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Curso de Aprofundamento Doutrinário

Perguntas e Respostas

Temas: P - Z


 

Parábola

Parábola do Bom Samaritano

Parábola do Filho Pródigo

Parábola do joio e do trigo

Parábola do Semeador

Parábola dos Talentos

Paranormalidade

Pergunta e Pergunta Filosófica

Perispírito

Prolegômenos

Presciência

Quatro Evangelhos, Os

Reencarnação

Reforma Íntima

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Rico e o Lázaro, O

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Sacrifício

Sermão do Monte

Símbolo

Tempo

Teoria e Prática no Espiritismo

Parábola

Sérgio Biagi Gregório

1) O que é uma parábola?

Narração alegórica na qual o conjunto dos elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. A alegoria, por sua vez, é um discurso que faz entender outro. Os tópicos relacionados são: fábula, apólogo e metáfora.

2) Há diferença entre alegoria e parábola?

A parábola refere-se à comparação. A alegoria a um discurso que faz entender outro. Como a historia simbólica não oferece apenas uma lição global, mas que todos os pormenores têm um sentido próprio, requerendo uma interpretação particular, a parábola então se torna alegoria. Exemplo: considera-se Deus e Israel como a figura do dono da vinha.

3) Como distinguir o "corpo" da "alma" da parábola?

Chama-se "corpo" da parábola a narrativa expressa, e "alma" a lição moral que a narrativa sugere ou o sentido místico que ela comporta.

4) Para que servem o enigma, o símbolo e o apocalipse carregados nas parábolas?

O enigma era para espicaçar a curiosidade, incitar à busca.

Os símbolos eram para apresentar as imagens tomadas da realidade terrestre para serem sinal das realidades reveladas por Deus, precisando, na maioria dos casos, de uma explicação que as aprofunde. Observe que o antropomorfismo do Velho Testamento são símbolos que contêm em germe verdadeiras parábolas. Esse procedimento se amplia no judaísmo tardio, até se tornar, nos rabinos, um verdadeiro método pedagógico. A pergunta é: a que isto é semelhante? Jesus segue a mesma linha de pensamento: a que vou comparar? Dizia: o Reino dos Céus é semelhante a...

Muito mais que enigmas, há também o sentido apocalíptico das parábolas. Estas são de difíceis explicações. Há necessidade de um "anjo-intérprete".

O esquema tripartido é o seguinte: símbolo – pedido de explicação – aplicação do símbolo à realidade. (Léon-Dufour, 1972)

5) Há diferença entre parábola e parábola evangélica? O que são parábolas evangélicas?

Parábola é uma forma de transmissão de conhecimento, muito utilizada na antiguidade. Baseava-se em histórias, cujo conteúdo revelava um ensinamento moral e ético. As parábolas evangélicas, por sua vez, dizem respeito às histórias contadas por Jesus.

As parábolas evangélicas podem ser definidas como cenas tiradas da vida ordinária destinadas a fazer compreender e fixar as verdades da vida espiritual. São histórias contadas por Jesus para ilustrar o seu ensinamento. Elas precisam de uma explicação mais profunda. Foi essa explicação inicial que Jesus começou e deixou para os seus seguidores darem continuidade mais tarde.

6) Que tipo de conhecimento as parábolas revelam?

As parábolas revestem-se de conhecimento exotérico e de conhecimento esotérico. O conhecimento exotérico refere-se à exposição que Jesus fazia publicamente, enquanto o conhecimento esotérico, refere-se às explicações que Jesus dava aos apóstolos, em particular. Observe que, mesmo entres esses, não disse tudo.

7) Como podem ser classificadas as parábolas do Evangelho?

Parábolas que se referem ao reino dos céus. (Semeador, Joio e o Trigo, Grão de Mostarda etc.)

Parábolas que enunciam as condições exigidas para entrar no reino dos céus. (Bom Samaritano è prática da caridade; Servo Impiedoso è perdão das Injúrias etc.)

Parábolas contadas nos últimos dias da vida de Cristo. (Minas è bom uso das graças divinas; Dois Filhos enviados à vinha è obediência etc.)

Página doutrinal è quase sempre é o reino dos céus.

8) Por que Jesus falava por parábolas?

Era a forma pedagógica, usada na época, para apresentação de um ensinamento. Foi para evitar as ciladas dos adversários e prevenir as interpretações errôneas do auditório que Jesus recorreu ao ensino por meio de parábolas, que se destinavam a despertar a curiosidade dos ouvintes e o desejo de ulterior explicação, que os discípulos e os bem intencionados pediam. (Kardec, 1984, cap. 24)

9) Dentre as parábolas contadas por Jesus, qual a parábola das parábolas? Por quê?

É a "Parábola do Semeador". Ela sintetiza os caracteres predominantes em todas as almas. Ela representa as diferenças que existem na maneira de aproveitar os ensinamentos do Evangelho. Refletindo sobre os vários tipos de semente, expostos por Jesus, podemos nos avaliar e verificar como anda o nosso progresso espiritual.

10) O que se deve ter em mente ao interpretar as parábolas evangélicas?

Ensinamento progressivo. Embora os temas das parábolas dizem respeito aos fatos da vida cotidiana, eles necessitam de uma interpretação à luz dos ensinamentos de Deus (teocêntrico) e de Jesus (cristocêntrico). Quer dizer, há sempre uma maneira nova de ver a mesma citação, a mesma história, a mesma parábola. (Léon-Dufour, 1972)

Bibliografia Consultada

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.

LÉON-DUFOUR, X. et al. Vocabulário de Teologia Bíblica. Rio de Janeiro: Vozes, 1972.

Outubro/2007

Parábola do Bom Samaritano

Sérgio Biagi Gregório

"E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, o que é preciso que eu faça para possuir a vida eterna? Jesus lhes respondeu: Que está escrito na lei? Que ledes nela? Ele lhe respondeu: Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, de todas as vossas forças e de todo o vosso espírito, e vosso próximo como a vós mesmos. Jesus lhe disse: Respondeste muito bem; fazei isso e viverás.

Mas esse homem, querendo parecer que era justo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? E Jesus tomando a palavra, lhe disse:

Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, cobriram-no de feridas e se foram, deixando-o semi-morto. Aconteceu, em seguida, que um sacerdote descia pelo mesmo caminho e tendo-o percebido passou do outro lado. Um levita, que veio também para o mesmo lugar, tendo-o considerado, passou ainda do outro lado. Mas um Samaritano que viajava, chegando ao lugar onde estava esse homem, e tendo-o visto, foi tocado de compaixão por ele. Aproximou-se, pois, dele, derramou óleo e vinho em sua feridas e as enfaixou; e tendo-o o colocado sobre sue cavalo, conduziu-o a uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas e as deus ao hospedeiro, dizendo: Tende bastante cuidado com este homem, e tudo o que despenderdes a mais, eu vos restituirei no meu regresso.

Qual desses três vos parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? O doutor lhe respondeu: Aquele que exerceu a misericórdia para com ele. Ide pois, lhe disse Jesus, e fazei o mesmo". (São Lucas, cap. 10, 25 a 37)

QUESTÕES

1) O que se entende por parábola?

Parábola é uma narração alegórica na qual o conjunto dos elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior.

2) Quem são os samaritanos?

Os Samaritanos são as pessoas naturais da Samaria. Desde a separação das dez tribos e a ereção do bezerro de ouro em Samaria, capital do reino de Israel, os samaritanos eram desprezados pelos judeus.

3) Por que os samaritanos eram considerados heréticos?

Porque admitiam somente o Pentateuco de Moisés. Aos olhos dos Judeus ortodoxos, eles eram heréticos, e, por isso mesmo, desprezados, anatematizados e perseguidos.

4) Além da parábola do Bom Samaritano, cite outras alusões de Jesus aos samaritanos?

Há o episódio do poço de Samaria. Vindo tirar água uma mulher (Fotina) da Samaria, disse-lhe Jesus: "Dá-me de beber". Respondeu-lhe, porém, esta samaritana: "Como! Vós que sois judeus, me pedis de beber, a mim que sou samaritana?"

Há o episódio dos dez leprosos curados. Somente um veio agradecer; este era samaritano.

5) O que se entende por doutor da lei?

Um doutor da lei era um especialista no estudo da ‘torah’ (porção da bíblia judaica conhecida como lei, equivalente aos cinco primeiros livros do AT).

6) Como Jesus responde à pergunta do doutor da lei: Mestre, o que é preciso que eu faça para possuir a vida eterna?

Jesus lhes respondeu: Que está escrito na lei? Que ledes nela? Ele lhe respondeu: Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, de todas as vossas forças e de todo o vosso espírito, e vosso próximo como a vós mesmos. Jesus lhe disse: Respondeste muito bem; fazei isso e viverás.

Comentário: Jesus respondeu à pergunta com outra pergunta. A resposta do doutor da lei mostra que ele conhece a lei, mas a conhece na letra, não na prática. E é isso que Jesus quer lhe mostrar, fazê-lo refletir sobre esse ponto. A Vulgata, para exprimir a palavra amar, serve-se do verbo dilligere que significa escolher, eleger, preferir. Quer dizer, o amor que temos a Deus é acompanhado de escolha, de eleição, de preferência.

7) E quem é o meu próximo?

Jesus explicita que, diante do homem caído, passara um sacerdote e um levita, sem lhe dar atenção. Em seguida, veio o samaritano, que o socorreu. Daí, a pergunta: quem foi o próximo?

Comentário: para ter amor ao próximo é preciso ver, sentir a contrição do seu semelhante e ter um sentimento de piedade pela miséria alheia.

8) Por que o conceito de caridade está expresso nesta parábola?

A caridade é a perfeição do amor. O samaritano cedeu o seu tempo, o seu dinheiro e a sua pessoa para ajudar o seu próximo, que nem sabia quem era.

9) Como Allan Kardec interpreta esta parábola?

No quadro desta parábola é preciso separar a figura da alegoria. A homens que estavam ainda na infância da espiritualidade, Jesus precisou utilizar-se de imagens materiais, surpreendentes e capazes de impressionar. Mas ao lado dessa parte acessória e figurada do quadro, há uma idéia dominante: a da felicidade que espera o justo e da infelicidade reservada ao mau. Jesus não fala das convenções externas da religião; simplesmente quer exaltar a caridade, o único meio de salvação da alma. É por essa razão que Jesus coloca o Samaritano, considerado herético, acima do ortodoxo que falta com a caridade. (1)

(1) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39 ed., São Paulo: Ide, 1984 (capítulo XV, item 2 e 3, p. 198 a 201)

São Paulo, maio de 2009

Parábola do Filho Pródigo

(Lucas, 15, 11-32)

Sérgio Biagi Gregório

Texto: Disse ainda Jesus: Certo homem tinha dois filhos, e o mais moço disse a seu pai: — Dai-me a parte da herança que me cabe. E o pai repartiu entre ambos a sua fazenda.

1) Quem é o pai?

Resposta: O pai da família é Deus. Esta parábola procura mostrar os descasos do coração humano e o beneplácito do amor divino. O filho mais moço representa o ser humano sem experiência e, portanto, mais afoito pelas aventuras na vida.

Texto: Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu, e partiu para um lugar distante, onde dissipou a sua fortuna vivendo luxuriosamente.

2) Por que o lugar distante?

Resposta: O lugar longínquo representa a distância dos conselhos e das recriminações do pai. É o lugar do erro, da liberdade viciosa, do dinheiro, dos prazeres. De certa maneira, ficou carente da proteção espiritual do pai e, por isso mesmo, não pode evitar os males pelos quais passou.

Texto: Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome nessa região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para a roça, cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a lavagem que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam.

3) O que podemos entender por essa fome?

Resposta: A parábola é sempre interpretação. Nesse caso, podemos entender como a indigência do amparo divino. Afastando-se dos ensinos de Jesus e dos bons Espíritos, precipitou-se no vazio espiritual. Caiu nas garras do maligno.

Texto: Então, caindo em si, disse: Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome... Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados. Então se levantou, e foi ao encontro do pai.

4) Como interpretar o "caindo em si"?

Resposta: É preciso ponderar se o "caindo em si" não é demasiadamente tardio. Judas sonhou com o domínio político, mas quando caiu em si, Jesus já tinha sido entregue aos juízes. O "caindo em si" mostra a nossa percepção do erro, o arrependimento e a tomada de posição para a nova vida, como fizeram Maria de Madalena, Pedro, Paulo e outros. O Espírito Emmanuel, ao comentar essa passagem, diz: "Cai, contudo, em mesmo, sob a benção de Jesus e, transferindo-te, então, da inércia para o trabalho incessante pela tua redenção, observarás, surpreendido, como a vida é diferente".

5) E o levantar-me-ei e irei ter com meu pai...?

Resposta: É sair da obscuridade para a luz, da ociosidade para a ação no bem, do remorso, do arrependimento para a edificação em Jesus. Quantos de nós, chafurdados nos desvarios das paixões, não clamamos para os benfeitores nos ajudarem nessa posição, exigindo que atendam aos nossos desejos. Lembremos de que o aperfeiçoamento pede esforço, labuta, trabalho de regeneração interior.

