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Artigos sobre a Filosofia e o Filosofar

CENTRO ESPÍRITA ISMAEL

ARTIGOS SOBRE A FILOSOFIA E O FILOSOFAR

(SÉRGIO BIAGI GREGÓRIO)

I — CONCEITUANDO

 

Fundamento

Genealogia da Lógica

Hermenêutica

Hermenêutica - Interpretação de Texto

Identidade

Método

Poder: Emergência e Predisponência

 

Utilidade e Utilitarismo

 
   

II — FILOSOFIA

 

Conceito de Filosofia

 

Escolha e Concisão Filosófica

 

Ensino de Filosofia (I)

 

Ensino de Filosofia (II)

 

Ensino de Filosofia: Criança

 

Curso de Filosofia, Um

 

Ciência e Filosofia

 

Ciência, Filosofia e Religião

 

Convite à Filosofia

 

Espanto e Filosofia

 

Especulação Filosófica

 

Expressão Filosófica

 

Experiência e o Filosofar A

 

Filosofia: Algumas Notas

 

Filosofia e o Filosofar, A

 

Filosofia Cristã

 

Filosofia do Espírito

 

Filosofia e Religião

 

Filosofia e seu Ensino

 

Homem Comum e a Filosofia, O

 

Philosophia

 

Problema e Filosofia

 

Problemas Filosóficos e Religião

 

Retórica Filosófica

 

Verdadeiro Filósofo, O

 
   

III — CONHECIMENTO

 

Aprendizagem e Conhecimento

 

Cérebro, Mente e Computador

 

Complexidade do Mundo, A

 

Conhecimento e Compreensão

 

Conhecimento e Interpretação

 

Erro Filosófico

 

Fragmentação e Visão Holística

 

Imagem e Realidade

 

Imanência e Transcendência

 

Invenção da Imprensa e Conhecimento

 

Kant e a Revolução do Saber

 

Mestre Espiritual e o Conhecimento, O

 

Opinião e Conceito

 

Preconceito e Verdade

 

Que é um Mestre, O?

 

Reconstruir o Conhecimento

 

Reflexão e Sabedoria

 

Teoria e Prática

 
   

IV — PENSAR

 

Arte de Argumentar, A

 

Como Pensar

 

Escrever é Pensar?

 

Lógica versus Bom Senso

 

Pensar com Conceitos

 

Pensar Direito

 

Pensar por si Mesmo (I)

 

Pensar por si Mesmo (II)

 

Posição e Op0sição

 

Sabemos realmente Pensar?

 

Sobre o Perguntar

 

Sobre a Arte de Pensar

 
   

V — OS FILÓSOFOS E SUAS IDÉIAS

 

De Copérnico a Descartes

 

Descartes e o Método

 

Descartes e a Filosofia Moderna

 

Descartes: Síntese das Idéias Filosóficas

 

Epicteto e sua Arte de Viver

 

Existencialismo Sartreano, O

 

Grandes Pensadores do Mundo, Os

 

Política e Governo Segundo Maquiavel

 

Mário Ferreira dos Santos

 

Platão

 

Platão e Aristóteles

 

Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino

 

São Vitor e o seu Didascálion

 

Lições de Sêneca

 

Sócrates

 

Sócrates: Posições Filosóficas

 

Tomás de Aquino

 

Voltaire: Cândido ou Otimismo

 

Wittgenstein, Heidegger e Dewey

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONCEITUANDO

 

FUNDAMENTO

 

Fundamento é uma palavra que comporta vários significados: origem, princípio, razão de ser, finalidade etc. Os diferentes sentidos estão consubstanciados em muitas expressões de uso corrente: fundamento da fé, fundamento de uma atitude, fundamento da ciência etc. Cabe-nos verificar se, nessas diferentes expressões, a palavra alude ou não a um conteúdo comum que se poderia determinar como "essência" do fundamento.

