírita. Observe a aspiração de uma posição social de destaque: uma vez obtida, mudam-se os valores, os deveres e os relacionamentos, faltando-nos, inclusive, tempo para as práticas Espíritas.

Vejamos o que nos diz o Espírito Emmanuel acerca da política. 

“O sincero discípulo de Jesus está investido de missão mais sublime, em face da tarefa política saturada de lutas materiais. Essa é a razão por que não deve provocar uma situação de evidência para si mesmo nas administrações transitórias do mundo. E quando convocado pelas circunstâncias não deve aceitá-la como galardão para a doutrina que professa, mas como provação imperiosa e árdua, onde todo êxito é sempre difícil. O espiritista sincero deve compreender que a iluminação de uma consciência é como se fora a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto das almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir uma realização definitiva e real. A missão da doutrina é consolar e instruir, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal”. (Xavier, 1977, pergunta 60)

5. DINHEIRO INSUFICIENTE

É a falta de recursos financeiros para o sustento da vida, para a realização de um projeto, de uma viagem etc.

5.1. O PONTO DE VISTA DO EPICURISMO

Epicuro é o filósofo que trata da questão do prazer. Nasceu em 341 a.C. na verdejante ilha de Samos, a poucos quilômetros da Costa da Ásia Menor ocidental. Começou a ocupar-se da filosofia aos 14 anos, passando a viajar para ouvir lições do platônico Panfilo e do atomista Nausífanes. Consta que escreveu 300 livros sobre todos os assuntos: música, ética, natureza etc. Para ele “O prazer é o princípio e o fim da vida feliz”. Confessou também sua paixão pela boa mesa: “A fonte e a raiz de todo bem é o prazer do ventre”.

Aqueles que deram ouvidos a boatos devem ter se surpreendido quando descobriram as verdadeiras preferências do filósofo do prazer. A casa onde morava não era luxuosa. A comida era simples. Epicuro preferia a água ao vinho e contentava-se com um jantar que incluía pão, legumes e um punhado de azeitona. Falava sempre da felicidade e da amizade. Dizia que o sábio não escolhe a maior quantidade comida, mas a mais agradável.

O ponto crucial da tese de Epicuro é que, se temos dinheiro e não temos amigos, liberdade e uma vida baseada na reflexão, jamais seremos verdadeiramente felizes. E, se temos tudo, com exceção do dinheiro, jamais seremos infelizes.

Por que então escolhemos coisas caras se elas não podem nos trazer alegria extraordinária? De acordo com Epicuro somos influenciados por “opiniões vãs”, que não refletem a hierarquia natural de nossas necessidades, enfatizando o luxo e a riqueza, raramente a amizade, a liberdade e a reflexão. (De Botton, 2001, cap. II)

5.2. A DESIGUALDADE DAS RIQUEZAS SEGUNDO O ESPIRITISMO

Como analisar a riqueza no âmbito da Doutrina Espírita?

1) De acordo com os Espíritos superiores, tanto a pobreza como a riqueza são provas que os Espíritos reencarnantes devem passar. Dizem-nos que a riqueza é uma prova mais difícil do que a pobreza porque incita a luxúria, a preguiça, a incúria etc. (Kardec, 1995, perguntas 808 a 816)

2) Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan kardec chama-nos a atenção sobre a aquisição de poder e autoridade. De acordo com as instruções dos Espíritos, “A autoridade, da mesma forma que a fortuna, é uma delegação da qual serão pedidas contas àquele que dela se acha investido; não creiais que lhe seja dada para lhe proporcionar o vão prazer de comandar, nem, assim como crêem falsamente a maioria dos poderosos da Terra, como um direito, uma propriedade”. (Kardec, 1984, p. 229) Deus as dá como prova ou missão e as retira quando lhe apraz.

3) O preceito evangélico “tendo sustento e com o que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” deve ser sempre ponderado quando nos faltam recursos financeiros.

6. SOBRE A INADEQUAÇÃO

Inadequação é a não conformidade ou não correspondência exata entre os termos de uma relação. Desajustamento. É como o patinho feio na estória infantil ou a ovelha desgarrada na narrativa parabólica.