Texto: Quando ainda estava longe, o pai o avistou, e teve compaixão. Saiu correndo, o abraçou, e o cobriu de beijos. Então o filho disse: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho.

6) Como explicar a compaixão do pai?

Resposta: O pai não esperou que o filho lhe explicasse toda a sua amargura. Teve compaixão do filho que voltou ao lar. O pai, de relance, percebeu toda a dor que o seu filho tinha passado. Para que aumentá-la com exigências ou explicações? Simplesmente recebeu-o nos braços.

Texto: Mas o pai disse aos empregados: Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés.

7) O que significam a túnica, o anel e as sandálias?

Resposta: A túnica representa a recompensa do perdão. O anel era um sinal de distinção. O calçado indicava um homem livre, porque os escravos andam descalços.

Texto: Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado. E começaram a festa.

8) Por que o novilho?

Resposta: Os judeus usavam de carne muito raramente. O banquete em que se servia um novilho gordo e dos melhores do rebanho, indicava bem a alegria que reinava na casa.

Texto: O filho mais velho estava na roça. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados, e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: É seu irmão que voltou. E seu pai, porque o recuperou são e salvo, matou o novilho gordo. Então, o irmão ficou com raiva, e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele.

Mas ele respondeu ao pai: Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo.

Então o pai lhe disse: Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas, era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado.

9) Como entender a censura do outro filho?

Resposta: Se um filho foi perdulário, o outro foi egoísta. Este procede como quem lastima o dever cumprido.

10) O que se depreende desta parábola?

Esta é uma das mais conhecidas e sugestivas parábolas evangélicas. Foi apresentada por Jesus, aos que o censuravam por dar bom acolhimento aos "pecadores". Jesus quer chamar a atenção do ser humano quanto ao perdão incondicional. Quer ensinar-nos que o Pai, misericordioso que é, está sempre disposto a nos dar uma nova oportunidade, mesmo que tenhamos caído nos maiores deslizes. Basta apenas nos arrependermos e fazermos os esforços necessários para nos redimirmos do erro.

Fonte de Consulta

XAVIER, F. C. Fonte Viva, pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, [s.d.p.], capítulo 13 e 88.

XAVIER, F. C. Palavras de Vida Eterna, pelo Espírito Emmanuel. 8. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1986.

São Paulo, julho de 2009.

e-mail: sbgregorio@gmail.com

 

Parábola do joio e do trigo

1) O que se entende por parábola? E joio?

As parábolas nada mais são do que ensinamentos paralelos a uma lição principal. É a apresentação de uma realidade concreta que evoca, por comparação, uma realidade superior, notadamente moral e espiritual.

O joio – do grego zizanion (cizânia) significava uma gramínea anual que parecia muito com trigo até que amadurecesse.

2) Como está posta esta parábola?

"Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas trigo, recolhei-o no meu celeiro." (Evangelho segundo São Mateus 13:24-30)

3) O que podemos dizer acerca do reino dos céus?

O "reino dos céus" é uma figura de linguagem usada por Jesus. Não se refere a um lugar circunscrito, mas ao estado de espírito daqueles que põe em prática as leis naturais impressas por Deus em nossa consciência, notadamente a lei de justiça, amor e caridade.

4) Como interpretar a semeadura do trigo?

É uma continuação da "parábola do semeador". Na parábola do semeador, há uma situação hipotética, em que a semente cai em terrenos de diversas qualidades. Aqui, há um tipo específico de semente, a do trigo. Com o trigo podemos fazer farinha, e da farinha, o pão, o macarrão etc. É um produto necessário à manutenção da vida humana. Devemos associá-lo ao bem.

5) Os trabalhadores dormiram por negligência?

Os trabalhadores do campo adubaram a terra, cavaram os buracos, jogaram as sementes de trigo e cuidaram de regar as plantinhas tenras. Depois desse esforço, foram dormir, descansar pelo dia trabalhado. Os inimigos, porém, esperaram a noite vir, trabalharam no escuro e jogaram a erva daninha. É um chamamento à vigilância. "É pelo descuido do lavrador que a colheita se perde, é pelo descuido do professor que o aluno se torna ocioso, é pelo descuido da educação que os delinqüentes juvenis surgem. Assim, para que o bem se conserve e se dilate haverá necessidade de esforço constante".

6) Devemos arrancar o joio ou deixá-lo crescer com o trigo?

Nesta parábola, o joio deve crescer junto com o trigo. Por quê? Porque estas ervas são parecidas. Caso tencionássemos tirar o joio, poderíamos, por engano, arrancar também o trigo. Neste caso, Jesus está nos dizendo que o mal deve conviver com o bem, sem, contudo, que o bem seja conivente com o mal. O mal deve ser sempre combatido. Há, porém, a necessidade de esperar o momento certo, pois qualquer coisa que é feita fora de hora pode não produzir os seus frutos.

7) A que nos remete esta parábola?

Esta parábola remete-nos à lei de causa e efeito. Todos somos livres para semear; a colheita, porém, é  obrigatória. Podemos semear tanto o trigo quanto o joio. É como a opção entre o bem e o mal. Se nossos atos optarem pela prática do bem, a recompensa futura será mais liberdade; caso optemos pelo mal, estaremos prisioneiro do mesmo.

8) A condição humana está mais para o trigo ou para o joio?

O mal é inerente à imperfeição humana. Na Terra, somos todos mais ou menos imperfeitos; por isso, a necessidade de compaixão de uns para com os outros. A convivência com o mal é a resignação da alma ante uma situação irremediável. O homem de bem deve combater o mal, mas sempre de acordo a mansuetude; a guerra e a violência podem produzir mais guerra e violência.

28/12/2009

 

Parábola do Semeador

Sérgio Biagi Gregório

1) O que é uma parábola?

Parábola é uma figura de linguagem que evoca paralelismo e comparação. Diz-se uma coisa para se entender outra. Conta-se uma história para se ter um desfecho de ordem moral. As parábolas contadas por Jesus mostravam a realidade terrestre, mas o seu objetivo era chamar a atenção para a realidade espiritual.

2) Como está expresso o texto bíblico?

O semeador lançou as sementes:

a) uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vindo os pássaros do céu a comeram;

b) outra caiu nos lugares pedregosos onde não havia muita terra; e logo nasceu porque a terra onde estava não tinha profundidade. Mas o Sol tendo se erguido em seguida, a queimou; e, como não tinha raízes, secou;

c) outra caiu nos espinheiros, e os espinhos, vindo a crescer, a sufocaram;

d) outra, enfim, caiu em boa terra, e deu frutos, alguns grãos rendendo cento por um, outros sessenta e outros trinta.

"Que ouça aquele que tem ouvidos para ouvir". (Mateus, cap. 13, 1 a 9)

3) Quem é o semeador?

Jesus é o divino semeador. Ele ausentou-se da grandeza que lhe acolhe e veio até nós para nos ensinar o caminho da evolução espiritual. O semeador saiu a semear, ou seja, saiu para transmitir as palavras de vida eterna, que são sementes, avisos, advertências quanto ao reino de Deus.

4) O que é a semente?

A semente é a palavra de Deus. São avisos, advertências que nos fazem refletir sobre a salvação de nossa alma enfermiça.

5) O que significa a semente que caiu ao longo do caminho?

"Todo aquele que escuta a palavra do reino e não lhe dá atenção, o espírito maligno vem e arrebata o que havia sido semeado em seu coração; é aquele que recebeu a semente ao longo do caminho". São as pessoas que se dedicam exclusivamente às coisas materiais, fechando os seus ouvidos para as coisas do espírito. O foco da atenção está na matéria; as palavras da vida eterna não lhes causam nenhum impacto.

6) O que significa a semente que caiu no meio das pedras?

"Aquele que recebeu a semente no meio das pedras é o que escuta a palavra, e que a recebe na hora mesmo com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, e não está senão por um tempo; e quando sobrevêm os obstáculos e as perseguições por causa da palavra, a toma logo como um objeto de escândalo e de queda".

7) O que significa a semente que caiu no meio dos espinhos?

"Aquele que recebe a semente entre os espinhos é o que ouve a palavra; mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas, sufocam a palavra, e fica infrutífera".

8) O que significa a semente que caiu em terra firme?

"Mas, aquele que recebe a semente numa boa terra é aquele que escuta a palavra, que lhe presta atenção e que dá fruto, e rende cento, ou sessenta, ou trinta por um". (Mateus, cap. 12, 3 a 23)

9) Por que razão se diz que esta é a parábola das parábolas?

Porque ela sintetiza os caracteres predominantes em todas as almas. Ela representa as diferenças que existem na maneira de aproveitar os ensinamentos do Evangelho. Refletindo sobre os vários tipos de semente, expostos por Jesus, podemos nos avaliar e verificar como anda o nosso progresso espiritual.

10) Como o Espírito Emmanuel nos elucida sobre esta parábola?

"Aprendendo a ciência de nos retirarmos da escura cadeia do ‘eu’, excursionaremos através do grande continente denominado ‘interesse geral’. E, na infinita extensão dele, encontraremos a ‘terra das almas’, sufocada de espinheiros, ralada de pobreza, revestida de pedras ou intoxicada de pântanos, oferecendo-nos a divina oportunidade de agir a benefício de todos". (Xavier, s.d.p., cap. 64)

11) O que se pode deduzir desta parábola?

A semente é sempre a mesma. Ela é de natureza divina. O terreno que lhe dá guarida é que deve se modificar para fazê-la crescer e dar frutos de cento por um.

Bibliografia Consultada

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39 ed. São Paulo: IDE, 1984.

XAVIER, F. C. Fonte Viva, pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, [s.d.p.]

São Paulo, outubro de 2008

Parábola dos Talentos

Sérgio Biagi Gregório

1) Que é uma parábola?

Parábola é uma figura de linguagem que evoca paralelismo e comparação. Diz-se uma coisa para se entender outra. Conta-se uma história para se ter um desfecho de ordem moral. As parábolas contadas por Jesus mostravam a realidade terrestre, mas o seu objetivo era chamar a atenção para a realidade espiritual.

2) Qual o conceito de talento?

a) Peso e moeda da antiga Grécia e Roma. O talento era uma moeda de conta ou imaginária usada na Grécia, valendo 60 minas, e a mina 100 dracmas, o que computava o talento em 6.000 dracmas.

b) Grau de aptidão de uma pessoa, que é capaz de adquirir conhecimentos, facilmente, em certos setores do conhecimento.

c) Para Kant, o talento é "uma superioridade da faculdade conhecedora, que não provém do ensino mas da aptidão natural do sujeito".

3) Como está expressa a "Parábola dos Talentos"?

A Parábola dos Talentos (Mateus, cap. 25, vv. 14 a 30) retrata a situação de um homem que, ao ausentar-se para longe, chamou seus servos, e entregou-lhes os seus bens. Ao primeiro deu cinco talentos, ao segundo, dois e ao terceiro, um. Os dois primeiros negociaram os talentos recebidos e devolveram, respectivamente, dez e quatro talentos. O terceiro devolveu apenas o que havia recebido. Os que multiplicaram seus talentos ganharam novas intendências. Mas o que o guardou, até este o amo lhe tirou, dizendo: "Porque a todo o que já tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; e ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que parece que tem". (Kardec, 1984, p. 207)

4) O que se deduz do texto acima?

A distribuição do trabalho foi feita de acordo com a vocação e capacidade de cada um. Bastava que eles fossem fiéis ao estabelecido. O que enterra o talento atrofia a sua personalidade.

5) O que se entende por "tirar-se-lhe-á até o que parece que tem"?

Deus não tira nada de ninguém. Porém, tudo o que não for usado, atrofia-se. É o artista que não usa o palco, o pintor que não usa o pincel, o escritor que não usa a caneta. Parece que lhe foi tirado o talento, mas este apenas está em desuso, tornando-se inútil para o cômputo geral da sociedade.

6) Como o Irmão X ilustra esta parábola?

O Espírito Irmão X, no livro Estante da Vida, psicografado por F. C. Xavier, interpreta a parábola nos seguintes termos: ao primeiro o senhor dera Dinheiro, Poder, Conforto, Habilidade e Prestígio; ao segundo, Inteligência e Autoridade; ao terceiro, o Conhecimento Espírita. O primeiro acrescenta Trabalho, Progresso, Amizade, Esperança e Gratidão; o segundo, Cultura e Experiência; o terceiro devolve intacto. Em vista do ocorrido, o senhor ordena que se tire o Conhecimento Espírita desse último e o dê aos dois primeiros. (Xavier, 1974, cap. IV)

7) Como interpretar metaforicamente esta parábola?

Metaforicamente, esta parábola refere-se à responsabilidade na multiplicação dos bens recebidos. Se o Criador houve por bem ofertar-nos a luz do Conhecimento Espírita, não podemos ocultá-lo com receio de represálias e dissabores. Espargindo a luz da verdade vamos iluminar os detentores do Poder, do Dinheiro, da Inteligência etc. Com isso, ajudaremos a construir um mundo mais justo e mais fraterno.