Aristóteles, a propósito do fundamento entendido como princípio, ou causa, estabeleceu uma classificação que se tornou clássica na história da filosofia. 1º) causa significa a matéria, imanente, de que uma coisa é feita: o bronze da estátua; a prata da jarra etc. 2º) causa é a forma, o paradigma, a definição da essência: a forma do jarro. 3º) causa significa, também, o primeiro princípio da mudança ou do repouso: o pai do filho; o escultor da estátua etc. 4º) causa como finalidade, razão de ser, telos, em grego: a saúde é a causa final do remédio.

Leibniz, no século XVIII, entende por fundamento o "princípio de razão suficiente", baseando-se na fórmula nihil est sine ratione, nada é sem razão. Para Hegel, o problema do fundamento está implicitamente contido na questão da dialética, cuja categoria primordial é o da totalidade. Quer dizer, todos os seres, com exceção do absoluto, são relativos, isto é, dependentes, pois não têm em si mesmos a razão, o "fundamento" de sua existência. Para Marx, o fundamento não se apresenta em termos metafísicos ou epistemológicos, mas em termos sociais e históricos. Para ele, ser radical é tomar as coisas pela raiz e, para o homem, a raiz, o fundamento é o próprio homem.

O elemento comum a todas essas análises, no sentido restrito da ciência, é que o fundamento como princípio, axioma, postulado, definição deve ser aceito sem discussão e do qual se parte para demonstrar teorias, hipóteses e teoremas. O movimento na Física, por exemplo, é um princípio aceito pelos físicos sem discussão. A crítica compete à filosofia que, por sua natureza, busca as causas primeiras.

Assim, a filosofia, criticando os "fundamentos" das ciências particulares que, à luz de tal crítica não se revelam últimos ou remotos, mas próximos ou imediatos, a filosofia tem procurado o fundamento último da essência, da existência e do conhecimento, o princípio além do qual não seja possível remontar.

Esse pequeno estudo do "fundamento" leva-nos a refletir na quantidade de palavras que escrevemos e pronunciamos diariamente sem alcançar-lhe a profundidade do entendimento. É preciso muito esforço e muita dedicação para obter as luzes do conhecimento verdadeiro.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Civilização Brasileira, 1987.

Novembro/1996

 

GENEALOGIA DA LÓGICA

 

Parmênides de Eléia, na Grécia Antiga, é considerado o mais remoto precursor da lógica ao enunciar o princípio de identidade e de não contradição. Zenão, discípulo de Parmênides, vem em seguida, ao empregar a argumentação erística, ou seja, a arte da disputa ou da discussão. Posteriormente Sócrates, com a maiêutica, e Platão, com a teoria das idéias, completaram a base para o advento da lógica aristotélica.

Aristóteles é unanimemente reconhecido como o fundador da lógica, embora não tenha sido o primeiro a usá-la. A lógica aristotélica é fundamentalmente um raciocínio analítico. É muito mais uma propedêutica científica, um organon (que todas as ciências se utilizam) do que propriamente uma ciência. É de Aristóteles que vem a divisão do objeto da lógica, que estuda as três operações da inteligência: o conceito, o juízo e o raciocínio. O objeto próprio da lógica não é nem o conceito nem o juízo, mas o raciocínio, que permite a progressão do pensamento, que dizer, a passagem do conhecido para o desconhecido.

A Idade Média ainda é marcada pela lógica aristotélica. Com o Renascimento, os instrumentos de pesquisas das novas ciências modificam-se. A física moderna, por exemplo, exigia um método diferente da lógica aristotélica que permitisse apreender efetivamente o real e não se limitasse a garantir a racionalidade ou a coerência do pensamento. Esse novo organon, de natureza lógico-matemática, é a geometria analítica de Descartes e o cálculo infinitesimal de Leibniz.

Leibniz critica a lógica tradicional, partindo do pressuposto de que o mundo "é o cálculo de Deus". Tinha a intenção não de demonstrar verdades conhecidas, mas descobrir novas verdades. Imagina, para isso, uma combinatória universal que permitisse estudar, a priori, todas as combinações entre os conceitos. A idéia da mathesis universalis, de nítida inspiração cartesiana, leva o racionalismo às ultimas conseqüências, admitindo-se em tese, a dedução completa do real.

