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A Paz e a Espada

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. O Problema da Paz-Guerra: 4.1. Conflito e não Conflito; 4.2. Mapa Tridimensional. 5. Não Vim Trazer a Paz, mas a Divisão. 6. A Idéia Nova. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada

1. INTRODUÇÃO

O par de termos paz-espada assemelha-se ao de paz-guerra, e mais especificamente à distinção entre o bem e o mal. Assim sendo, o nosso propósito é fazer um estudo desta relação no sentido de melhor entender a citação evangélica em que Jesus afirmou não ter vindo trazer paz à Terra, mas a espada. Em outras palavras, como é que Jesus, sendo um Espírito de alta hierarquia, viria atear fogo à Terra?

2. C0NCEITO

Paz - do lat. pace significa, na sua acepção mais geral, ausência (ou cessação, solução etc.) de um conflito. É a tranqüilidade individual na comunhão com  os outros. Emprega-se com referência à convivência entre os homens quando há concórdia de afetos e vontades, ou em que os antagonismos são resolvidos sem luta cruenta. É  a aspiração  fundamental  de cada homem e de toda a  humanidade,  a ponto  de seu conceito quase ser confundido com o de  felicidade.

Paz interna e externa - o tema da paz interna pertence à moral e seu estudo é incumbência habitual dos moralistas; o tema da paz externa pertence ao direito e sua discussão  é incumbência habitual dos juristas. Os filósofos espiritualistas advogam que só se alcança a paz externa através da paz interna. (Bobbio, 1986)

Paz negativa e positiva -  a paz negativa coincide com a noção mais tradicional de paz, a saber, a ausência de conflito. Esta idéia de paz negativa assegura igualmente a forma apocalíptica moderna que é a ordem internacional estável. O desenvolvimento das armas nucleares veio ainda reforçar a idéia de que a paz é o equilíbrio recíproco dos armamentos, de tal modo que o simples fato da sua existência e a sua capacidade de destruição dissuadem os seus proprietários de uma utilização eventual. A ciência da paz pôs, no entanto, em destaque uma outra forma de paz, a paz positiva. Esta não refere somente a ausência de conflito mas igualmente a criação de formas de cooperação internacional justas e eqüitativas. A paz negativa visa por fim à violência direta; a paz positiva é a anulação dos efeitos da violência estrutural. (Thines, 1984)

Paz como não-guerra - quando usamos o termo paz-guerra, o primeiro é sempre definido em relação ao segundo e nunca o contrário. Por outras palavras: enquanto "guerra" é definida positivamente (termo mais forte) com o elenco das suas conotações características, paz é definida negativamente (termo mais fraco) como ausência de guerra, em síntese, como não-guerra. (Bobbio, 1986)

Espada  -  do  gr. spáthe, pelo lat. spatha - é  a  arma  branca, formada de uma lâmina comprida e pontiaguda, de um ou dois gumes. Símbolo  do  Estado Militar e de sua virtude. Relacionada  com  a balança, significa justiça: separa o bem do mal, julga o culpado.

Guerra - denominou-se inicialmente bellum, termo do latim clássico, cujo uso foi suplantado por guerra, do baixo latim, termo originário de werra, grito alardeante com  que as tribos germânicas combatiam.

Em direito público internacional, a guerra é definida como luta armada entre dois ou mais estados para resolver um conflito levantado entre eles.

Conflito - para uma definição do conceito e de seus componentes existe um acordo sobre o fato de que o conflito é uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que implica choques para o acesso e a distribuição de recursos escassos. No caso da guerra, fala-se não do conflito pessoal, mas do conflito social. (Bobbio, 1986)