8) Relacione a "Parábola dos Talentos" e a riqueza.

A "Parábola dos Talentos" tem intima relação com a riqueza. Tanto é verdade que está inserida no capítulo XVI – Não se Pode Servir a Deus e a Mamon –, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. A riqueza, segundo o Espiritismo, é uma prova bem mais difícil do que a da pobreza, em virtude dos desejos e prazeres envolvidos com o dinheiro. O Espiritismo não condena a riqueza e, sim, o apego aos bens materiais. Lembremo-nos do jovem que interrogou Jesus sobre os meios de ganhar a vida eterna. Jesus lhes respondeu: "Desfazei-vos de todos os vossos bens e segui-me". O jovem recua ante esta ordem. Jesus, porém, não queria que o jovem se despojasse de todos os seus bens para que obtivesse a sua salvação. Ele queria apenas mostrar que o apego aos bens terrestres é um obstáculo à salvação.

9) O que se pode concluir desta parábola?

Deus, às vezes, nos dá uma única intendência. Cabe-nos, assim, fixar a nossa atenção e a nossa concentração nesse ponto, nesse norte. Qualquer desvio é uma grande perda para a evolução de nossa alma imortal. Empenhemo-nos em propagar o nosso talento para que toda a Humanidade possa usufruir dele também.

Bibliografia Consultada

XAVIER, F. C. Estante da Vida, pelo Espírito Irmão X. 3. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1974.

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.

Novembro/2006

Paranormalidade

Sérgio Biagi Gregório

1) O que se entende por normalidade? E paranormalidade?

A normalidade é definida em função dos cinco sentidos físicos: paladar, tato, audição, visão e olfato. Os acontecimentos, que escapam a esses cinco sentidos, são catalogados como fenômenos paranormais. Entendamos a diferença por um exemplo: suponha que tenha havido um incêndio em determinado lugar. As pessoas que estavam no local viram o fenômeno normal. Suponha que uma pessoa, que não tenha visto nem ouvido, mas teve acesso a essa informação por vias não comuns. Este é um paranormal. Há a possibilidade de alguém prever ou perceber este acontecimento de um lugar bem distante. Este também é classificado como paranormal. (1)

2) Qual o limite entre o normal e o paranormal?

Questão de grau nem sempre fácil de precisar. O fenômeno normal pertence aos cinco sentidos; o paranormal, a tudo o que escapa aos cincos sentidos. O ser humano, contudo, possui muito mais do que cinco sentidos. Há a percepção de movimentos musculares, de impressões de equilíbrio... Mais: a nossa percepção não é apenas percepção, é também análise, reflexão, conceituação, o que dificulta ainda mais limitar onde termina um e começa o outro.

3) Paranormalidade é sinônimo de mediunidade?

Sim e não. Quando a paranormalidade se refere à psicografia, à xenoglossia e à materialização, estamos diante de um fenômeno mediúnico. Neste caso, a resposta é sim. Quando a paranormalidade se refere à telepatia, à clarividência e à premonição, estamos diante de um fenômeno anímico. Aqui, a resposta é não. Observação: a maioria dos fenômenos analisado pela parapsicologia é de cunho anímico e não mediúnico.

4) Desde quando os fenômenos paranormais foram englobados pela parapsicologia?

Devido à falta de uniformidade dos fenômenos paranormais, o 1.º Congresso Internacional de Parapsicologia, na cidade de Utrecht, em 1953, adotou como oficial a nomenclatura de Thouless e Wiesner, que sugeriram englobar todos os fenômenos paranormais, sob a designação genérica de fenômenos  Psi (letra grega). A palavra Psi aqui não tem qualquer relação direta com o termo grego psyché (alma), mas, unicamente, com a 23a letra do alfabeto grego. Desta forma, J. B. Rhine classificou os fenômenos de telepatia, clarividência e pré e post-coginição (P.E.S.) como função "psi-gama", a telecinesia, a teleplastia e a psicocinesia – dinamismo psíquico – como função "psi-kapa". (2)

5) O que se entende por parapsicologia?

A parapsicologia é uma atividade de pesquisa concernente à zona fronteiriça, ainda desconhecida ou mal conhecida, que separa os estados psicológicos considerados como habituais e normais, dos estados excepcionais, ou patológicos. Pretende, assim, colocar os fenômenos que estuda à margem da psicologia, e também da patologia. Segundo Robert Amadou, "A parapsicologia coloca em evidência o estudo experimental das funções psíquicas ainda não incorporadas ao sistema da psicologia científica, com vistas à sua incorporação nesse sistema ampliado me completado".

6) É confiável o uso de estatística para detectar o fenômeno paranormal?

René Warcollier, parapsicólogo francês, disse que Rhine renuncia, por método, a alcançar a ave rara do fenômeno no estado puro, com a condição de se apoderar infalivelmente de algumas penas que demonstrem a existência da ave. Observe o uso da telepatia em nossos trabalhos do Colégio de Médium. Adivinhar números ou naipes do baralho é totalmente diferente de se captar o problema da pessoa e, a partir daí, passar uma assistência espiritual.

7) Deve o médium, tal qual o paranormal, cobrar pelas suas consultas?

A reportagem da Revista Superinteressante, de julho de 2009, relata que Joseph McMoneagle cobra 250 dólares por hora de trabalho, e a vidente Noreen Renier, 1.000 dólares por consulta. Para o Espiritismo, a mediunidade deve ser gratuita, pois está fundamentada na frase "dar de graça o que graça receber". O médium espírita deve ter consciência de que não é nenhum missionário na acepção da palavra, mas um Espírito bastante endividado, que reencarnou com a tarefa de redimir os seus erros do passado. Para tanto, deve encaminhar para o bem, as pessoas que houvera desviado em encarnações passadas. Cobrar por algo que não lhe pertence pode lhe trazer conseqüências funestas, inclusive com a perda da própria mediunidade.

Fonte de Consulta

(1) FARIA, Osmard Andrade. O Que é Parapsicologia. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Primeiros Passos, 27)

(2) ANDRADE, H. G. Parapsicologia Experimental. 2. ed. São Paulo: Boa Nova, 1976.

São Paulo, julho de 2009.

 

Pergunta e Pergunta Filosófica

Sérgio Biagi Gregório

1) Que é uma pergunta?

Palavra ou frase com que se interroga. Indagação feita com o intuito de obter uma resposta. Ditado: "Quem pergunta quer saber". Tipos de perguntas: Que é isto? Que horas são? Quem foi Allan Kardec?

2) Que é uma pergunta filosófica?

As questões filosóficas não são pontuais, isoladas, mas estabelecem redes, conectam-se a outras questões, tecendo um campo mais amplo de investigação. A pergunta filosófica relaciona-se com a admiração, a crítica, a reflexão e a vivência do sujeito. A pergunta filosófica sintetiza o objetivo central da filosofia, ou seja, inclui o conhecimento de si mesmo, a relação do sujeito com o próximo e a consciência do mundo que o rodeia.

3) Ensinar a pensar é ensinar a perguntar?

Sim. Observe alguns livros de filosofia. Os autores, em cada capítulo, partem de questões provocativas. Tomemos como exemplo o capítulo III, Que é Bem e que é Mal?, do livro de S. E. Frost Jr., Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. Eis as perguntas iniciais: Qual a medida do bem e do mal? Como podemos saber se um ato é bom ou mal? Existe, na própria natureza do universo, um código de leis que determine o bem e o mal? Ou é a bondade e a maldade uma questão de relação entre um ato e outros atos?

4) Como reaprender a perguntar?

Admirar-se, espantar-se com o que ocorre diariamente e daí elaborar uma pergunta. Não se deve conformar com o que foi dito pela mídia ou pela boca de uma autoridade. É preciso buscar algo que esteja por detrás das aparências. "Para pressentir no mundo outra realidade, precisamos cavar muita terra como quem busca ouro. A filosofia é uma longa atividade de escavação".

5) Em que consistiam as perguntas de Sócrates?

As perguntas de Sócrates não tinham o objetivo de obter uma resposta definitiva. O que ele queria era, através de um encadeamento de perguntas e respostas, aprofundar o conhecimento acerca de um determinado tema. Preocupava-se em passar da opinião ao conceito, ou da doxa a episteme, sem, contudo, chegar a uma conclusão sobre o assunto proposto.

Lembrete: "O alvo da filosofia é fazer as perguntas certas, não descobrir as respostas certas".

6) Quem sou eu é uma pergunta filosófica?

Informar o nome, o estado civil, o endereço e a idade não é resposta filosófica. Mesmo acrescentando alguns dados, como por exemplo, excelente professor de Direito ou coisas semelhantes, ainda não é uma resposta filosófica. Para ser filosófica, a resposta tem a ver com vivência, atitude de reflexão e estado de admiração. O exemplo de Santo Agostinho é pertinente: Dizia que todas as noites, antes de adormecer, repassava o seu dia para ver como fora com as suas palavras, os seus pensamentos e os seus atos. Se percebesse que tinha ofendido o seu próximo, pedia silenciosamente o seu perdão.

7) Toda a pergunta precisa de resposta?

Não. Há muitas perguntas que fazemos simplesmente no intuito de apresentar um tema ou uma questão. É como esquentar o motor do carro antes de pegar a estrada. A pergunta que precisa de resposta é aquela que prende a nossa atenção, é aquela que diz respeito a uma necessidade peremptória do nosso espírito imortal.

8) Como fazer perguntas relevantes?

As perguntas que contribuem para a construção do conhecimento são perguntas relevantes. Deve-se tomar consciência se as nossas perguntas se dirigem para tal propósito.

Para reflexão: desde que entramos no ensino fundamental, ou mesmo antes, somos geralmente ensinados a dar respostas a questões formuladas por outras pessoas. O mero responder pode consistir em um bloqueio no processo de construção do conhecimento, pois não costumamos observar os limites de nossas respostas.

São Paulo, julho de 2006.

 

Perispírito

Sérgio Biagi Gregório

1) O que é o perispírito?

Perispírito é o elo de ligação entre o Espírito e o corpo físico. Tal qual a semente possui o perisperma, o Espírito, por comparação, possui o perispírito.

2) Como se forma o perispírito?

O perispírito se forma do fluido universal de cada globo. Conforme o teor evolutivo do Espírito, ele tomará, deste fluido, as partes mais condensadas ou mais rarefeitas. Por esta razão, cada Espírito terá o seu perispírito, com peso especifico próprio, diferente de todos os outros.

3) O perispírito tem forma?

A forma do perispírito é a forma humana. Contudo, ela pode ser modificada conforme o arbítrio do Espírito.

4) Quando se vê um Espírito, vê-se o Espírito ou o perispírito?

A vidência mostra a realidade do Espírito. É por ela que aprendemos que o Espírito é sempre um todo e não pode estar separado do corpo físico ou do corpo espiritual. Quando vemos um Espírito, vemo-lo com o seu perispírito, pois é este que dá forma ao Espírito propriamente dito.

5) Por que a solução de muitos problemas de nossa vida está no perispírito?

O perispírito é o molde do corpo físico. Ele pode ser entendido como um campo mental do Espírito. Nesse campo mental estão registradas todas as nossas ações passadas, tanto as boas quanto as más. Nesse sentido, todos os excessos que cometermos nesta existência poderão danificar esse campo mental. Numa próxima encarnação poderemos vir com ele manchado, como doença, como uma prova a suportar etc.

6) Nos mundos mais evoluídos, o perispírito desaparece?

Não. Por uma simples razão: o universo é composto de dois princípios, que são o Espírito e a matéria. Como o perispírito é matéria, por mais tênue que se torne, ainda será matéria e fará parte do Espírito. É possível que, por ser demasiado rarefeito, se pense que não exista mais matéria, que tenha se extinguido.

7) Quando passamos de um mundo para outro, levamos o perispírito?

Allan Kardec diz-nos que ao deixarmos, por exemplo, o planeta Terra e reencarnarmos em Júpiter, deixamos o perispírito aqui e tomamos outro do planeta Júpiter. Como isso é possível?

8) A sede da memória está localizada no Espírito ou no perispírito?

No Espírito. Suponha, por exemplo, a mudança de perispírito. Se deixarmos o nosso perispírito neste planeta e reencarnamos em outro, como manteríamos a memória?

Fonte de Consulta


KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975.

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.

KARDEC, A. O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Doutrinadores. São Paulo:Lake, [s.d.p.]

São Paulo, fevereiro de 2009

Prolegômenos

Sérgio Biagi Gregório

1) O que se entende por prolegômenos?

Prolegômenos é o estudo preliminar, introdutivo e simplificado. Segundo a etimologia grega, é o que é dito anteriormente: introdução ou exposição preliminar antes do desenvolvimento de uma teoria.

2) O que Allan Kardec diz no início do seu prolegômenos?

Allan Kardec enfatiza que cabe à ciência espírita estudar os fenômenos que a ciência natural não consegue explicar. A ciência natural não consegue explicar, por exemplo, a existência de Espíritos. Allan Kardec, para demonstrar a sua existência, reporta-se ao princípio de que "todo o efeito inteligente tem como causa uma força inteligente". A seguir, diz que essa força, quando evocada pode entrar em comunicação com os seres humanos.