Kant, ao admitir a possibilidade dos juízos sintéticos a priori, e Hegel, pela sua dialética, dão, também, as suas contribuições à compreensão do tema. Kant diz que os juízos sintéticos a priori são puros, vazios de qualquer conteúdo à maneira da lógica tradicional. Hegel, por outro lado, elucida a superação da teoria da forma e do conteúdo elaborada por Heráclito, mostrando que os termos aparentemente separados passam uns para os outros, excluindo espontaneamente a separação.

Na atualidade, embora se dê maior importância à lógica simbólica, não se deve desprezar o valor histórico e todos os esforços dos filósofos que nos antecederam.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.

Março/1997

 

HERMENÊUTICA

 

O termo hermenêutica provém do verbo grego h r m h n e u e i n (bem como de seus derivados h r m h n e u d e h r m h n e u i a ); significa declarar, anunciar, interpretar ou esclarecer e, por último, traduzir. Apresenta, pois, uma multiplicidade de acepções, as quais, entretanto, coincidem em significar que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão". É a tentativa de esclarecer um enunciado obscuro.

Não há certeza filológica que a hermenêutica deriva de Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem se atribui a origem da linguagem e da escrita. É apenas uma hipótese, uma possibilidade. De qualquer maneira, o teor de suas origens está nos textos religiosos, principalmente os da Bíblia. A função da hermenêutica é levar à compreensão o texto que possa parecer obscuro. É como que trazer à luz os anúncios do Apolo de Delfos. Em síntese: refere-se a uma dimensão sacra: a compreensão e interpretação da palavra divina.

A compreensão pode ser divinatória e comparativa. A compreensão divinatória significa uma apreensão imediata do sentido, uma espécie de precompreensão; a compreensão comparativa, uma elaboração da compreensão por meio de múltiplos dados particulares. Foi por isso que Scheleiermacher definiu a hermenêutica como a "reconstrução histórica e divinatória, objetiva e subjetiva, de um dado discurso".

O problema da hermenêutica é o problema da compreensão? Mas o que significa compreensão? "Compreensão" vem de "compreender", que quer dizer "tomar junto", "abranger com". Toda a compreensão é apreensão de um sentido. De acordo com Dilthey "A compreensão pressupõe uma vivência". Na raiz da compreensão está implícita a relação entre razão e intelecto. A razão é discursiva enquanto o intelecto é intuitivo. A razão é mediata, o intelecto imediato,

A hermenêutica é um problema fundamental da Filosofia porque tenta buscar a compreensão em cada um dos termos apresentados. Todo o esforço de compreensão é uma atividade em que o Espírito vai ampliando a sua visão e entendimento de tudo o que por ele passa. É a explicação detalhada em que o texto e o contexto estão irmanados num todo harmônico. É a apreensão pelas suas causas primeiras, não aceitando idéias inconclusivas, indo de etapa em etapa até a perfeita compreensão relativa de que cada um é capaz.

Partamos sempre de um todo, a fim de melhor compreender a parte. Este exercício deve ser constante, pois quanto mais nos robustecemos melhor teremos ocasião de compreender as verdades eternas e por elas sermos libertos de todo o mal.

Fonte de Consulta

CORETH, E. Questões Fundamentais de Hermenêutica. São Paulo, EPU, Ed. da USP, 1973.

Outubro/1998

 

 

HERMENÊUTICA – INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

 

O termo hermenêutica significa declarar, anunciar, interpretar ou esclarecer e, por último, traduzir. Esta multiplicidade de acepções coincide num único ponto: mostrar que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão". Assim, a palavra aplica-se, sobretudo, à interpretação daquilo que é simbólico, especialmente a Bíblia (hermenêutica sagrada). Pode-se dizer também que a hermenêutica é a tentativa de esclarecer um enunciado obscuro.