Montaigne é o filósofo escolhido para tratar deste assunto. Ele viveu na França no século XVI. Montaigne preferia viver encerrado em uma biblioteca, no castelo herdado de seus antecedentes. Na infância já tivera contato com os clássicos. Fora alfabetizado em latim. Ler era o refrigério de sua vida: “a leitura me consola em minhas horas de recolhimento; ela me alivia do peso de uma ociosidade penosa e, a qualquer instante, é capaz de livrar-me de companhias maçantes. Ela entorpece dores que podem se tornar dilacerantes. Para me distanciar de pensamentos soturnos, simplesmente necessito recorrer aos livros”.

6.1. INADEQUAÇÃO SEXUAL

6.1.1. OBSERVAÇÕES DE MONTAIGNE

Para Montaigne é bastante problemático termos um corpo e uma mente, pois o primeiro forma um contraste quase monstruoso com a dignidade e a inteligência da última, fraqueja, lateja, pulsa e envelhece, nos obriga a arrotar e a soltar gases. Obriga-nos a preterir projetos sensatos, em troca de algumas horas de suor na cama, em companhia de pessoas que se unem a nós na emissão de sons tão intensos que fazem lembrar hienas chamando umas às outras na aridez descampada dos desertos americanos.

Montaigne conhecia homens sobrepujados por seus anseios sexuais que davam um fim a seu tormento castrando-se. Outros tentavam reprimir sua lascívia aplicando sobre os testículos excessivamente ativos compressas de vinagre com neve.

Tratou da falta de ereção masculina e uma forma de aliviar tal sensação de impotência: o homem devia conversar abertamente com sua mulher sobre estar sujeito a essa enfermidade. (De Botton, 2001, cap. IV, item 2)

6.1.2. POSIÇÃO DE ANDRÉ LUIZ E EMMANUEL

O Espírito André Luiz, no capítulo XVII de Evolução em Dois Mundos, fala-nos que a sede real do sexo não se acha no veículo físico, mas sim na entidade espiritual, em sua estrutura complexa. Diz-nos também que o sexo é mental em seus impulsos e manifestações.

O Espírito Emmanuel em Vida e Sexo trata de diversos assuntos sobre sexo e sexualidade, advertindo-nos que toda a anomalia sexual tem íntima relação com o processo reencarnatório da criatura. Assim o marido infiel de hoje é aquele espírito que a esposa desprezou numa outra oportunidade. A homossexualidade de hoje está relacionada com os abusos da faculdades genésicas de outras existências.

6.2. INADEQUAÇÃO PARA A CULTURA

6.2.1. MONTAIGNE E A ARROGÂNCIA DAS PESSOAS

Montaigne diz que outra causa da inadequação é a rapidez e arrogância com que as pessoas parecem dividir o mundo de dois campos, o campo normal e o do anormal.

Ao viajar pelo mundo, Montaigne pode observar que os nativos mantêm os seus hábitos arraigados e criticam o modo de vida dos estrangeiros. Era de espantar a convicção inabalável da superioridade de cada sistema sobre os demais. Cada nação tem muitos costumes e práticas que não só desconhecem com consideram bárbaros e motivo de assombro de outra. (De Botton, 2001, cap. IV, item 3)

6.2.2. O PROGRESSO NA ÓTICA ESPÍRITA

O progresso reunirá um dia todos os povos da Terra em uma só nação? Não em uma só nação, o que é impossível, pois da diversidade dos climas nascem costumes e necessidades diferentes, que constituem as nacionalidades. Disto resulta que cada povo terá uma maneira peculiar de se comportar. O que os Espíritos nos alertam é que embora haja diversidade de gostos, de atitudes, a caridade é o único guia seguro pois não conhece latitudes. (Kardec, 1995, pergunta 789)

6.3. INADEQUAÇÃO INTELECTUAL

6.3.1. O CONHECIMENTO VERDADEIRO SEGUNDO MONTAIGNE

O que as pessoas inteligentes devem saber? Para muitas escolas, ser inteligente consiste em resolver questões. Depois de ter experimentado muitas realizações intelectuais, Montaigne acrescenta: “se o homem fosse sábio, mediria o verdadeiro valor de qualquer coisa de acordo com a sua utilidade e pertinência em sua vida. Somente o que nos faz sentir melhor merece ser compreendido”.