3. HISTÓRICO

O binômino paz-guerra existe desde remotíssima antigüidade. No contexto histórico, a guerra é definida sempre positivamente, sendo aquela que desenvolve a inteligência, os brios, os músculos etc., enquanto a paz é definida pelo seu sentido negativo, ou seja, pela ausência de guerra. Arnold Toynbee, historiador de renome internacional, no prefácio do livro Guerra e Civilização, diz-nos que  "...a guerra talvez seja filha da civilização, visto que a possibilidade de empreender uma guerra pressupõe o mínimo de técnica e organização, bem como um excedente de riquezas para além do estritamente necessário à subsistência. Ora, o homem primitivo não pressupõe tal estruturação para a guerra e, por outro lado, não há nenhuma civilização (salvo talvez a dos Maias, de que o nosso conhecimento atual é apenas fragmentário) em que a guerra não tenha constituído uma instituição estabelecida e dominante, mesmo nos estádios mais primitivos a que possamos remontar a sua história." (1963, p. 12)

Como a paz é decorrência da guerra, façamos um breve resumo das guerras.

Na Antigüidade, período que se estende do séc. IX até 50 a. C., tivemos as Campanhas do Império assírio e neo babilônico, as lutas grego-persas, as Campanhas de Alexandre Magno e as Campanhas do Império Romano.

Na Idade Média, que vai do séc. IV ao séc. XVI, tivemos a Invasão dos bárbaros, as Invasões árabes, as Campanhas de Carlos Magno, as Cruzadas , as guerras do império otomano etc.

Na Idade Moderna, de 1618 a 1781, anotamos a Guerra dos trinta anos, a Campanha de Luís XIV, A Guerra dos Sete Anos e as Lutas da independência dos EUA.

Na Idade Contemporânea, que se inicia em 1792 e vai até a época atual, observamos Revolução Francesa, a Expansão Napoleônica, a Guerra de anexação do México, a Guerra do Paraguai etc. (ENCICLOPÉDIA MIRADOR)

4. O PROBLEMA DA PAZ-GUERRA

Keneth E. Boulding, no livro Paz Estável, procura responder à pergunta: se tivéssemos uma política em favor de uma paz estável, como seria ela?

Anotemos alguns de seus argumentos, que servem para esclarecer este tema.

4.1. CONFLITO E NÃO CONFLITO

Na impossibilidade de definir a paz, como conceito universal, ele a estuda como ausência de guerra. Começa dizendo que o sistema paz-guerra é, com freqüência, confundido com a estrutura de conflito e não conflito. Nesse sentido, as atividades humanas podem ser divididas em atividades conflituais e atividades não conflituais. As atividades não conflituais caracterizam-se pelo comer, beber, dormir, trabalhar, procriar, ler, aprender, caminhar etc. As atividades de conflito são aquelas nas quais temos consciência de que o aumento de nosso bem-estar diminui o dos outros, ou um aumento no bem-estar dos outros pode diminuir o nosso.

Na linguagem da teoria dos jogos, ou jogo da redistribuição, podemos analisar as seguintes situações: 

Lucro de A é +5, perda de B -3 (soma positiva);

Lucro de A é +5, perda de B -5 (soma zero);

Lucro de A é +5, perda de B -7 (soma negativa).

Assim, o conflito é uma situação de redistribuição, no qual há ganhos para alguns e perdas para outros.

Todo não conflito é paz, mas o conflito (redistribuição de soma negativa) pode ser dividido em guerra e paz, dependendo da natureza dos tabus em causa.

4.2. MAPA TRIDIMENSIONAL

Uma das vantagens de pensarmos no mundo como um grande mapa tridimensional no espaço e no tempo é que isto pode contribuir para que não incorramos em duas importantes falácias:

1.ª) é nossa tendência de dividir o mundo em duas, e apenas duas partes. O pensamento dicotômico ignora sempre a multiplicidade do mundo e a complexidade extrema de sua inter-relações;

2.ª) é a nossa incapacidade de perceber as quantidades e proporções do sistema. Nossa atenção se concentra a tal ponto em coisas excepcionais, visuais e espetaculares, que tendemos a sobreestimar a sua importância. Já observamos, por exemplo, que embora a guerra e a paz sejam fases de um comportamento conflitual, o comportamento não conflitual é de importância quantitativa maior.