Hermenêutica vem de hermeneuein e hermeneia, o que nos remete a Hermes, o deus-mensageiro-alado que, segundo os gregos, foi o descobridor da linguagem e da escrita, ferramentas que a compreensão humana utiliza para chegar ao significado das coisas. Na sua origem etimológica, a palavra sugere três significados: 1) exprimir em voz alta, ou seja, "dizer"; 2) explicar, como quando se explica uma situação; 3) traduzir, como na tradução de uma língua estrangeira. Os três significados podem ser expressos pelo verbo português "interpretar", mas cada um tem a sua significação própria e relevante.

Observando a sua evolução histórica, percebemos que modernamente a hermenêutica absorve seis definições: 1) uma teoria da exegese bíblica; 2) uma metodologia filológica geral; 3) uma ciência de toda a compreensão lingüística; 4) uma base metodológica do Geisteswissenschaften; 5) uma fenomenologia da existência e da compreensão humana; 6) sistemas de interpretação, simultaneamente recolutivos e iconoclásticos, utilizados pelo homem para alcançar o significado subjacente aos mitos e símbolos. Sintetizando: ênfase bíblica, filológica, científica, geisteswissenschaftliche, existencial e cultural.

O bom ouvinte deve prestar atenção ao que se disse e mais ainda ao que não se disse. Explica-se: centrarmo-nos exclusivamente na positividade daquilo que é explicitamente dito no texto é fazer injustiça à tarefa hermenêutica. A hermenêutica exige que se deve ir além do texto, para encontrar aquilo que o autor não disse, e que talvez não pudesse dizer. Recomendação: além da linha veja a entrelinha; além do texto, o contexto.

Interpretar uma obra significa caminhar para o horizonte interrogativo no qual o texto se move. Mas isso significa também que o leitor se move para um horizonte em que outras respostas são possíveis. Isso mostra que todo o acontecer é singular, como bem enfatizava Bérgson em sua Evolução Criadora, ou seja, a leitura deve nos levar para outras percepções do tema tratado. Nesse sentido, o texto tem que iluminar o horizonte do intérprete; caso contrário, o processo de sua compreensão é um exercício vazio e abstrato.

O comunicador – escritor, professor ou orador – deve sempre estimular a criatividade no modo de pensar de seus ouvintes, a fim de que estes descubram novas formas de interpretar o mesmo tema.

Fonte de Consulta

PALMER, Richard E. Hermenêutica. Tradução de Maria Luisa Ribeiro Ferreira. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989 (O Saber da Filosofia)

Fevereiro/2004

IDENTIDADE

 

Entre os lógicos, a lei de identidade costumava ser expressa desse modo: A é A. Em vista, porém, da ambigüidade que cerca essa cópula, a própria lei se torna ambígua e tautológica. O melhor enunciado é o seguinte: A é A necessariamente, mas só enquanto é A. em outras palavras, enquanto A é A, não pode ser simultaneamente não A.

Juntamente com o princípio de identidade, temos o princípio da contradição e o princípio do terceiro excluído. Enunciado da contradição: impossível é afirmar e negar o mesmo de algo sob o mesmo aspecto, e simultaneamente; ou melhor: o que é não pode ser simultaneamente o que não é, porque é o que é. Enunciado do terceiro excluído: A é B, ou não é B. Neste caso seria falso que A é B como também seria falso que A não é B, o que violaria o princípio de contradição.

A dialética procura identificar a verdade dos fatos. Parte das premissas do seu interlocutor para demonstrar a sua própria tese. As teses opostas dos interlocutores não podem ser, portanto, ambas verdadeiras e se eu puder por outrem em contradição consigo próprio, obrigo a abandonar a sua tese. Por isso, para aprender com êxito, são necessários a discussão e o diálogo socrático. O homem que pensa somente por si parece-se ao caminhante no deserto, que depois de muito andar volta ao ponto de partida, porque o corpo fê-lo andar em circunferência, quando ele imaginava andar em linha reta.