Devemos descobrir não quem sabe mais e sim quem sabe melhor. Nosso esforço se concentra apenas em encher a memória, e não deixamos espaço para o entendimento da vida e a noção do certo e do errado. (De Botton, 2001, cap. IV, item 4)

6.3.2. OS POBRES DE ESPÍRITO

Jesus disse: “Bem-Aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino de dos céus” Por pobres de Espírito Jesus não entende os desprovidos de inteligência, mas os humildes Ele revela os mistérios da vida espiritual aos simples e não aos doutos, porque estes enfastiados do saber mundano acabam menosprezando as coisas do Espírito. Por esta passagem temos plena certeza de que o verdadeiro conhecimento não se encontra no intelecto, mas na elevação moral e espiritual que um ser consegue amealhar durante a sua vida, tanto como encarnado como desencarnado. (Kardec, 1994, cap. VII, itens 1 e 2)

7. CONCLUSÃO

A filosofia, para ser uma filosofia eficaz, deve gerar idéias que tragam consolo à alma do sujeito cognoscente. O Espiritismo, para ser um Espiritismo verdadeiro, deve elucidar as consolações prometidas por Jesus.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro, M.E.C., 1967.
DE BOTTON, A. As Consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
GAUQUELIN, M. e F. Dicionário de Psicologia. Lisboa/São Paulo, Verbo, 1987.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo: IDE, 1984.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed., São Paulo, FEESP, 1995.
XAVIER, F. C. e VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos, pelo Espírito André Luiz, 4. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.
XAVIER, F. C. Vida e Sexo, pelo Espírito Emmanuel. 4. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1978.
XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1977. 

São Paulo, fevereiro de 2003

Publicado no Jornal Diário de São José do Rio Preto (Diarioweb.com.br).

 
Frustração faz crescer
São José do Rio Preto, 26 de outubro de 2008

Renata Fernandes

 
A privação ou ausência de algum desejo ou necessidade gera frustração. É fato. O modo como se lida com essa realidade é que faz a diferença entre quem sofre ou evolui emocionalmente. A reação positiva ou negativa de cada indivíduo aos ‘nãos’ da vida, em geral, é determinada na infância. Condição, entretanto, que não impede a mudança de comportamento na fase adulta. Na opinião de Sérgio Biagi Gregório, presidente do Centro Espírita Ismael, a falta de uma educação filosófica e religiosa mais realista faz com que muitas pessoas tenham alto índice à baixa frustração. Ele diz que na antiga Grécia, por exemplo, as crianças eram educadas para enfrentar o desconforto, inclusive tinham de dormir em camas duras. Gregório também cita que na doutrina espírita se aprende que o acaso não existe. “Se pudéssemos perceber, ainda que de relance, que cada um está colocado no devido lugar e, que no momento não há outro melhor, com certeza administraríamos melhor a frustração”, afirma.

Aliás, independentemente da religião ou filosofia de vida, pessoas que possuem fé em algo superior tendem a sofrer menos com as frustrações, de acordo com especialistas em comportamento. O filósofo francês Henri Bergson dizia que ao colocar uma pessoa no meio de uma floresta sozinha, sem ninguém para guiá-la, obviamente essa pessoa tem de tomar uma decisão. Com essa analogia, Gregório afirma que as pessoas deveriam fazer o mesmo diante das frustrações: enfrentá-las. Inclusive, vale lembrar que todos são responsáveis pelas escolhas feitas na vida, no entanto, poucos - ao se frustrar - lembram que a maioria das frustrações ocorre em decorrência de escolhas feitas anteriormente. Gregório ressalta que a frustração é o choque entre o desejo e a realidade imutável. Por isso, ao limitar os próprios desejos as escolhas decorrentes deles evitarão transtornos da negação daquilo que foi desejado.

“Há um ditado que diz: ‘o que os olhos não vêem, o coração não sente’. Desse modo, se nossos olhos não captarem certas imagens estaremos livres das emoções que delas surgem”, comenta. Deixar de vivenciar certas situações ou sentimentos por medo da frustração futura, no entanto, também pode ser frustrante, segundo a psicóloga Luciane Kozicz Reis Araujo, da Universidade de Brasília (UnB). Ela afirma que isso torna os seres humanos ‘meio robotizados’. “Viver sem criar expectativas com receio das frustrações nos torna peças de uma engrenagem desprovida de alma.” Para exemplificar essa condição Luciana cita o livro de 1817 escrito por Mary Shelley: “Frankenstein”, em que a autora conta a história do jovem cientista Victor Frankenstein, que resolve fabricar um ser humano sem alma, ao montar pedaços de cadáveres apanhados em cemitérios ou câmaras mortuárias.

