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Discurso Espírita: Quantidade versus Qualidade

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Discurso: Aspectos Gerais; 3.1. Discurso com (D) Maiúsculo e Discurso com (d) Minúsculo; 3.2. Discurso Mítico é um Discurso com (d) Minúsculo. 3.3. O Discurso Deve Basear-se no Logos. 4. O Pensamento: 4.1. O Que é o Pensamento?; 4.2. Pensamento: “Discursivo” versus “Intuitivo”; 4.3. Interferência no Pensamento. 5. O Discurso Espírita: 5.1. Fontes do Discurso Espírita; 5.2. Elaboração do Discurso Espírita; 5.3. Divulgação do Discurso Espírita ; 5.4. Quantidade versus Qualidade. 6. Conclusão. 7. Bibliografia.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre o pensamento espírita. Como estamos organizando o nosso pensamento? Damos atenção ao Discurso com (D) maiúsculo ou ao discurso com (d) minúsculo? E a divulgação doutrinária? Ela é quantitativa ou qualitativa? Os Centros Espíritas atendem aos objetivos pelos quais foram criados?

2. CONCEITO

Discurso – Do latim discursu (m) significa ação de correr para ou para várias partes.

Polivalência de sentidos:

a) no plano oratório, designa a elocução pública que visa comover e persuadir;

b) no plano acadêmico, pode assumir a denotação de “tratado”, “dissertação”, ou equivalente como, por exemplo, o Discurso do Método de Descartes;

c) na esfera dos estudos lingüísticos, sucessão coordenada de frase;

d) na área de estudos filosóficos: 1) sentido de “operações intelectuais que se efetuam por seqüência de operações elementares parciais e sucessivas”, ou “expressão de desenvolvimento do pensamento por uma série de vocabulários ou proposições em cadeia”; 2) distinção entre conhecimento “discursivo” e conhecimento “intuitivo”.

Espírita – Adepto do Espiritismo, aquele que professa os princípios básicos codificados por Allan Kardec.

Quantidade – Refere-se ao número, volume ou estoque de alguma coisa, que pode aumentar ou diminuir.

Qualidade – Propriedade, atributo ou condição das coisas ou pessoas capaz de distingui-las das outras e de lhes determinar a natureza.

3. DISCURSO: ASPECTOS GERAIS

3.1. DISCURSO COM (D) MAIÚSCULO E DISCURSO COM (D) MINÚSCULO

O discurso com D maiúsculo é o verdadeiro discurso; o discurso com d minúsculo é a expressão de cada um de nós. Os discursos (d) são limitados, particulares, opinativos; em contrapartida, o Discurso (D) é mais amplo, geral, abarcando todos os discursos. Para captar o Discurso, precisamos observá-lo nas entrelinhas dos discursos ordinários.

Em nosso dia-a-dia precisamos estar atentos ao Discurso e não aos discursos. O que isto quer dizer? Que é mais fácil ficarmos presos a discursos prazerosos, principalmente aqueles que retificam a nossa comodidade. Para penetrar na profundidade do saber, temos que cavar muita terra. Precisamos afrontar a natureza para dela extrair o suco do conhecimento.

3.2. DISCURSO MÍTICO É UM DISCURSO COM (D) MINÚSCULO

A retórica, inventada para persuadir, busca influir, mesmo com o sacrifício dos fatos. Dela sobrevém todos os discursos que não se aproximam do Discurso (D). Nesse sentido, o apego indevido aos discursos retarda o acesso ao Discurso. Isso acontece com os discursos míticos; neles, o ser humano evade-se do real, cria um mundo mágico e sente-se seguro nessas lucubrações. Não é sem razão que vemos muitos autores destacando, em seus livros, o mito e, logo em seguida, o paradoxo, que é a verdade dos fatos.

Atualmente podemos anotar uma série de mitos: o mito do salvador da pátria; o mito do jogador de futebol; o mito da felicidade plena etc.