3) O que se depreende das instruções dadas pelos Espíritos a Allan Kardec?

Que a obra não seria de Allan Kardec, mas dos Espíritos. Por isso, diz-se Doutrina dos Espíritos e não doutrina de Allan Kardec. Recordemos a frase: "Ocupa-te, cheio de zelo e perseverança, do trabalho que empreendeste com o nosso concurso, pois esse trabalho é nosso. Nele pusemos as bases de um novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade. Mas, antes de o divulgares, revê-lo-emos juntos, a fim de lhe verificarmos todas as minúcias".

4) Quando deveria publicar a obra?

Tudo deve chegar a seu tempo. Os Espíritos superiores sabem encaminhar os acontecimentos para que o fim (Doutrina dos Espíritos) seja alcançado. Antes da publicação, incentivam o codificador a se fortalecer para suportar as dificuldades que hão de vir, pois toda a ideia nova traz como conseqüência contrariedades, confusões e lutas. Segundo a palavra dos Espíritos: "Entre os ensinos que te são dados, alguns há que deves guardar para ti somente, até nova ordem. Quando chegar o momento de os publicares, nós to diremos. Enquanto esperas, medita sobre eles, a fim de estares pronto quando te dissermos".

5) O que significa colocar o ramo da videira no cabeçalho do livro?

O ramo da videira é a imagem perfeita da relação Espírito-Matéria. Neste ramo estão os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, ou seja, a união do Espírito ao corpo físico, através do perispírito. Nas palavras dos Espíritos: "Porás no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos, porque é o emblema do trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é a cepa; o espírito é o licor; a alma ou espírito ligado à matéria é o bago. O homem quintessencia o espírito pelo trabalho e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo o Espírito adquire conhecimentos".

6) Quais foram as advertências dos Espíritos em relação às críticas?

Os Espíritos superiores, prevendo as críticas e, com elas, o desencorajamento, municiaram-no de palavras de reconforto. Eles disseram: "... Prossegue sempre. Crê em Deus e caminha com confiança: aqui estaremos para te amparar e vem próximo o tempo em que a Verdade brilhará de todos os lados".

7) Por que os Espíritos de luz enalteceram a perseverança e a humildade?

Os Espíritos de luz invocam a humildade e o desinteresse, repudiando o orgulho e a ambição, pois quando o ser humano vale-se da religião para atingir os seus interesses materiais e pessoais, põe por terra a sua ética. É por isso que a humildade é o fundamento de todas as virtudes. Recomendam-lhe também a perseverança, pois os frutos da Doutrina não apareceriam de imediato, mas teriam conseqüências para gerações futuras.

8) Quais são os Espíritos que o auxiliaram?

São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg etc.

9) Que conclusão podemos tirar dos prolegômenos?

Allan Kardec, ao codificar a Doutrina Espírita, fugiu do ESPÍRITO DE SISTEMA. O espírito de sistema é obedecer à ideia de um filósofo, de um religioso, de um determinado pensador. Sabemos que todos eles, por mais apoio que tenham recebido dos Espíritos de luz, são limitados. Quanto à Doutrina Espírita, que é obra de diversos Espíritos e diversos médiuns espalhados por todo o mundo, podemos ter certeza da impessoalidade das ideias veiculadas.

Estas foram as orientações dadas a Allan Kardec para que o edifício doutrinário fosse construído sobre um arcabouço firme, tanto teórico quanto prático. Deduz-se que, se a base é sólida, todo o conhecimento posterior pode lhe ser acrescentado, sem ruí-la, mas fortificando-a.

Bibliografia Consultada

O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec

São Paulo, abril de 2009.

Presciência

Sérgio Biagi Gregório

1) O que é presciência?

É a previsão do futuro. Filos. Chamam os teólogos presciência ao atributo pelo qual Deus conhece todas as coisas, ou ao conhecimento que Deus tem de todo o presente, o passado e o futuro, não só no que respeita ao Homem e a tudo que ao Homem concerne, mas também no relativo à Natureza, seu curso, fenômenos duração etc. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)

2) Como é possível o conhecimento do futuro?

No mundo espiritual, o espaço e a duração não existem para os Espíritos. Contudo, a extensão e a penetração da vista são proporcionadas à sua depuração e à elevação que alcançaram na hierarquia espiritual. Para o Espírito desencarnado, os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, mas simultaneamente. O Espírito vê, de relance, o começo e o fim do período. Desta forma, todos os eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da Terra são presente para ele, que, por esta razão, poderia nos dizer que tal coisa acontecerá em tal época.

3) Por que, então, o futuro nos é infenso?

Porque o conhecimento do futuro, tanto quanto a lembrança do passado, poderia ser prejudicial à nossa evolução espiritual. Esse conhecimento poderia nos travar o livre-arbítrio, prejudicando-nos o trabalho que nos cumpre executar no bem. O desconhecimento do bem e do mal com que toparemos na vida constitui o verdadeiro teste do nosso progresso.

4) Há futuro para Deus?

Para o Criador, o tempo não existe. Tanto o princípio quanto o fim do mundo lhe são presente. Nessa linha de raciocínio, que é a duração da vida de um ser humano, de uma geração, de um povo?

5) Se o futuro nos é infenso, qual a razão dos videntes?

Deus, na infinita bondade, permite que conheçamos o futuro, desde que para isso haja um fim útil e necessário. Não deve ser simples questão de curiosidade.

6) Como se dá a manifestação do futuro?

Pelo êxtase, pelo sonambulismo e pela fotografia do pensamento. Explicação: a encarnação amortece a manifestação do espírito, sem, contudo eliminá-la por completo, porque a alma não fica encerrada no corpo como numa caixa. De acordo com sua capacidade, pode penetrar mais ou menos nas questões do futuro.

7) É possível prever o futuro do Espiritismo?

Sim. Os Espíritos dizem que haverá um triunfo próximo, apesar dos obstáculos. A previsão se torna fácil porque é obra deles. Acrescentam, ainda, que tudo aquilo que estiver nos desígnios de Deus, acontecerá. Se aquele que recebeu a missão falhar, outros tomarão o seu lugar, de modo que o fim seja alcançado.

8) Por que razão as predições não têm cunho de certeza?

Para a contagem do tempo, precisamos pontos de referência. A contagem varia para cada um dos mundos. Em Júpiter, por exemplo, os dias equivalem a dez horas terrestres e os anos a mais de doze anos.

9) Como os Espíritos procedem em suas predições?

Para os Espíritos superiores, suas previsões são advertências. Os Espíritos inferiores que, de tanto serem interrogados, acabam fornecendo datas e lugares, o que pode gerar a mistificação.

10) O que falar das profecias de Nostradamus, do Apocalipse de João e das diversas profecias verificadas ao longo da história da humanidade?

O Espírito Emmanuel, em A Caminho da Luz, coloca o Profetismo e o Apocalipse na sua verdadeira dimensão, ou seja, na dimensão da mediunidade. O Espírito Emmanuel retira da obscuridade o simbolismo e nos dá uma interpretação científica, baseada na ascendência do Plano Espiritual sobre as ocorrências históricas.

Bibliografia Consultada

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975.

Maio de 2008

Os Quatro Evangelhos

Evangelium virtus Dei est. "O Evangelho é a força de Deus". (Rom 1, 16)

Sérgio Biagi Gregório

1) Qual a diferença entre Evangelho e Evangelhos?

A palavra Evangelho, do grego euaggélion, pelo latim evangelium, significa boa nova, boa notícia. Em se tratando do Novo Testamento, são os alegres anúncios trazidos por Jesus Cristo. Os Evangelhos são os livros compostos pelos evangelistas Marcos, Mateus, João e Lucas. Há, também, um quinto Evangelho, que são as epístolas do Novo Testamento. Em realidade, o Evangelho é um só, o alegre anúncio. Como esse alegre anúncio foi feito por diversas pessoas, para cada uma dessas pessoas torna-se um Evangelho, que reunidos formam os Evangelhos.

2) Quais são as vantagens e as desvantagens de se analisar o quadriforme Evangelho pela concordância?

As desvantagens das concordâncias são: 1) despersonalizam os Evangelhos; 2) nivelam acontecimentos que os Evangelhos ressaltam diversamente; 3) impedem o enriquecimento de notas que assinalam a relação de fatos e ensinamentos de Jesus.

O valor da concordância está em: 1) melhor conhecimento do ministério de Cristo; 2) possibilidade de ler de uma vez "os quatro Evangelhos reunidos em um só", bem como dispor de um texto mais completo em palavras e circunstâncias para cada evento da vida e da pregação de Jesus.

3) Qual dos quatro Evangelhos foi escrito em primeiro lugar?

O Evangelho segundo Marcos foi o primeiro entre os evangelhos canônicos a ser escrito, por volta do ano 70, ano da destruição do Templo pelos Romanos.  O Evangelho de São Marcos é o segundo dos quatro evangelhos do Novo Testamento e um dos três chamados de sinóticos, junto com o Evangelho de São Mateus e o Evangelho de São Lucas.

4) O que se entende por evangelhos sinóticos?

Evangelhos sinóticos são aqueles que se assemelham. No caso, os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. As raízes gregas desta palavra são: sýn, "junto" e opsis, "visão". Isto permite que as concordâncias dos três evangelistas sejam impressas em forma de synopsis (sinopse). Dos 661 versículos do texto autêntico de Marcos, cerca de 610 foram incluídos em Mateus e cerca de 350 em Lucas, enquanto alguns parágrafos não apareceram nem em Mateus nem em Lucas (Mc 4,26-29; 7,32-37; 8,22-26) (1)

5) Como resumir o Evangelho segundo Mateus?

O Evangelho de Mateus, o publicano ou o cobrador de impostos, é o primeiro dos quatro. É também o mais estudado e comentado, em vista da catequese global e eclesial que o caracteriza. Esta catequese mostra que o escândalo da morte na cruz fazia parte do plano de Deus para a salvação da humanidade. Mateus traça a vida histórica e cronológica de Jesus, enaltecendo o trabalho de pregação (kerygma) do Reino dos Céus. Dividiu-o em cinco partes: 1) fundação do Reino dos Céus; 2) o Reino dos Céus em ação (os milagres); 3) o mistério do Reino dos Céus (figura velada das parábolas); 4) Reino como comunidade visível e organizada (Pedro é a pedra angular da "Igreja"); 5) aspecto escatológico do Reino dos Céus (implantação deste na terra). (2)

6) Que aspectos são relevantes no Evangelho segundo Marcos?

O Evangelho de Marcos vem em segundo lugar, embora há dados enciclopédicos que o colocam como o primeiro Evangelho. Não teve o mesmo êxito dos outros, porque o seu material estaria mais desenvolvido em Mateus e Lucas. Santo Agostinho fala que o Evangelho de Marcos é o resumo do de Mateus. A sua autoridade está fundamentada na narração de Pedro, testemunha ocular dos fatos. (2)

7) O que caracteriza o Evangelho segundo Lucas?

O Evangelho de Lucas é o terceiro Evangelho. Foi o que explicitou a sua intenção: escrever uma história de Jesus. É um Evangelho para os helenistas, pois é o único escritor que veio do paganismo. Todos os outros são de origem judaica. Sua cidade de origem é Antioquia e foi nessa cidade que surgiu o termo "cristão" para designar os seguidores de Jesus. Este Evangelho como o de Marcos, é de segundo plano, pois viveu à sombra do apóstolo dos gentios, Paulo. A sua catequese fundamenta-se em Jesus como salvador, as lições da cruz e o poder da ressurreição. (2)

8) Por que o Evangelho segundo João foi cunhado de o "Evangelho Espiritual"?

O Evangelho de João, cunhado como o "Evangelho Espiritual", aparece em quarto lugar. Ele queria penetrar na profundidade do verbo de Deus, o verbo que se fez carne, ou seja, o verbo encarnado em Jesus. O apelido "Evangelho Espiritual" deveu-se a Clemente de Alexandria, que disse: "João, o último de todos, vendo que o aspecto material da vida de Jesus fora ilustrado por outros Evangelhos, inspirado pelo Espírito Santo e ajudado pela oração dos seus, compôs um Evangelho Espiritual". (2)

Fonte de Consulta

(1) Enciclopédia Mirador Internacional

(2) BATTAGLIA, Oscar. Introdução aos Evangelhos: um estudo histórico-crítico. Tradução de Carlos A. de Costa Silva. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.

São Paulo, maio de 2009.

Reencarnação

Sérgio Biagi Gregório

1) Qual o conceito de reencarnação? É possível separar encarnação de reencarnação?

Reencarnação (re + encarnação) significa voltar a entrar na carne. A reencarnação é a volta do Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. Pode-se falar também que é a doutrina da pluralidade e da unidade das existências corpóreas, isto é, do nascimento ou renascimento de Espíritos tanto na esfera terrena como na de outros planetas.