Uma vez criado, entretanto, o monstro se humaniza e pede ao seu criador uma mulher à sua imagem. O relato do médico que criou o Frankenstein após o resultado da sua experiência foi: “o que foi que eu fiz? A criatura tem múltiplos defeitos de nascença, força física muito acentuada, é deficiente, um ser patético. É preciso que morra. As experiências estão encerradas.” Assim, Luciana informa que deixar de experienciar situações ou sentimentos pelo medo de se frustrar pode dar às pessoas a falsa ilusão de que tudo pode ser perfeito. “Como Frankenstein, qualquer aberração pode ser excluída, tendo de se esconder nas sombras, sem ter a possibilidade de ter amigos, pais e família.” Gregório enfatiza que a melhor maneira de administrar a frustração é aplicar o que Sócrates já dizia: “conhece-te a ti mesmo”. Além disso, ele recomenda higiene mental, passeio ao ar livre e fretqüentar reuniões religiosas, entre outros.



 

Vença o medo da frustração para ser melhor e mais feliz
Vencer a imobilidade, a procrastinação e o medo de se frustrar dá trabalho, mas vale a pena. Tanto que o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti pregava a importância de as pessoas em vez de querer expulsar o medo violentamente tomarem consciência dele, inclusive o de se frustrar. Para entender melhor como funciona o mecanismo da frustração, confira a entrevista a seguir com a psicóloga Luciane Kozicz Reis Araujo, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Saúde e Trabalho (Gepsat), membro do Laboratório de Psicodinâmica e Clínica do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB) e consultora no Ministério da Saúde, entre outras atividades.

Diário - Quais os tipos de frustração? Na sua opinião, qual delas é a pior? Por quê?
Luciane Kozicz Reis Araujo - A frustração refere-se ao estado de um indivíduo que se encontra na incapacidade de obter o objeto da satisfação que almeja. Não sei se podemos definir um tipo pior, pois ela está presente no cotidiano e dependerá de como cada pessoa transita diante das próprias perdas. Os tipos são os mais variados e surgem desde as situações da infância, como o colega se apossar de um brinquedo desejado, até de estados patológicos, como depressão e/ou anorexia instaurados no organismo devido não saber lidar com o desemprego ou a perda de um ente querido e até por não ter o corpo dos sonhos, entre outros.

Diário - O que faz com que algumas pessoas tenham baixa tolerância à frustração?
Luciana - Do ponto de vista psicanalítico, o que constitui o nosso eu é a falta. O psicanalista Sigmund Freud dizia, num de seus clássicos, “O mal-estar da Civilização”, que as três feridas narcísicas da humanidade são: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. Desse modo, quem aceita os próprios limites e reconhece a impotência diante da vida que se apresenta é que lida melhor com a frustração. Ao contrário, pessoas que só acreditam na felicidade, ao buscar a completude o tempo inteiro, seja por meio de um corpo perfeito ou relações amorosas cinematográficas, assim como a excelência profissional, lidam pior quando algo não funciona. Afinal, é impossível tudo funcionar 100% bem ou da forma ‘correta’ o tempo inteiro. Por isso, nessa sociedade contemporânea há a tendência dessas pessoas se tornarem adictas das mais variadas drogas para suportar seu limite.

Diário - O que devem fazer para lidar melhor com isso?
Luciana - É necessário se saber humano. Se entregar para tudo o que o viver proporciona. Saber chorar e comunicar a dor também é uma grande vitória.

Diário - Qual o lado positivo de se frustrar? Por quê?
Luciana - É o que nos propicia movimento e nos torna desejantes. Se não tivéssemos passado pela frustração desde o nascimento não estaríamos na condição de seres falantes. Nascemos e recebemos o peito, privados do peito, o choro, e assim por diante. Ou seja, é desse momento de ausência que estabelecemos o contato com o mundo e nos desenvolvemos. Pessoas que negam a frustração têm dificuldade em se tornar hábeis e criativas para lidar com as diferenças. A tendência é se tornarem “máquinas” talentosas, pois não lidam com situações reais e, sim, à utopia.