O estigma é uma deterioração da identidade. Não são poucas as pessoas estigmatizadas por si mesmas ou por outrem. Além do mais, não é tarefa fácil saber quem estigmatiza quem na sociedade. É o caso da menina que nasceu sem o nariz. Por mais que ela queira se ajustar à sociedade, não consegue. Não consegue porque ela leva consigo essa marca, ou porque as pessoas a tratam de forma inconveniente? A questão racial está incluída no mesmo processo. Há, também, a influência do marketing televisivo, que não nos deixa ver o fundo da verdade.

Como, então, identificar a verdade de um fato? A auto-aceitação e uma vida isenta de defesas fornecem-nos bom material. Aceitando-nos tais quais somos, capacitamo-nos a olhar o mundo de forma mais sensata e sem ilusão; estando sem defesas, não precisamos criar imagens que nos estigmatizam perante os outros. Estas duas atitudes conduzem-nos à humildade, o fundamento de todas as virtudes. Somente o verdadeiro humilde consegue penetrar no fundo das verdades, porque é somente ele que consegue renunciar à sua própria personalidade.

Tenhamos confiança na Divina Providência. Saibamos sofrer as agruras de nosso destino, sem nos deixarmos sufocar pelos vôos débeis de nossa imaginação.

 

Fonte de Consulta

HEGENBERG, L. Dicionário de Lógica. São Paulo, EPU, 1995.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

THINES, G. e LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa, Edições Julho/1984.

 

O MÉTODO

 

O método, em sentido amplo, significa o processo que permite conhecer determinada realidade, produzir certo objeto, ou desempenhar este ou aquele tipo de comportamento. Confundindo-se com a noção de meio para se obter determinado fim, coincide, também, com a noção de técnica, de saber fazer. Quer se refira ao conhecimento do real, à produção de objetos belos ou úteis, ou à disciplina de conduta, o método é sempre o meio ou a técnica que se emprega para alcançar um objetivo previamente estabelecido.

A noção de método acha-se ligada à noção de trabalho. Desde a antigüidade até os nossos dias a humanidade procura técnicas adequadas para a aquisição e a transmissão do conhecimento. O pescador só é pescador porque "sabe" , ou seja, domina a técnica de jogar a rede e levar o peixe ao mercado. Da mesma forma é o agricultor que "sabe" arar, semear e colher no momento certo. Observe que no próprio método está implícito a racionalização da técnica, visando, sempre, um aumento de produtividade.

A elaboração do método não pode ser anterior ao descobrimento do objeto. Geralmente, partimos do conhecido para o desconhecido, porque temos antecipadamente uma idéia do que pretendemos descobrir. A invenção do microscópio e do telescópio, por exemplo, só foi possível depois de se estabelecerem as hipóteses da existência de elementos muito pequenos ou muito grandes, e que não podiam ser vistos a olho nu.

As ciências particulares distinguem-se uma das outras em função do objeto analisado e do método empregado. O objeto corresponde ao setor da realidade a cujo estudo se dedicam e o método ao processo, ou conjunto de processos, que empregam na realização desse estudo. Nesse sentido, a física é uma ciência particular porque estuda uma parcela da realidade, ou seja, o conjunto dos fenômenos que não alteram a constituição íntima dos corpos. Distingue-se, ainda, das outras ciências não só pelo objeto, os fenômenos físicos, mas também pelo método, a observação e a experiência.

A filosofia acrescenta ao método e objeto próprios da ciência a noção de totalidade, ou seja, a busca das causas primeiras e dos fins últimos do objeto considerado. Além disso, emprega o método da reflexão, que nada mais é do que uma meditação profunda sobre os postulados que a ciência aceita sem discutir. Dessa forma, o postulado do movimento que a física aceita sem discutir, por ser evidente aos sentidos, é motivo de problematização para a filosofia. Assim, mover-se é estar e não estar ao mesmo tempo no mesmo lugar, o que foi e é, ainda, motivo de contradição para os filósofos.