3.3. O DISCURSO DEVE BASEAR-SE NO LOGOS

“O discurso desencadeia uma longa história, que se confunde com a tradição ocidental desde as origens. Queremos recolher em “discurso” o sentido do substantivo logos. Logos designa muitas coisas. Homero emprega a verbo lego, de mesma raiz de logos, para o processo de recolher alimentos, armas e ossos, para reunir homens. Cada uma dessas operações implica comportamento criterioso; não se reúnem armas, por exemplo, sem as distinguir de outros objetos. Concomitantemente, logos significa uma reunião de coisas sob determinado critério. Armas misturadas com ossos sem critério algum não formariam logos, provocariam sentimento de desordem, caos”. (SCHÜLER, 2002, p. 17)  

4. O PENSAMENTO

4.1. O QUE É O PENSAMENTO?

Pensar, na significação etimológica do termo, quer dizer sopesar, por na balança para avaliar o peso de alguma coisa, ponderar.

O pensamento é o elemento de captação e articulação de idéias. É por ele que nos pomos em relação com o nosso semelhante, que idealizamos os nossos sonhos, as nossas metas, os nossos objetivos. É por ele, também, que planejamos o que vamos fazer daqui a 10 minutos, daqui a um ano ou daqui a 20 anos.

4.2. PENSAMENTO: “DISCURSIVO” VERSUS “INTUITIVO”

“O discurso como passagem de um termo a outro no processo de um raciocínio contrapõe-se à intuição. Isto acontece em Platão, Aristóteles, Plotino, São Tomás e – em parte –  Descartes, Kant e outros autores modernos. A contraposição não equivale, contudo, à completa exclusão de um termo em favor do outro. O normal é considerar o processo discursivo como um pensar que se apóia, em última análise num pensar intuitivo. Este proporciona o conteúdo da verdade, e aquele, a forma”. (Mora, 1982)

O clássico debate entre idéias inatas (Platão) e a lógica (Aristóteles) é mais de fachada do que de fato. Quase nenhum filósofo admitiu a possibilidade de um conhecimento inteiramente discursivo. O que se costuma dizer é que há insistência no conhecimento intuitivo em Platão, Plotino, Descartes e Spinosa, enquanto há insistência no conhecimento discursivo em Aristóteles e São Tomás.

4.3. INTERFERÊNCIA NO PENSAMENTO

No âmbito da Doutrina Espírita, os Espíritos – tanto os bons quanto os maus –, podem influenciar o nosso pensamento. Os bons estão sempre nos sugerindo pensamentos de paz, de harmonia, de paciência, de perseverança no bem; os maus estimulam-nos à descrença, ao crime, ao roubo, à maledicência etc.

Vivemos num mundo de ondas e vibrações. Tanto podemos captar as boas quanto as más. A nossa mente funciona como um rádio: conforme a emissora que estivermos sintonizados, somente dela estaremos recebendo notícias, com exclusão de todas as outras. Se optarmos pela que transmite futebol, não poderemos captar as mensagens espirituais de uma Rede Boa Nova de Guarulhos.

Observemos a obsessão, que é a influência persistente que um Espírito mau exerce sobre uma pessoa. Às vezes reclamamos do processo obsessivo, mas raramente concordamos que somos nós próprios os causadores da influência do Espírito menos feliz. Há muitos casos, em que a situação fica tão fora de controle, que somos obrigados a freqüentar um Centro Espírita, no sentido de passar pelo trabalho de Desobsessão, a fim de que médiuns treinados façam a devida doutrinação.

5. O DISCURSO ESPÍRITA

5.1. FONTES DO DISCURSO ESPÍRITA

Ainda não temos a capacidade de receber intuitivamente o acervo de conhecimentos disseminados pelo Espiritismo. Cabe-nos, assim, construí-lo consultando as fontes fidedignas, ou seja, as Obras Básicas da Doutrina e as complementares. Por Obras Básicas, entendemos o conteúdo dos 5 primeiros livros da codificação: O Livro dos Espíritos, O Livros dos Médiuns,  O Evangelho Segundo o Espiritismo, o Céu e o Inferno e A Gênese. Os complementares, como o próprio nome diz, complementam a base, e são: Revista Espírita, Obras Póstumas, de Allan Kardec e todos os livros de autores encarnados e  desencarnados, como Introdução à Filosofia Espírita, de José Herculano Pires, Nosso Lar, de André Luis, Paulo e Estevão, de Emmanuel etc.