Diário - É possível evitar as frustrações ao fazer as escolhas?
Luciana - As frustrações fazem parte do dia-a-dia. O que pode nos tornar pessoas mais felizes é ir em busca do nosso desejo e reconhecer nossa singularidade diante de um mundo que prega a uniformidade.

Diário - Por que vencer a imobilidade, a frustração e o medo de se frustrar dá trabalho?
Luciana - Porque é preciso vivenciar esse turbilhão de sentimentos que tomam conta de nós quando algo sai fora do idealizado, quando o objeto que preencheria nosso vazio escapa. Vencer a imobilidade e o medo de se frustrar obriga o indivíduo a sair da acomodação conveniente. A dor costuma ser motivo de muitas interrogações por todos aqueles preocupados com o sofrimento humano porque está exposta. É a dor, tanto em sua expressão física como psíquica (sofrimento), que pode levar uma pessoa a procurar ajuda. Assim, quando o corpo manifesta existe um alerta sobre a ameaça que a perda da capacidade de sentir e representar traz para a integridade psíquica e biológica ao impossibilitar o indivíduo de refletir e agir frente à ameaça de desequilíbrio.

Diário - Qual a melhor maneira de administrar as frustrações?
Luciana - Falar sobre elas, reconhecê-las.

Diário - Existe relação entre frustração e espiritualidade? Qual? Por quê?
Luciana - A vida em alguns momentos é árdua demais e proporciona muito sofrimento, decepções e tarefas impossíveis. Assim, muitas pessoas procuram satisfações substitutivas, tais como a arte e a religiosidade, entre outras. A religiosidade (vou chamar assim a espiritualidade) está relacionada com a frustração pela realização de uma promessa. Para se livrar do vazio existencial o ser humano sentiu a necessidade de colocar a responsabilidade deste mal-estar em um ser superior, onipotente e que não fracassa. Desse modo, não é preciso entrar em contato com a impotência. É possível fechar os olhos perante si mesmo, já que afinal tudo está nas mãos de um “todo-poderoso”. Nesta perspectiva, o homem de fé é necessariamente um homem dependente de uma promessa, alguém que não consegue determinar sua vontade. Ele não se pertence, tem necessidade de que alguém o consuma. Necessita de um conjunto de regras que o regule. As religiões ocupam o lugar deste vazio, pois o homem que não está decidido a escutar a si mesmo, a não conviver consigo, necessita enclausurar-se atrás de uma muralha. Enfim, garantir-se pelo desespero do seu pecado contra qualquer surpresa ou perseguição por parte do bem. O inapreensível é capturado num signo que o paralisa, recorta e aprisiona: doravante, alguém de fora dará as garantias. Com a promessa instaurada, a linguagem, isto é, o tornar comum, reduz aquilo que consigo partilhar com o outro: o igualitário e uniformizante. Há uma impossibilidade de descarga de energias e afetos em direção ao exterior, pois não consegue se desembaraçar de impressões vividas, em especial as de desprazer e dor. Deste modo, o “crente” se volta para uma causa externa “culpada” pelo sofrimento, a descarga de um afeto tônico, para apagar da consciência a marca da dor vivenciada, fazendo-a se esquecer do infortúnio e liberando para novas impressões.

Diário - Por que dependendo do grau da frustração ela diminui a imunidade do organismo e até causa desânimo e depressão?
Luciana - Indivíduos mais propícios à tristeza excessiva e à dificuldade em sair do imobilismo são os que negam constantemente suas perdas e fantasiam em excesso a própria realidade. Lutam o tempo inteiro com o mundo externo até chegar ao limite do corpo. O índice de adoecimento pode estar relacionado a essas lutas excessivas sem retorno. Percebe-se um embrutecimento do desejo, em que a criatividade ficou paralisada, impedida de se manifestar. É como se em um certo lugar do indivíduo existisse um único caminho, que é o corpo para manifestar.

Diário - Pode dar algumas dicas sobre como evitar a frustração (se é que é possível) e/ou sobre qual o melhor meio de enfrentar o medo de se frustrar?
Luciana - A frustração é fundamental para o nosso crescimento. Evitá-la seria postergar o contato com essa falta que constitui o ser humano. A habilidade está em transitar pelas vitórias e derrotas e saber que nossa potência não está presente o tempo inteiro em todas as situações.

 

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