Sejamos disciplinados em nosso método de trabalho. A constância forma uma segunda natureza que nos põe a salvo nos momentos críticos de nossa existência.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.

Janeiro/97

PODER: EMERGÊNCIA E PREDISPONÊNCIA

 

O poder - do grego kratos - manifestou-se desde a Antigüidade até os nossos dias sob diversas formas: inicialmente a teocracia, em que a divindade dá as leis que regulam a ordem social; segue-se-lhe a aristocracia, ou o governo dos melhores, secundada pela oligarquia, governo de poucos e a monocracia, governo de um; posteriormente, surgem a democracia, governo do povo, a plutocracia, governo dos ricos e a oclocracia, domínio das "vontades" populares. Essas fases cráticas não obedecem a uma exatidão mecânica, pois dependem do grau de intensidade envolvido em cada momento histórico.

Em toda e qualquer sociedade, independentemente de sua estrutura econômica ou social, podemos perceber pelo menos quatro características fundamentais do temperamento humano: 1ª) pessoas com tendência acentuada para o transcendente, para o místico, para o religioso; 2ª) pessoas que revelam um ímpeto empreendedor, amando a ação pela ação; 3ª) pessoas em que predominam os valores utilitários, que tendem a organizar a produção e a riqueza; 4ª) pessoas que acentuadamente obedecem, que prestam serviços.

Em todos os seres humanos há essas tendências, ou emergências que se atualizam mais ou menos intensivamente nos vários graus de predisponência. Convém, aqui, fazer uma ressalva ao marxismo. A análise meramente materialista-histórica não alcança corretamente a gestação das classes sociais, porque as vê como produto de uma estrutura meramente econômica, desligada dessas emergências espirituais que são inatas em cada ser vivente.

A historiologia - filosofia da história - deve ser reformulada. Embora as idéias materialistas tenham influenciado fortemente a filosofia moderna, convém verificar que os homens, antes de tudo, são almas pensantes. Daí advém os estados criativos e intuitivos da mente humana, isentos de qualquer finalidade utilitária, restringindo-se tão somente à perfeita identificação com o "eu" superior. Jungidos ao consumismo imediato, falseamos o princípio ético da nossa realização pessoal.

A posse do poder, sendo acompanhada pela ambição de muitos, acaba por confundir os meios com os fins. Nesse sentido, as emergências individuais que deveriam ser maximizadas acabam sendo negligenciadas. A política, que é uma técnica de harmonizar os interesses individuais com os sociais, passa, nesses momentos, a ser uma técnica de conquista do poder e da conservação do mesmo. É por isso que se vê as crises na história, porque há sempre uma separação entre os que governam e os que são governados.

Tenhamos em mente que o poder deve ser exercido para administrar o bem público. Utilizá-lo em benefício próprio pode ocasionar graves transtornos à consciência.

Fonte de Consulta

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. Ed., São Paulo, Editora Matese, 1965.

Agosto/1997

UTILIDADE E UTILITARISMO

 

Útil - do latim utile significa aquilo que pode ter algum uso ou serventia. Em filosofia, o "útil" caracteriza-se pela intermediação, ou seja, vale por tudo aquilo a que se dirige, não por si mesmo. Por exemplo: um lápis é útil, porque seu fim é escrever. Assim, o útil é sempre instrumento, sempre intermediação.

O termo utilidade, geralmente usado em economia, significa o poder que tem uma mercadoria ou serviço, de proporcionar satisfação, por corresponder a uma necessidade. A Economia não investiga a ética ou a moral das necessidades. Alimentos, cigarros, bebidas possuem utilidade e têm significação econômica, quando satisfaz necessidades. A Economia como ciência positiva analisa o que é e não o que deveria ser.