De acordo com Paulo de Tarso, devemos ler de tudo, mas ficarmos com aquilo que for bom, o que for útil à construção do pensamento espírita. Nem todo Espírito é de Deus, já nos alertava São João em seu Evangelho.

Nesse mister, há que se aprender a ler, a explicar e a comentar um texto espírita. A aplicação de uma metodologia filosófica, aquela que procura a essência de tudo o que nos cai nas mãos, auxiliar-nos-ia a transmitir o pensamento doutrinário segundo as nossas palavras – o que evitaria parafrasear (repetir) o autor do texto. Afastar-nos-ia também da criação de opiniões pessoais, totalmente desprovidas das bases trazidas por Allan kardec.  Nesse sentido, J. H. Pires nos diz que o Espiritismo é um desconhecido, inclusive dos próprios espíritas, porque a maioria destes não quer se debruçar sobre os livros da codificação. 

5.2. ELABORAÇÃO DO DISCURSO ESPÍRITA

Pela definição filosófica de discurso, ele tem um antecedente e um conseqüente, ou seja, há um raciocínio, um juízo, uma proposição. O que temos então de elaborar? São os raciocínios espíritas, isto é, raciocínios que nos permitem entender bem e de forma lógica o conteúdo doutrinal.

A técnica é: captar, memorizar e elaborar os dados. Captamos tanto pela percepção sensorial (5 sentidos) como pela percepção extra-sensorial. Não importa a maneira. O que vale é, uma vez captado, fazer associações com aquilo que já tivermos estocado em nosso passivo intelectual. É nesse meditar e refletir constantes que vamos não só aprofundando os temas doutrinários como também elaborando pensamentos próprios, mas fundados no raciocínio espírita.

Em termos de um discurso oratório, devemos fazê-lo levando em conta a total sujeição a um tema. Por que? Porque a palavra “tema” (em francês, sujet, “sujeito”) indica que estamos em presença de um enunciado que determina uma sujeição. Nesse sentido, o tema de dissertação deve ser um “Mestre” ao qual nos submetemos. Não se trata apenas de ser “fiel” a ele: se o tema “ordena”, é porque dá ordens (ele tem exigências, vontades, razões para dá-las e formulá-las, uma lógica interna própria, e será preciso explicar isso, em particular na conclusão).

5.3. DIVULGAÇÃO DO DISCURSO ESPÍRITA

Depois de apreendido, elaborado e refletido, o discurso espírita pode e deve ser veiculado. Sua divulgação pode ser feita de diversas formas: livro, rádio, palestra, internet, jornais etc.  é nesse momento que o pensamento, que estava em potência, passa ao ato, à publicação.

A divulgação espírita tem penetrado nos meios de comunicação de massa. Vemos programas na televisão, no rádio, principalmente na Rede Boa Nova de Guarulhos.

5.4. QUANTIDADE VERSUS A QUALIDADE

Na atualidade, em que a divulgação se processa em ritmo alucinante, convém fazermos algumas perguntas: por que nos expressamos quantitativamente e não qualitativamente? Por que não separamos os aspectos mediúnicos dos aspectos eminentemente doutrinários? Por que não distinguimos auto-ajuda do raciocínio espírita?

Há uma inflação de informações que, a nosso ver, causa confusão. Como, porém, escolher aqueles livros quer realmente constroem o edifício doutrinário?  No meio de tantos compêndios, não é tarefa fácil. Por isso, a necessidade de primarmos pela qualidade dos escritos e não do número de livros, das edições publicadas por um único autor.

6. CONCLUSÃO

Observando o movimento espírita de um modo geral, notamos a grande dificuldade que temos em divulgar a Doutrina Espírita nos seus fundamentos básicos. Muitas vezes falta-nos capacidade de penetração em seus postulados, outras vezes precipitação de expor sem o devido estudo e compreensão. Embora tudo seja feito gratuitamente, é preciso que tenhamos mais responsabilidade com a coisa espírita.

7. BIBLIOGRAFIA

SCHÜLER, Donald. Heráclito e seu (Dis)curso. Porto Alegre, L&PM, 2000.
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Edição abreviada preparada por Eduardo Garcia e Ezequiel de Olaso sob a orientação do Autor. 5. ed., Lisboa, Dom Quixote 1982.
 

São Paulo, 18/02/2002

 




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