A diferença entre encarnação e reencarnação, caso fosse necessária, seria esta: a encarnação é ato de o Espírito tomar a carne; a reencarnação, a doutrina do fato.

Rigorosamente, a encarnação seria a primeira encarnação do Espírito; a reencarnação, a segunda. E, pelo fato da partícula Re haver perdido a sua força reduplicativa, significaria os demais nascimentos. (Paula, 1976)

Observação: Allan Kardec emprega os termos encarnação e reencarnação como sinônimos.

2) As plantas reencarnam? E os animais?

Reencarnação é a volta do Espírito em um novo corpo. As plantas não têm consciência de si, elas não pensam, não têm mais do que a vida orgânica. Elas não têm um Espírito, por conseguinte, não há razão para empregarmos o termo reencarnação quando nos referirmos a elas.

Os animais, ao contrário, possuem um princípio espiritual, que tem individualidade e sobrevive ao corpo. Mesmo não tendo consciência de si, podemos usar o termo reencarnação, pois essa individualidade, em atendimento à lei de evolução, pode tomar outros corpos.

Pergunta 597. Pois se os animais têm uma inteligência que lhes dá certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria?

— Sim, e que sobrevive ao corpo.

Pergunta 597A. Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?

— É também uma alma, se o quiserdes; isso depende do sentido em que se tome a palavra; mas é inferior à do homem. Há, entre a alma dos animais e a do homem tanta distância quanto entre a alma do homem e Deus. (Kardec, 1995)

3) Podemos reencarnar em outros mundos? O que acontece com o perispírito?

Sim. Baseando-nos na teoria da pluralidade das existências e dos mundos habitados, o Espírito pode reencarnar em qualquer um desses mundos. Emigrando da Terra, o Espírito deixa aí o seu invólucro fluídico (perispírito) e forma outro apropriado ao mundo onde vai habitar.

Pergunta 187. A substância do perispírito é a mesma em todos os globos?

— Não; é mais eterizada em uns do que em outros. Ao passar de um para outro mundo, o Espírito se reveste da matéria própria de cada um, com mais rapidez que o relâmpago. (Kardec, 1995)

4) Qual o limite da encarnação?

O limite da encarnação é a perfeição do Espírito. Enquanto não o conseguir, fará tantas encarnações quantas forem necessárias, pois a benevolência de Deus é infinita. Importa-nos aproveitar bem esta encarnação.

Pergunta 186. Há mundos em que o Espírito, deixando de viver num corpo material, só tem por envoltório o perispírito?

— Sim, e esse envoltório torna-se de tal maneira etéreo que para vós é como se não existisse; eis então o estado de Espíritos puros.

Pergunta 186A. Parece resultar daí que não existe uma demarcação precisa entre o estado das últimas encarnações e o do Espírito puro?

— Essa demarcação não existe. A diferença se dilui pouco a pouco e se torna insensível, como a noite se dilui ante as primeiras claridades do dia. (Kardec, 1995)

5) Quais são os objetivos da encarnação dos Espíritos?

1) Expiação — Expiar significa remir, resgatar, pagar. A expiação, em sentido restrito consiste em o homem sofrer aquilo que fez os outros sofrerem, abrangendo sofrimentos físicos e morais, seja na vida corporal, seja na vida espiritual.

2) Prova — Em sentido amplo, cada nova existência corporal é uma prova para o Espírito. A prova, às vezes, confunde-se com a expiação, mas nem todo sofrimento é indício de uma determinada falta. Trata-se freqüentemente de simples provas escolhidas pelo espírito para acabar a sua purificação e acelerar o seu adiantamento. Assim, a expiação serve sempre de prova mas a prova nem sempre é uma expiação.

3) Missão — A missão é uma tarefa a ser cumprida pelo Espírito encarnado. Em sentido particular, cada Espírito desempenha tarefas especiais numa ou noutra encarnação, neste ou naquele mundo. Há, assim, a missão dos pais, dos filhos, dos políticos etc.

4) Cooperação na Obra do Criador — Através do trabalho, os homens colaboram com os demais Espíritos na obra da criação.

5) Ajudar a Desenvolver a Inteligência — a necessidade de progresso impele o Espírito às pesquisas científicas. Com isso a sua inteligência se desenvolve, sua moral se depura. É assim que o homem passa da selvageria à civilização.

6) Há diferença entre reencarnação e palingenesia?

A palavra palin significa "novamente", "outra vez", "de volta". Palingenesia é o suposto regresso à vida, depois da morte real ou aparente. A palingenesia – não é apenas reencarnação –, pois não se aplica somente à vida orgânica. Em O Livro dos Espíritos, há uma constante afirmação de que tudo se encadeia no Universo.

Final da pergunta 540 — "É assim que tudo serve, tudo se encadeia no Universo, desde o átomo primitivo até o Arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo". (Kardec, 1995)

A reencarnação, por seu turno, refere-se à vida orgânica, principalmente a vida humana.

7) É possível provar a reencarnação de um Espírito? Como?

Sim. O Dr. Ian Stevenson, diretor do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos da América, catalogou mais de 2.000 casos, principalmente de crianças, que espontaneamente manifestavam as suas recordações. Tomou, contudo, o cuidado de enfatizar que eram "casos sugestivos de reencarnação" e não a reencarnação propriamente dita. Tendo em mãos o relato das recordações, partia para as pesquisas em cartório de registros civis, jornais e pessoas que tinham convido com esse Espírito numa encarnação passada. (Stevenson, 1971)

8) Como interpretar a frase: "Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus"?

Esta frase comporta duas posições:

1.ª) Refere-se à reencarnação, pois quem não nascer de novo (entrar em outro corpo) não pode ver o reino de Deus. Ou seja, há necessidade de várias encarnações para podermos acrisolar o nosso espírito imortal.

2.ª) "Nascer de novo" pode referir-se à mudança comportamental, em que somente adquirindo novos hábitos de conduta, podemos vislumbrar um outro mundo, o mundo espiritual.

9) A partir de quando o cristianismo deixou dar crédito à reencarnação?

Até o Concílio de Nicéia, em 325, quando o imperador Constantino esforçou-se por fazer condenar esta crença, pois tinha muitos pecados na consciência, a reencarnação era norma vigente. São Justino fala, inclusive, que "a alma habita mais de uma vez um corpo humano".

Só em 543, no V Concílio Ecumênico de Constantinopla, sob a pressão do imperador Justiniano, é que o anátema foi lançado pela Igreja, sobre um certo número de proposições de Orígenes acerca da reencarnação: "as almas podiam voltar à Terra por cansaço da contemplação divina ou esfriamento do amor de Deus, e que eram reenviadas para os corpos como castigo". O reencarnar por amor ao próximo não foi excluído. (Crolard, 1979)

11) A reencarnação é um dos princípios fundamentais do Espiritismo? Por quê?

Se Deus não existisse, teríamos de criá-lo. Do mesmo modo, se a reencarnação não existisse, teríamos de inventá-la. Sem a reencarnação, como poderíamos responder às seguintes questões: Por que uns nascem sãos e outros doentes? Por que uns são inteligentes e outros ignorantes? Por que uns são ricos e outros pobres?

Bibliografia Consultada

CROLARD, Jean-Francis. Renascer Após a Morte. Tradução de Antonio Manuel de Almeida Gonçalves. _____: Europa-América, 1979 (?)

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.

PAULA, J. T. Dicionário Enciclopédico Ilustrado de Espiritismo, Metapsíquica e Parapsicologia. 3. ed. São Paulo: Bels, 1976.

STEVENSON, I. 20 Casos Sugestivos de Reencarnação. São Paulo, Difusora Cultural, 1971.

São Paulo, abril de 2008

Reforma Íntima

Sérgio Biagi Gregório

1) Qual o conceito de reforma íntima?

Reforma íntima nada mais é do que o desenvolvimento latente que jaz em nosso espírito. É um requisito indispensável à própria saúde.

2) Perdeu-se, com o tempo, seu sentido conceitual?

Sim. A repetição de um termo faz com que se perca o seu conceito original. Observe a palavra Evangelho, que de tanto ser repetida, perdeu sua feição de boa nova. O mesmo se dá com o termo reforma íntima. Não tem mais o sentido de desenvolvimento das virtualidades inscritas no âmago de cada ser. Significa, sim, proibição: não faça isso; deixe de fazer aquilo; isso é "pecado".

3) Em vez de reforma íntima, não seria preferível usar o termo "mudança comportamental"?

A reforma pressupõe conserto, remendo, reparo. A imagem mais clara é quando precisamos fazer uma reforma em nossa casa: quebramos, para depois construir outra coisa, mais bela e mais de acordo com os tempos atuais. Assim, em vez de reforma, que pressupõe conserto, o termo mudança comportamental, entendida como desenvolvimento, seria mais conveniente. Como o Espírito foi criado simples e ignorante, mas sujeito ao progresso, a mudança pressupõe que esse Espírito esteja crescendo, evoluindo.

4) Relacione reforma íntima e reflexos condicionados.

Uma forma didática de se entender a reforma íntima é relacioná-la aos reflexos condicionados. Todos nós somos herdeiros de um automatismo, vindo de longa data. Dado um estímulo, respondemos automaticamente. Se xingados, queremos revidar. Observe as nossas respostas, as nossas reações no trânsito: uma leve "fechada" pode até ocasionar morte. E se mudássemos essa resposta automática. E se, em vez de querermos briga, perdoarmos aquele nosso irmão? Não haveria um ganho para o infrator e para nós? 

5) Conhecer a si mesmo é reformar-se?

Sócrates, quando nos revelou o "conhece a ti mesmo", não estava interessado numa mudança comportamental. Queria apenas que cada um de nós tomasse consciência da sua própria ignorância. Quando o termo passou para o latim, "nosce te ipsum", começaram a modificar-lhe o sentido e colocaram-no como condição moral para que o ser humano pudesse mudar os seus hábitos e os seus costumes.

6) Como proceder em relação à reforma íntima?

Uma vez iniciada, convém dar-lhe continuidade. Parar é regredir, é voltar aos mesmos erros que cometíamos no passado. Um bom exercício é o ser humano se colocar no meio de uma montanha. Tem que ir em frente, porque a queda pode ser violenta.

7) Qual é o grande erro que se comete na reforma íntima?

É querer fazer uma reforma radical. Lembremo-nos de que os ensinamentos veiculados por Jesus, e por outros grandes lideres da humanidade, são modelos que devemos ter em mente. É como um ideal, uma meta a alcançar, porque a evolução não dá saltos. Querer melhorar a qualquer custo é também uma forma de violência.

São Paulo, junho de 2009

 

Religiões Universais

1) O que entende por religião?

Religião é sentimento divino que prende o ser humano ao Criador. É a ligação do crente com o seu objeto de adoração (pedras, árvores, Deus, Jeová etc.).

2) O que são religiões universais?

Religiões universais são aquelas que acreditam ter importância para todo o mundo e tentam, com maior ou menor intensidade, converter pessoas.

3) Quais são as grandes religiões da humanidade?

As grandes religiões da humanidade podem ser classificadas por meio de famílias: família semítica (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo); família indiana (Hinduismo, Budismo, Jainismo); família do extremo oriente (Confucionismo, Taoísmo, Xintoísmo). (1)

4) Como caracterizar as religiões universais?

As religiões universais podem ser monoteístas, politeístas e mesmo ateias. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo são monoteístas. O Hinduísmo é politeísta. Umas crêem num Deus revelado; outras não. Confúcio, por exemplo, em sua doutrina, exclui toda especulação metafísica e não se ocupa dos mortos. Só se ocupa do homem e das coisas humanas. Prega o raciocinar e o expressar-se bem, numa moral que leve o homem a viver bem.

5) O que distingue as religiões primitivas das religiões universais?

As religiões primitivas tendem a ser locais, como é o caso da africana: seus praticantes não a consideram relevante para outros povos.   As religiões universais acreditam ter importância para todo o mundo e tentam, com maior ou menor intensidade, converter pessoas. Nestas há uma escritura, como é o caso da Bíblia. (1)

6) O ecumenismo é possível?

Ecumenismo é o processo de busca da unidade. Não é tarefa fácil, porque todas as religiões fundamentam-se em dogmas e, como sabemos, é muito difícil de o ser humano deixar algo que está sedimentado há muito tempo em seu subconsciente.

7) É o Espiritismo uma religião?

O Espiritismo não pode ser considerado religião, quando empregamos esta palavra sob o ponto de vista de religião organizada, com dogmas e paramentos. Se tomarmos a palavra como uma ligação do homem com o Criador, não resta dúvida que é uma religião, a religião natural.

8) No futuro, o Espiritismo tornar-se-á uma religião universal?

Segundo comunicação de um Espírito, "O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na terra. Reformará a legislação, retificará os erros da História, restaurará a religião do Cristo, instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai direto a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar". Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo. (2)

(1) http://www.paijulioesteio.kit.net/o_que_e_religiao_4.htm, em 05/01/2010

(2) KARDEC, A. Obras Póstumas. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975, p. 299.