A utilidade, como estamos vendo é de caráter subjetivo, mas não implica em valores éticos. Do termo utilidade, deriva-se o princípio da utilidade marginal decrescente, ou seja, à medida que aumentamos a quantidade de um bem, a sua utilidade total aumenta, enquanto a sua utilidade marginal diminui a partir de uma certa quantia, chegando até a um valor negativo. Supondo-se que uma pessoa esteja com fome: o primeiro pedaço de pizza terá um valor alto, o segundo maior ainda, mas depois do terceiro ou quarto, o pedaço extra começa a diminuir de valor.

O utilitarismo, também derivado do adjetivo útil refere-se à doutrina moral dos ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John stuart Mill (1806-1873). Bentham encontrara um panfleto escrito por Joseph Priestley que dizia: "A maior felicidade para o maior número". Fincou pé nessa verdade, dita por ele sagrada, e tentou aplicar o conceito dentro da jurisprudência de seu país. Do mesmo modo, J. S. Mill espelhando-se nessa frase construiu normas de ações para a boa conduta em sociedade.

De acordo com esta doutrina ética, a correção de uma ação deve ser julgada pela contribuição que faz ao aumento da felicidade humana e à diminuição da miséria humana. Segue-se (por reflexão) que o prazer é a única coisa boa em si e a dor a única coisa má. A felicidade induz ao prazer e à liberação da dor. Disto resulta o prazer egoístico, em que o atendimento dos interesses pessoais leva ao aumento da felicidade da sociedade.

Saibamos diferenciar esses termos. Com isso vamos aumentando o estoque de conhecimento, usando-o mais corretamente.

Fonte de Consulta

URMSON, J. Enciclopedia Concisa de Filosofia y Filosofos. 2. ed., Madrid, Catedra, 1982.

SELDON, A. e PENNANCE, F. G. Dicionário de Economia. 3. ed., Rio de Janeiro, Bloch, 1977.

Junho/1997

 

 

 

 

FILOSOFIA

 

 

 

 

 

 

 

CONCEITO DE FILOSOFIA

 

O conceito de Filosofia deve ser elaborado de acordo com as características filosóficas de um determinado período de tempo, no curso de sua história. Na Antigüidade, os filósofos; na Idade Média, a Escolástica; na Atualidade, os problemas.

Os filósofos gregos da Antigüidade fornecem-nos uma visão completa da Filosofia. A atitude desinteressada na busca do conhecimento objetivava à última redução do real, sem compromissos particulares e limitados. Utilizavam o método demonstrativo não apenas aplicando a um plano lógico, mas metafísico. A finalidade era favorecer a reta razão, a perfeição interior e a autoconsciência do homem.

Na Idade Média não existia uma Filosofia, mas correntes de opiniões, doutrinas e teorias, denominadas de Escolástica. Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho são seus principais representantes. Buscava-se conciliar fé com razão. O método utilizado é o da disputa: baseando-se no silogismo aristotélico, partiam de uma intuição primária e, através da controvérsia, caminhavam até às últimas conseqüências do tema proposto. A finalidade era o desenvolvimento do raciocínio lógico.

Na Idade Moderna, as ciências se desprendem do tronco comum da Filosofia. Restam à Filosofia as reflexões sobre a Ontologia ou Teoria do Ser, a Gnoseologia ou Teoria do Conhecimento e a Axiologia ou Teoria dos Valores. O método utilizado é o da intuição: intelectual, emotiva e volitiva. Discutem-se problemas relacionados ao ser, ao pensamento e à conexão entre ambos. A finalidade é a transformação da sociedade pela autoconsciência do indivíduo.

A atitude, o método, o objeto e a finalidade da Filosofia mudam-se no decorrer de sua história. Hoje, já não comporta as cogitações metafísicas e transcendentais, divorciadas da realidade e da vida social. Há que se pensar em transformar a sociedade, oferecendo-lhe subsídios para uma vivência plena e participativa dos indivíduos que a compõem.

Desta forma, o conceito atual de Filosofia fundamenta-se no estudo da essência e do valor de todas as coisas: cosmos, vida, sociedade, natureza. É uma reflexão critica sobre o "eu", o "nós" e a "natureza", com a finalidade de tornar mais humana a vida social.