No desenrolar da história humana, as probabilidades de se morrer numa guerra têm sido realmente muito pequenas. Até mesmo no beligerante século XX, o número total de mortes humanas deve ter sido de 1,5 a 2 bilhões de pessoas. Praticamente todas as pessoas que estavam vivas em 1900 estão hoje mortas, bem como uma proporção considerável daquelas que nasceram. Todas as guerras do século XX até hoje não mataram mais do que 80 milhões de pessoas, ou cerca de 4% do número total de mortos. (1978, cap. 1)

5. NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A DIVISÃO

A  paz  e  a espada representam um  ensinamento  transmitido  por Jesus.  São Mateus, no cap. X, vv. 34 a 36, narra  essa  passagem evangélica  nos seguintes termos: "Não penseis que eu vim  trazer paz sobre a Terra; eu não vim trazer a paz, mas a espada;  porque eu vim separar o homem de seu pai, a filha de sua mãe e a nora de sua  sogra;  e  o homem terá por inimigos os de  sua  casa".  São Lucas,  no  cap.  XII,  vv.  49 a 53,  trata  do  mesmo  assunto, acrescentando  que Jesus viera lançar fogo sobre a Terra e  tinha pressa que ele se acendesse.

Como entender essa afirmação de Jesus?

Individualmente, cada um deve lutar contra si mesmo;

No lar, cada qual deve vencer inibições, renunciar ao seu ponto de vista, sem querer que outros pensem pela sua cabeça;

Na sociedade, o cristão deve lutar contra as iniquidades e injustiças, porém não deve fazê-lo com a espada em punho, pois o próprio Jesus já nos dissera que todo aquele que desembainha a sua espada para atacar o seu próximo, pela espada morrerá.

Lembremo-nos de que o ensinamento da paz e da espada, como tantos outros ensinamentos trazidos por Jesus, possui conteúdo alegórico. A interpretação do referido  trecho varia de seita para seita. A espada  do  Cristo, que  era de fraternidade, passa a ser instrumento de violência  e opressão  nas  mãos dos propagadores de determinadas  seitas.  Os próprios  cristãos, de perseguidos, passam a  ser  perseguidores. Não é, pois, de se estranhar que as guerras religiosas destruíram mais do que as guerras políticas. (Kardec, 1984, it. 9 a 18)

6. A IDÉIA NOVA

Toda  a  idéia nova gera oposição. Eis  a  correta  interpretação dessa  passagem  evangélica.  O "novo",  quando  fundamentado  na lógica  e  na razão, fere interesses pessoais. Isso  acontece  na  Ciência,  na   Filosofia  e,  também,  na   Religião.  Por  isso   a importância   da   nova  idéia  é  proporcional   à   resistência encontrada.  Pois,  se  julgada  sem  conseqüência,  deixá-la-iam passar,  mas,  como  sentem-se  ameaçados,  fazem  de  tudo  para dificultar a sua propagação.

O Espiritismo, à semelhança do Socratismo e do Cristianismo, traz um novo paradigma para a humanidade, e pode ser interpretado como uma  nova  espada.  Não será aceita sem  lutas,  controvérsias  e oposições.  Sua pujança não está nas disputas sangrentas, mas  na modificação interior  que  proporciona  a  cada  um  de seus adeptos. A questão da espada será muito mais uma guerra de cada um contra si mesmo  e  contra  todo  o  mal,  fazendo  com  que  possamos  ser "promotores da paz".

7. CONCLUSÃO

O mundo é violento porque nós o somos. Quando buscarmos por nós mesmos a paz interna, o mundo à nossa volta estará modificado e não precisaremos mais das armas externas, porque teremos alcançado a paz de consciência, aquela riqueza interior que nenhum ladrão será capaz de roubar.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOBBIO, N., MATTEUCI, N. e PASQUINO, G. Dicionário de Política. 2. ed., Brasília, UNB, 1986.
BOULDING, K. E. Paz Estável. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo, Encyclopaedia Britannica, 1987.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
THINES, G. e LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa, Edições 70, 1984.
TOYNBEE, A. Guerra e Civilização (seleção de textos de Albert V. Fowler). Lisboa, Editorial Presença, 1963.

São Paulo, dezembro de 1999 




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