6/1/2010

 

O Rico e o Lázaro

Sérgio Biagi Gregório

1) Como está expresso o texto evangélico?

"Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de Holanda, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um pobre mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à sua porta, e que desejava fartar-se das migalhas que caiam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhes as úlceras. Ora sucedeu morrer este mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. E morreu também o rico, e foi sepultado no inferno. E quando ele estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. E gritando ele, disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda cá Lázaro, para que molhe em água a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou atormentado nesta chama. E Abraão lhe respondeu: Filho, lembra-te de que recebeste os bens em tua vida, e de que Lázaro não teve senão males; por isso está ele agora consolado, e tu em tormentos. E demais, e que entre nós e vós está firmado um grande abismo, de maneira os que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para cá. E disse o rico: pois eu te rogo, Pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, e não suceda eles também venham parar a este lugar de tormentos. E Abraão lhe disse: eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Disse pois o rico: não, pai Abraão, mas se for a ele alguns dos mortos, hão de fazer penitência. Abraão, porém, lhe respondeu: se eles não dão ouvidos a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que seja ressuscite algum dos mortos." (Lucas, cap. XVI, 19,31.)

2) Sintetize o texto acima.

Havia um rico (mau) e um pobre (Lázaro), que ficava à porta do rico. O rico não distribuía ao Lázaro nenhuma das migalhas que lhe sobravam.

Passou-se o tempo: Lázaro desencarna; o rico também.

No mundo espiritual, Lázaro foi acolhido no seio de Abraão; o rico foi para o Hades (Inferno).

O rico pedia para Lázaro molhar a sua língua. Abraão diz ser impossível, pois há uma barreira entre ambos. Tenta outro pedido: manda o Lázaro ir lá na Terra avisar os meus familiares sobre esses tormentos. Abraão fala que eles já têm Moisés e os profetas.

3) O rico, que atendia aos seus desejos de festa e luxúria, foi condenado a sofrer no fogo eterno. Há contradição com os ensinamentos de Jesus?

O rico foi condenado não por ser rico e desfrutar da sua riqueza, mas por não se comunicar com o pobre, por não atender à lei de cooperação, em que um deve ajudar o outro. Ele preferiu cuidar apenas de si e dos seus familiares.

4) Cuidar de si e da sua família contraria a lei natural?

Não. O que está em jogo é o problema do auxílio ao próximo e o da segurança pessoal. Nesta parábola, Jesus quer nos ensinar o desapego aos bens materiais. Lembremo-nos do homem rico que O procurou e perguntou-Lhe sobre a salvação de sua alma. Jesus disse-lhe para vender tudo e acompanhá-Lo. Este volta para as suas riquezas. Não estava preparado para largar tudo e seguir o mestre. Queria segurança, conforto, bem-estar. Jesus não quer que doemos todos os nossos bens materiais aos mais necessitados; Ele quer que combatamos o egoísmo, que sejamos desapegados desses bens.

5) segundo o relato, Lázaro, no mundo espiritual, está numa situação superior à do rico? É justo?

Na terra, Lázaro estava numa situação de "carência"; o rico, de "abundância". Isso tudo para atender à lei de causa e efeito. O rico, porém, tinha uma responsabilidade a mais: distribuir os seus bens com os mais desafortunados. Não o fez. Por isso recebeu, no mundo espiritual, as penas de sua má conduta.

6) Ser pobre é a condição necessária para ser levado ao seio de Abraão?

Não. Aqui é uma parábola e numa parábola há comparação, enigma e simbologia, que procuram mostrar outras realidades, geralmente de ordem moral e espiritual. Nesse sentido, Lázaro cumpriu o seu dever: nasceu pobre, sofreu, mas não se rebelou contra a Divina Providência. Teve méritos para ganhar o Reino de Deus.

7) O rico foi para o inferno? Todo o rico vai para o inferno?

Não. O que sucedeu é que este rico, o rico da parábola, não foi um bom rico. Um rico que não soube compartilhar os seus bens com aqueles que os tinham em falta. Um rico que se apegou à riqueza, reservando-a somente aos seus familiares. Um rico que não se colocou como usufrutuário dos bens materiais, mas como o seu possuidor.

8) O que significa esta parábola para a compreensão da riqueza e da pobreza?

O rico, por estar mais próximo dos bens materiais, teve um esquecimento temporário dos benefícios que deveria prestar ao seu próximo. Não passou pela provação que lhe foi requerida. O pobre, por não ser vítima dos desejos do dinheiro, pode suportar a conclusão de sua prova.

9) O desencarne modifica o nosso estado de relação? Por que o abismo que existia entre o rico e o Lázaro?

O abismo refere-se à condição moral e espiritual. Estando encarnados, a presença física mascara tal distância. Podemos estar juntos, mas os pensamentos podem caminhar para campos totalmente opostos, sem que isso se faça notar. Desencarnando, a realidade mostra o que cada um é interiormente. É nisso que consiste esse abismo. Nesse sentido, é possível que estejamos hierarquicamente acima de muitos irmãos. Contudo, uma vez desencarnados, eles poderão se situar em campos evolutivos muito mais superiores ao nosso.

10) O rico não podendo receber o auxílio de Lázaro, pede para que Abraão o mande de volta à terra, para avisar os seus 5 irmãos. Por que não foi atendido?

Em primeiro lugar, por que só os seus cinco irmãos? Não é uma forma de egoísmo? Em segundo lugar, Moisés e os profetas já tinham sido enviados. Como iriam escutar Lázaro, que o tinham como pobre e desprezado, se nem aos profetas eles procuraram atender?

11) O que simboliza o seio de Abraão?

Abraão simboliza o homem escolhido por Deus para preservar o sagrado repositório da fé; o homem abençoado por Deus que lhe prodiga as promessas de numerosas descendências e imensas riquezas. É pai da multidão, o homem de fé.

Abraão, patriarca bíblico vindo da Mesopotâmia para as terras de Canaã, no reino de Hamurabi, por volta de 1850 a.C. De acordo com a tradição bíblica, Deus o havia retirado de uma região politeísta, a fim de fazê-lo guardião da revelação e do culto monoteísta.

12) Por que uns são ricos e outros pobres?

Riqueza e pobreza é um problema secular à espera de uma solução. Somente a reencarnação pode nos oferecer uma luz no fim do túnel. Por que? Fisicamente, uma vez dividida a riqueza em partes iguais, não demoraria muito para voltar aos níveis atuais. Espiritualmente, o ser humano necessita de passar ora pela prova da riqueza, ora pela prova da pobreza. Aí está a grandiosidade da Lei de Deus. Estar na situação de pobre ou de rico é o menos relevante. Importa mais verificarmos se estamos ou não atendendo à vontade de Deus a nosso respeito.

13) Que ensinamentos podemos tirar desta parábola?

Esta parábola mostra a oposição que há entre amar a Deus e amar a Mamon. A riqueza não é um mal em si mesma porque, em boas mãos, ela pode promover o desenvolvimento da indústria e do comércio, propiciando melhores condições de vida para os habitantes de uma dada região. Lembremo-nos de que somos usufrutuários e não possuidores, nem mesmo do nosso corpo físico.

Novembro 2007

Romance Mediúnico Espírita

Sérgio Biagi Gregório

1) O que se entende por romance?

1. Narração verdadeira ou falsa, escrita em prosa ou verso. 2. Narrativa de fatos imaginários dispostos com verossimilhança, formando uma história fictícia. 3. Enredo de coisas falsas ou inacreditáveis. 4. Objeto imaginário; fantasia; urdidura fantástica do espírito.

Há, ainda, o romance de costumes, o romance didático, o romance épico e o romance familiar (Psicanálise). (1)

2) O que se entende por romance mediúnico?

O móvel dos romances espíritas é a propaganda da Doutrina por meio suave e convidativo, tributando os Instrutores Espirituais grande apreço a essas obras, por julgá-las imensamente úteis em virtude dos exemplos vivos oferecidos aos leitores.

O Espírito Adolfo Bezerra de Menezes, em Dramas da Obsessão, classifica os romances espíritas de similares das parábolas messiânicas, visto serem eles extraídos da vida real do homem, enquanto as parábolas igualmente foram inspiradas ao Divino Mestre pela vida cotidiana dos galileus, dos judeus e de suas azáfamas diárias. (2)

3) Todo romance mediúnico é romance espírita?

Não. Para que um romance mediúnico seja cognominado romance espírita é preciso que o teor de seus relatos, fictícios ou verdadeiros, ajustem-se aos imperativos do corpo doutrinário do Espiritismo. Sem esse cuidado, os romances acabam entrando no rol do Espiritismo, prejudicando o bom entendimento dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita. Neste particular, temos que diferenciar aqueles eminentemente anímicos, em que a maioria das informações saiu da cabeça do próprio médium, e aqueles em que houve um empenho intenso do Espírito comunicante.

4) Como nos portarmos diante de um romance?

Num romance, há o aspecto emotivo, o aspecto histórico e o aspecto doutrinário. É preciso buscar, em cada uma dessas leituras, a instrução doutrinal. Os que estão sendo introduzidos no Espiritismo, através do romance, ainda terão alguma dificuldade para discernir esses aspectos. Aqueles, porém, que já estão inseridos nas práticas espíritas, têm de primar pela divulgação correta dos princípios espíritas.

5) Que tipo de erro é mais freqüente na leitura de um romance?

É transformar em universal o que é particular. O fato narrado pode ser verdadeiro; ele não tem, contudo, o poder de se tornar geral. O rigor drástico, em muitos deles, para com a lei de ação e reação não necessariamente é uma tese geral. Há muitos atenuantes e agravantes que estão muito além do fato narrado.

6) Que críticas podemos fazer aos romances?

Em muitos romances, há o abuso de descrições minuciosas de crimes hediondos cometidos pelos personagens, ou de abusos de poder, desfilando em páginas e mais páginas imagens sanguinolentas e brutais. Há, também, casos em que as informações prestadas pelos autores espirituais estão em desacordo com os registros históricos. (3) No site Orientação Espírita: o Espiritismo iluminando a vida (http://www.orientacaoespirita.org/index.htm), há a crítica literária de diversos livros espíritas.

7) Quais são os cuidados do médium psicógrafo?

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, chamou a nossa atenção para as conseqüências do médium fascinado, que dá guarida aos Espíritos brincalhões, pseudo-sábios, mistificadores e interessados unicamente em combater o Espiritismo. Ele diz:

"A fascinação tem conseqüências muito mais graves. É uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que, de certa maneira, lhe paralisa o raciocínio, relativamente às comunicações. O médium fascinado não acredita que o estejam enganando: o Espírito tem a arte de lhe inspirar confiança cega, que o impede de ver o embuste e de compreender o absurdo do que escreve, ainda quando esse absurdo salte aos olhos de toda gente. A ilusão pode mesmo ir até ao ponto de o fazer achar sublime a linguagem mais ridícula. Fora erro acreditar que a este gênero de obsessão só estão sujeitas as pessoas simples, ignorantes e baldas de senso. Dela não se acham isentos nem os homens de mais espírito, os mais instruídos e os mais inteligentes sob outros aspectos, o que prova que tal aberração é efeito de uma causa estranha, cuja influência eles sofrem". (4)

Bibliografia Consultada

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(2) EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

(3) http://www.orientacaoespirita.org/critica.htm

(4) KARDEC, A. O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Doutrinadores. São Paulo:Lake, [s.d.p.], capítulo 23, item 239, p. 228.

São Paulo, julho de 2009.

 

Sacrifício e Espiritismo  – Perguntas e Respostas

 

1. O que significa a palavra sacrifício?

Sacrifício – Do latim sacrificium significa o que está relacionado ao ato de fazer com que alguma coisa se torne sagrada. Sacrificar é converter em sagrado o objeto que será dado em oferta. É o ato principal de todo culto religioso; é a oferta feita à divindade em certas cerimônias solenes. Sacrificar-se é crescer; quem cede para os outros adquire para si mesmo.

2. Como o sacrifício pode ser visto no processo histórico?

Na Antiguidade, os sacrifícios de animais, crianças, virgens e prisioneiros de guerra eram corriqueiros. No Antigo Testamento, os sacrifícios eram considerados dons sagrados. Abraão, por exemplo, por ordem de Deus, quis imolar o seu filho Isaac em holocausto e que depois foi substituído por um carneiro. No Novo Testamento, a instituição antiga dos sacrifícios cede lugar ao sacrifício pela Cruz do Cristo. Numa acepção mais contemporânea, há o holocausto alemão praticado ao povo judeu.

3. O que simboliza a morte de Cristo na Cruz?

A morte de Jesus na Cruz representa o móvel da redenção da Humanidade. Por isso, dizemos que Ele é o "Mestre por excelência: ofereceu-se-nos por amor, ensinou até o último instante de sua vida, fez-se o exemplo permanente em nossos corações e nos paroxismos da dor, pregado no madeiro ignominioso, perdoou-nos as defecções de maus aprendizes". (Equipe da FEB)

4. Qual o significa simbólico da cruz?

O símbolo da cruz, em que juntam o céu e a terra, foi enriquecido prodigiosamente pela tradição cristã, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ela é mais do que uma figura de Jesus, ela se identifica com sua história humana, com a sua pessoa. Enquanto no passado havia o "olho por olho e dente por dente", Jesus ensinou-nos a oferecer a outra face, quando numa delas alguém nos batesse. Enquanto no passado ofereciam-se animais, crianças, alimentos, Jesus oferece-nos um único mandamento: cada qual deve carregar a sua cruz.

5. Por que deve se sacrificar o adepto sincero do cristianismo?

É que toda a ideia nova custa a aclimatar no coração humano. Observe a sentença: "Não vim trazer a paz, mas a espada". Ela ainda não foi entendida. Jesus não nos convidou a guerrear com os nossos semelhantes; advertiu-nos, sim, que a sua doutrina traria cisões, porque os que não compreendessem o Novo Mandamento poderiam entrar em contradição com o seu pai, o seu filho, a sua esposa e os seus vizinhos.

6. No que se fundamenta a coragem para o sacrifício?

A coragem para o sacrifício fundamenta-se no deixar o conhecido, o lugar conquistado, a comodidade do pensamento vulgar para se aventurar na busca de novos ensinamentos, novas experiências e novos rumos na vida. "A coragem para o sacrifício está em acreditar poder de novo outra vez. Poder sempre inaugurar um novo sentido, ou mesmo repetir o feito e de novo realizar. É dispor-se à vida que se vive e se realiza vivendo, e compreender que nesse jogo de viver e realizar jogar o incerto e o inesperado, e que assim devem ser acolhidos". (Pizzolante, 2008, p. 188)

7. O sacrifício é auto-imposição?

Não. O sacrifício não é auto-imposição, mas uma disposição para a abnegação, que é o afastar-se da arrogância do ficar no já conquistado. O sacrifício assemelha-se à dor do parto, pois a mãe sofre, mas em seguida vê o rebento vir à luz, que lhe dá grande alegria. Em nosso caso, o parto refere-se à ideia nova, tal qual Sócrates fazia na Antiguidade, quando ensinava na praça pública. Sadi, por outro lado, dizia-nos: "A paciência é uma planta de raízes assaz amargas, mas de frutos dulcíssimos".

8. Como analisar o ressentimento?

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan kardec ensina-nos que o sacrifício mais agradável a Deus é o do Ressentimento. Ele expressa o pensamento da seguinte forma: "Antes de se apresentar a ele para ser perdoado, é preciso ter perdoado, e que, se cometeu injustiça contra um dos seus irmãos, é preciso tê-la reparado; só então a oferenda será agradável, porque virá de um coração puro de todo o mau pensamento" (1984, cap. X, p.134.) Em outras palavras, antes de entrarmos no templo do Senhor devemos purificar o nosso coração, porque assim teremos mais condições de entrar em perfeita conexão com os Espíritos superiores e deles receber inspirações para as nossas boas ações.

9. Qual é o sacrifício mais agradável a Deus?

O melhor sacrifício ainda não é a morte pelo martírio, ou pelo infamante opróbrio dos homens, mas aquele que se realiza com a vida inteira, pelo trabalho e pela abnegação sincera, suportando todas as lutas na renúncia de nós mesmos, para ganhar a vida eterna de que nos falava o Senhor em suas lições divinas. (Equipe da Feb)

10. O médium deve se sacrificar?

O trabalhador da seara mediúnica não raro registrará as seguintes questões: por que o meu caminho é de sofrimento? Por que a minha vida está repleta de dor? Onde estão os benfeitores espirituais? Por que eles não vêm aliviar as minhas amarguras? Lembremo-nos de que Jesus ensinou que a cruz é o símbolo da redenção do cristão. Os mensageiros de luz vêm apenas estimular as nossas ações dizendo que deveríamos pegar a nossa cruz e caminhar com ela, tanto quanto forem os passos que a divindade nos impuser. E por maior sejam os sacrifícios que teremos de suportar, não cortemos um pedaço dela, porque poderá fazer falta quando tivermos que usá-la como ponte para atravessar o rio.

 

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

PIZZOLANTE, Romulo. A Filosofia e a Coragem para o Sacrifício. In: MEES, L. e PIZZOLANTE, R. (org.). O Presente do Filósofo: Homenagem a Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.

São Paulo, agosto de 2009

 

 

Sermão do Monte

Sérgio Biagi Gregório

1) O que se entende por sermão?

Jesus ensinava – oralmente – em aramaico, sua língua materna. Como nada escreveu, a sua palavra devia ressoar sobre os discípulos. Por isso, catequese – do grego katechéo, fazer ressoar. Ressonância significava a voz na presença dos discípulos. O discípulo que tivesse recebido o ensinamento era ressoado, ou seja, catequizado. Depois de catequizado, poderia catequizar outros. Pode-se dizer que Jesus proclamou, junto aos discípulos, o mais conciso e ordenado sistema de uma filosofia universal. Ali se achava tudo o que alma necessitava saber a respeito de Deus, da criação e da vida quotidiana, tanto naquela época como nas vindouras. O sermão tinha um caráter universalista, uma espécie de "carta magna" para toda a humanidade. (Stella, 1978)

2) Qual o significado de monte ou montanha?

O monte é o lugar de destaque na vida religiosa dos povos. É o lugar da solidão, da oração e da revelação. Segundo uma constante tradição bíblica, é o lugar próprio para os encontros com Deus. Na Grécia, o monte Olímpico; na Índia, o monte Meru; na China, o monte Kuen-luen. Há, também, o monte Sinai, o monte das Oliveiras etc., cada qual com sua particularidade. (Stella, 1978)

3) Qual o significado do Sermão de Monte?

Também chamado Sermão da Montanha ou Sermão das Bem-Aventuranças, foi pronunciado por Jesus na fralda de um de um monte, em Cafarnaum, dirigindo-se a todas as pessoas que o seguiam. Nele Jesus faz uma síntese das leis morais que regem a humanidade.

O Sermão do Monte veio para reformar a humanidade na sua totalidade. Não é para uma religião, mas para toda a religião. Segundo alguns religiosos, o sermão do monte é o mais revolucionário dos discursos humanos, simplesmente porque é divino.

Quando acabou de proferir o sermão, os discípulos disseram: "Este ensina como quem tem autoridade".

4) Quais são as oito regras do sermão?

1.ª) Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

2.ª) Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

3.ª) Bem-aventurados aqueles que são brandos e pacíficos, porque herdarão a Terra.

4.ª) bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

5.ª) Bem-aventurados aqueles que são misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

6.ª) Bem-aventurados aqueles que têm puro o coração, porque verão a Deus.

7.ª) bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque o reino dos céus é para eles.

8.ª) Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (Mateus, 5, 1 a 12)

5) O que se entende por bem-aventurança?

Termo técnico para indicar uma forma literária que se encontra quer no Antigo quer no Novo Testamento. A Bem-Aventurança é uma declaração de bênção com base em uma virtude ou na boa sorte. A fórmula se inicia com "bem-aventurado aquele..." Com Jesus toma a forma de um paradoxo: a bem-aventurança não é proclamada em virtude de uma boa sorte, mas exatamente em virtude de uma má sorte: pobreza, fome, dor, perseguição.

Segundo Wendisch, as bem-aventuranças são uma espécie de torah (lei). Nos paradoxos (ir contra a opinião comum), Jesus ensinou o avesso daquilo que os homens pensavam, fazendo-os refletir na felicidade, não como a posse de bens materiais, mas como estar na visão e posse de Deus.

6) Há diferença entre reino dos céus e reino de Deus?

A palavra "céus" foi usada por Mateus; os outros evangelistas usaram a palavra "Deus". Explicação: Mateus usou reino dos céus, porque Deus era um nome inefável que os judeus se abstinham de pronunciar com receio de dizerem em vão. Lucas, ao compor o seu Evangelho para os cristãos convertidos do paganismo, que por isso não tinham os mesmos escrúpulos, diz correntemente como Marcos: "o reino de Deus" ou então "reinado de Deus". (Chevrot, 1971)

7) A redação dos Evangelhos prendeu-se mais à letra ou ao sentido?

Os Apóstolos, ao registrarem por escrito, as palavras de Cristo, prenderam-se mais ao sentido do que à letra. Por exemplo, a inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz devia ser conforme a letra. Contudo, anotamos as seguintes divergências verbais: "Jesus o Nazareno, o rei dos judeus", João 19,19, "Este é Jesus, o rei dos Judeus", Mat. 27,37, "O rei dos Judeus, este", Luc. 23,38, "O rei dos Judeus", Marc. 15,26. (Stella, 1978)

8) Qual a importância de Jesus falar ao ar livre?

O mestre não quis pronunciar o seu discurso inaugural no interior de uma sinagoga ou nos pórticos do Templo. Para fazer ouvir uma mensagem destinada aos homens de todos os tempos, precisava de ar livre, de altitude, dos horizontes sem limite da natureza. Ele falava do impulso de progresso, da ressonância, do movimento. Dizia: as raposas têm as suas tocas, os pássaros os seus ninhos, mas Ele não terá um teto onde reclinar a cabeça. Caminhará sempre, sem parar.

9) Qual a função das Igrejas nos dias atuais?

A Igreja, de qualquer espécie que for, não pode permanecer somente como instituição. Deve ser um movimento, um processo de aperfeiçoamento das almas. A Igreja não é um estabelecimento, é um movimento, a sua função é "renovar a face da terra", quebrando preconceitos e denunciando os conformismos. Paulo foi muito feliz quando disse: "Embora se destrua em nós o homem exterior, o homem interior vai-se renovando de dia para dia".

Bibliografia Consultada

CHEVROT, Georges.  O Sermão da Montanha.  Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante, 1971.

STELLA, J. B. O Sermão da Montanha: A Religião de Cristo. São Paulo: Metodista, 1978.

Out/2007

 

Símbolo

Sérgio Biagi Gregório

"Um sinal é uma parte do mundo físico do ser (being), um símbolo é uma parte do mundo humano da significação (meaning)". E. Cassirer, An Essay mon Man, p. 32.

1) Como podemos representar o mundo?

Há duas maneiras de representar o mundo: a direta, em que objeto se apresenta à nossa frente; b) indireta, quando por qualquer razão o objeto não pode se apresentar em "carne e osso". A forma indireta representa o símbolo, usado indiferentemente como "imagem", "figura", "ícone", "ídolo", "signo", "emblema", "parábola", "mito" etc. (1)

2) O que é um símbolo?

Símbolo é um sinal particular, que pode ser expresso com figuras, imagens, palavras e gestos. Do gr. symbolon = neutro - vem de symbolé‚ que significa aproximação, ajustamento, encaixamento, cuja origem etimológica é indicada pelo prefixo syn, com e bolé, donde vem o nosso termo bola, roda, círculo. Referia-se, deste modo, à moeda usada como sinal. O símbolo é, pois, tudo quanto está em lugar de outro. (2)

3) Como conceituar filosoficamente o símbolo?

Ao o passo que um sinal de um objeto de percepção é uma parte do objeto que evoca o todo ou a porção do todo que mais interessa ao sujeito, um símbolo é algo que evoca, não o objeto de percepção, mas a concepção que temos do objeto. Este poder de compreender e interpretar símbolos diz respeito à mentalidade humana. Os animais, por exemplo, não têm essa capacidade. Diz-se que o cão pode se impressionar com a vista de um gato, mas não sente reação alguma ao ver um desenho que represente o gato. (3)

4) Existe a simbólica? O que é?

A simbólica é uma matéria filosófica voltada para o estudo da gênese, do desenvolvimento, da vida, da morte e da ressurreição dos símbolos. A simbólica tem por objetivo descobrir o que está escondido atrás dos ritos e dos dogmas sob emblemas tão diversos. Por isso, utiliza o método dialético-simbólico, no sentido de, através da analogia, tornar compreensível o processo mágico, as fantasias e os mistérios. (2)

5) Todo símbolo é sinal, mas nem todo sinal é símbolo. Comente.

O símbolo é a espécie e o sinal o gênero. Para que o sinal seja símbolo ele tem que estar no lugar de outro. O sinal pode ser apenas convencional, arbitrário. O símbolo, não. Este deve repetir, analogicamente, algo do simbolizado. Além disso, o símbolo é meio de acesso às realidades pessoais, misteriosas e inacessíveis a uma observação direta e imediata. Por exemplo: o signo bandeira simboliza os vários graus de heroísmo.

6) Qual a importância da simbologia da palavra na comunicação humana?

O ser humano, praticamente, não dispõe de um símbolo mais privilegiado para a comunicação do que a palavra. Imagine um indivíduo feito uma estátua. Nessa circunstância, é difícil sondar-lhe o pensamento e o sentimento. Porém, ao se expressar, torna-se logo conhecido. Além da transmissão de conteúdo, a palavra é muito mais um instrumento de comunicação espiritual: faculta ao ouvinte a elaboração de novas idéias sobre o discurso proferido.

7) Quais são os aspectos simbólicos das parábolas evangélicas?

A parábola, por definição, é uma narrativa alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Jesus falava por parábolas no sentido de despertar a curiosidade dos ouvintes para, depois, dar as explicações necessárias. Na realidade, as parábolas são verdadeiros conjuntos simbólicos do Reino de Deus e os simples exemplos morais. (1)

8) Relacione símbolo e redundância.

Nos símbolos rituais há necessidade da redundância dos gestos, ou seja, da sua repetição. Alguns exemplos: o muçulmano que, na hora da prece, se prostra em direção ao Oriente, o padre cristão que abençoa o pão e o vinho, o soldado que presta homenagem à bandeira.

9) Dê-nos alguns exemplos de símbolos usados no Evangelho.

Anotemos três: luz, árvore e figueira,

luz é o símbolo multimilenar do desenvolvimento espiritual. É a herança de Deus para as trevas. É a substância divina gerada nas fontes superiores da esfera espiritual. É a mais elevada, potente e veloz das expressões do movimento, suscetível de acrisolar-se ao infinito.

A árvore é o símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu; evoca todo o simbolismo da verticalidade. As suas raízes enterradas no solo simbolizam a terra, o subterrâneo. O seu tronco e os seus galhos mostram a ascensão para o Céu, ou seja, a evolução espiritual do ser humano. Por isso, ela é universalmente considerada como o símbolo das relações que se estabelecem entre a terra e o céu.

figueira, assim como a oliveira e a videira, é uma das árvores que simbolizam a abundância. Quando seca, porém, torna-se a árvore do mal. Na simbólica, representa a ciência religiosa. No sentido estrito da simbólica cristã, ela representa não só a ciência como também a Sinagoga que, por não ter reconhecido o Messias da Nova Aliança, já não tem frutos. Quando Jesus amaldiçoa a figueira, ele se dirige à ciência que esta árvore representa, pois a religião que imperava na sua época não servia para ser a lídima herdeira da Doutrina renovadora trazida por ele; por isso, deveria ser condenada à esterilidade. (4)

10) Podermos confiar na interpretação do símbolo dada pelo Espiritismo?

Allan Kardec, ao codificar a Doutrina Espírita, usou o maior rigor científico possível. Para sua estruturação, valeu-se das contribuições de diversos médiuns, espalhados pelo mundo todo. Como o trabalho é dos Espíritos, eles (os Espíritos) tiveram o devido cuidado, empenharam-se diligentemente na interpretação dos textos deixados pelos apóstolos. O "não vim trazer a paz, mas a espada" é um bom exemplo. De acordo com O Evangelho Segundo o Espiritismo, a paz e a espada são figuras de linguagem que representam toda a luta para a implantação de uma nova ideia, de uma nova doutrina. Nenhuma ideia nova é aceita imediatamente, porque fere pontos de vistas e preconceitos.

Bibliografia Consultada

(1) DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. Trad. Eliane Fittipaldi Pereira. São Paulo: Cultrix, 1988

(2) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.

(3) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(4) CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

São Paulo, agosto de 2009.

e-mail: sbgregorio@gmail.com

O Tempo

Sérgio Biagi Gregório

1) O que é o tempo?

É a sucessão dos anos, dos dias, das horas etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro: o curso do tempo; o tempo é um meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis. (Dicionário Aurélio)

2) O tempo é um problema?

Por problema, entende-se uma análise mais acurada de um tema aparentemente fácil e intuitivo. Santo Agostinho nos dizia que quando não lhe perguntavam sobre o tempo, sabia a resposta, mas, se questionado, já não o sabia mais. É factível, pois, considerá-lo como um problema.

Por exemplo, ao dizermos que o tempo é a duração sucessiva de qualquer fenômeno ou do movimento real das coisas, criamos um problema, pois o enigma da duração sucessiva é problemático. O que é duração?

Os filósofos antigos perguntaram à esfinge o que era o tempo, mas ela nada respondeu, porque era o próprio tempo feito estátua de silêncio.

3) Como é que o homem chega ao tempo?

A pergunta fundamental não é: que é o tempo? Muitos pensadores se posicionaram para defini-lo. Newton diz: "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, flui uniformemente devido à sua própria natureza e a partir de si próprio, sem relação com qualquer coisa externa". Para Aristóteles, "O tempo é o número do movimento segundo um antes e um depois". O físico norte-americano Richard Feynman, laureado com o Prêmio Nobel, afirma: "Tempo é o que acontece quando mais nada acontece". A pergunta fundamental é: "Como é que o homem chega ao tempo?" Para responder a essa pergunta, devemos prestar atenção à classificação hierárquica de vivências do tempo.

Vivência da simultaneidade por oposição a não-simultaneidade;

Vivência da sucessão ou da ordem temporal;

Vivência do presente ou do agora;

Vivência da duração. (Pöpel, 1989, cap. II)

4) O relógio mede o tempo?

Como medir algo que não se deixa tocar, ouvir, saborear nem respirar como um odor? Os relógios são processos físicos que a sociedade padronizou, para computar os segundos, os minutos e as horas. Para que isso seja possível, os acontecimentos devem ocorrer numa certa ordem. Se dois eventos não forem rigorosamente simultâneos, um acontece antes do outro. Qualquer medida desse tempo reduz-se a contar o número de acontecimentos de certo tipo, como, por exemplo, a alternância entre dia e noite. Pode-se usar o número de batidas do pêndulo, ou o número de vibrações de um cristal.

Por convenção, um dia possui, assim, a duração de 86.400 segundos e um segundo dura tanto quanto 9.192.633.770 períodos de um fenômeno de transição provocado em um átomo de césio.

A noção de presente torna-se frágil: passamos a dizer: "eu serei" ou "eu era".

Entretanto, um consolo é oferecido pela física quântica àqueles que viessem a ficar desgostosos com desaparecimento do presente: nenhuma dimensão poderia ser inferior ao "tempo de Planck", que dura 5,4 x 10-44 segundos. Enquanto decorre essa duração, é, portanto, permitido em boa lógica dizer "eu sou", mas isso tem de ser dito muito depressa.

Essa duração interior não mantém, em geral, vínculos estreitos com o tempo objetivo dos acontecimentos: os minutos de espera são longos, os instantes de prazer são curtos; com a idade, os anos passam cada vez mais depressa. (Jacquard, 2004)

5) No que consiste a irreversibilidade do tempo?

A irreversibilidade do tempo é uma propriedade que caracteriza o curso do tempo, por "curso do tempo" entende-se a sucessiva mudança de acontecimentos no processo da existência. A direção do curso do tempo é a ordem dirigida "antes" e "depois" na sucessão dos acontecimentos. (Askin, 1969, pág. 142)

6) Como distinguir o tempo absoluto do relativo?

Em Astronomia, distingue-se o tempo absoluto do tempo relativo pela equação do tempo, porque os dias naturais são desiguais, ainda que os tomemos vulgarmente por uma medida igual de tempo.

O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si próprio e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nada de exterior, e com um outro nome é chamado Duração.

O tempo relativo, aparente e vulgar, é uma medida qualquer, sensível e externa da duração pelo movimento (quer ela seja precisa ou imprecisa) de que o vulgo se serve ordinariamente em lugar do tempo verdadeiro: tais como a hora, o dia, o mês, o ano.

7) Que relação há entre tempo e eternidade?

O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente.

Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana? (Kardec, 1975, pág. 107)

Anedotas sobre a eternidade

Uma mulher é informada pelo médico que tem seis meses de vida.

– E eu posso fazer alguma coisa? – pergunta ela.

– Pode, sim – replica o médico. – Pode casar-se com um contador.

– Como isso vai ajudar na minha doença? – a mulher pergunta.

– Ah, não vai ajudar nada na sua doença – diz o médico –, mas vai fazer esses seis meses parecer uma eternidade.

 

Um homem está rezando a Deus.

– Senhor – diz ele –, gostaria de lhe fazer uma pergunta.

O Senhor responde:

– Sem problema. Vá em frente.

– Senhor, é verdade que um milhão de anos é apenas um segundo para o Senhor?

– Sim, é verdade.

– Bom, então, o que é um milhão de dólares para o Senhor?

– Um milhão de dólares para mim não passa de um centavo.

– Ah, então, Senhor – diz o homem -, pode me dar um centavo?

– Claro – diz o Senhor. – Espere um segundo.

Para reflexão: O tempo passa ou permanece? O tempo passado não volta mais? Como é medido o tempo no mundo espiritual?

Bibliografia Consultada

FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s/d/p.

PÖPPEL, Ernest. Fronteiras da Consciência: Da Realidade e da Experiência do Mundo. Tradução de Ana Maria Roltoff. Lisboa: Edições 70, 1989.

JACQUARD, Albert. Filosofia para não Filósofos: Respostas Claras para Questões Essenciais. Tradução de Guilherme João de Freitas.Teixeira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

ASKIN, I. F. O Problema do Tempo - Sua Interpretação Filosófica. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969.

KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

São Paulo, 16/4/2008

Teoria e Prática no Espiritismo

Sérgio Biagi Gregório

1) O que significa a palavra teoria?

O termo teoria – do grego theoria – é usado em várias acepções. Na Origem, designava o ato de ver e de ser visto em locais abertos a todos, tais como o templo, o circo, a ágora e em espetáculos e cerimônias públicas. Pode ser também a ação de contemplar, ter uma visão do espírito. Os gregos, de maneira nenhuma opunham, como hoje, teoria e prática. O conhecimento teórico, em toda a antiguidade clássica grega, era entendido como a contemplação da verdade (aletheia) em si mesma. A supremacia do conhecimento teórico sobre o prático ou técnico provém do fato de ele ser útil em si mesmo, independentemente de sua aplicação exterior.

2) Qual a relação, hoje, entre teoria e prática?

Hoje, o vocábulo teoria é usado, as mais das vezes, como oposição a prática, a ponto de muitas pessoas dizerem que "a teoria na prática é outra". Com isso, não são poucos os pensadores que acabam dando mais importância à prática do que à teoria. Os homens práticos, ou seja, aqueles que estão à frente de atividades empresariais e governamentais ganham cada vez mais notoriedade, principalmente pelas suas aparições nos veículos de comunicação de massa.

3) Onde se encontra a teoria espírita?

A teoria espírita encontra-se na obras básicas – O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e Inferno e O Evangelho Segundo o Espiritismo, e nas obras complementares, mediúnicas e não mediúnicas.

4) Qual a relação entre teoria e prática no Espiritismo?

Anotemos algumas frases: "você fez todos os cursos que o Centro oferece e nunca trabalhou?"; "você terminou o curso de Educação Mediúnica e ainda não trabalha?"; "você precisa trabalhar, senão será presa fácil de Espíritos menos felizes"; "você precisa aplicar passes senão as suas energias ficam paralisadas"; "as suas dores nas costas são devido à energia acumulada. Aplique passes e os seus problemas serão resolvidos". Em vista disso, parece-nos que a maioria está mais preocupada com a prática do que com a teoria. Dá-se a impressão de quem não aplica passes, não participa de um trabalho de desobsessão não é espírita.

5) O que deve vir primeiro: a prática ou a teoria?

A teoria deve sempre vir antes, porque é dela que as ideias emergem e se estabelecem os princípios de uma doutrina, de uma ciência ou de um sistema filosófico. José Herculano Pires adverte-nos que todos aqueles que se dizem espíritas deveriam, em primeiro lugar, debruçar-se sobre as obras básicas, que são os fundamentos teóricos para as nossas ações práticas. Sem elas, o edifício espírita pode ruir.

6) Como obter um embasamento teórico sustentável?

Aplicar o raciocínio lógico é bastante importante para termos convicção dos pressupostos espíritas. Dada uma afirmação qualquer, podemos colocá-la sob o crivo da razão e da lógica. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte afirmação: "Não há amor sem perdão". A frase, a princípio, parece não ter nenhuma irregularidade. Pensando melhor sobre a mesma, podemos dizer que "O amor implica o perdão". Em outras palavras, para que haja amor, há necessidade do perdão. Tomemos a descrição do amor em O Evangelho Segundo o Espiritismo:

O amor resume toda a doutrina de Jesus, porque é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso realizado. No seu ponto de partida, o homem só tem instintos; mais avançado e corrompido, só tem sensações; mais instruído e purificado, tem sentimentos; e o amor é o requinte do sentimento. Não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior, que reúne e condensa em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei do amor substitui a personalidade pela fusão dos seres e extingue as misérias sociais. Feliz aquele que, sobrelevando-se à humanidade, ama com imenso amor os seus irmãos em sofrimento! Feliz aquele que ama, porque não conhece as angústias da alma, nem as do corpo! Seus pés são leves, e ele vive como transportado fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou essa palavra divina, — amor — fez estremecerem os povos, e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo. (1)

Neste texto, o amor não precisa do perdão. O amor basta a si mesmo. O amor não é renúncia, não é sacrifício, porque quem ama faz tudo desinteressadamente.

(1) KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984, capítulo XI, item 8 (Instruções do Espíritos: A Lei do Amor).

São Paulo, janeiro de 2009

 



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