Fonte de Consulta

MENDONÇA, E. P. O Problema do Conceito de Filosofia - Tese de Concurso para Provimento da Cadeira de Filosofia, 1961.

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.

BAZARIAN, J. O Problema da Verdade. São Paulo, Círculo do Livro, s. d. p.

Março/1993.

ESCOLHA E CONCISÃO FILOSÓFICA

 

O ponto de partida para a escolha de temas filosóficos deve estar centrado na acepção de Descartes, que no Discurso do Método, afirma não existir uma só matéria dentro de sua esfera que não esteja seguindo em discussão. Quer dizer, para os grandes problemas da vida haverá sempre muitas opiniões e muitos pareceres, ou seja, devemos estar abertos para a crítica e a contradição.

O ato da escolha pressupõe uma questão: por onde começar? O que se deve ler em primeiro lugar? J. O. Urmson, na sua Enciclopédia Concisa de Filosofia e Filósofos, enumera alguns livros para os iniciantes em filosofia: Diálogos entre Hila e Filon, de Berkeley; O Discurso do Método, de Descartes; Ensaio sobre o Entendimento Humano, de Hume; A República, de Platão; O Utilitarismo, de Mill; Os Problemas da Filosofia, de Russel. Insiste, ainda, que devemos ler todos eles com o espírito crítico.

A qualidade deve prevalecer sobre a quantidade, embora toda a escolha tenha os seus inconvenientes, porque muitos temas ficarão fora da seleção. Porém, se não corrermos esse risco nada produziremos de valor, visto que a compreensão de um assunto requer doses maciças de aprofundamento. É precisamente aí que reside a atitude filosófica, ou seja, saber distinguir entre o útil e o inútil. De qualquer forma, o mais importante é estar inteiro no tema que for escolhido.

Foi o que fez Urmson no livro acima citado. Sendo o seu objetivo resgatar o alcance da filosofia ocidental, deixou de lado as filosofias que tratam especificamente dos "aspectos práticos da vida", principalmente as filosofias orientais. Isso não quer dizer que esses assuntos não tenham valor. Talvez sejam até mais importantes do que os aspectos teóricos, mas, uma vez feita a escolha, deve-se seguir e deixar para os outros o estudo de tais temas.

Em filosofia, como em qualquer ciência, não existe um ponto final. Há sempre novos enfoques, novos relacionamentos, novos pontos de vista. Cabe-nos, sim, consultar os filósofos e cientistas que são mais claros e objetivos, a fim de ampliarmos o estoque do nosso conhecimento. Contudo, não devemos fiar na autoridade deste ou daquele, pois os grandes problemas da humanidade são mais frutos de opinião do que de verdade.

Busquemos o perfeito entendimento da vida e do relacionamento com o próximo. Se não conseguimos ainda absorver certos temas como gostaríamos, deixemos a cargo do tempo que tudo resolve e tudo aclara.

Março/2000

 

ENSINO DE FILOSOFIA (I)

 

O ensino de filosofia pode se desenvolver em dois sentidos: como produto e como processo. Como produto, foi o que se consolidou ao longo do tempo. Nele estão enquadrados os textos filosóficos e a história da filosofia. Mais especificamente, o produto filosófico diz respeito ao contato com o pensamento de Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant e outros. Como processo, por sua vez, refere-se aos temas filosóficos, entre os quais, citamos: origem de Deus, livre-arbítrio e determinismo, justiça etc.

A filosofia pode ser ensinada através de diversos métodos: a exposição, a interrogação, a exposição dialogada, a leitura e análise de textos, a análise lingüística e o estudo dirigido. Dentre tais métodos, a exposição dialogada, conhecida também como "método socrático", é a que mais se adapta aos anseios da filosofia. Por que? Por que é através do diálogo, ou seja, de perguntas e respostas, as quais dão uma direção determinada ao tema escolhido. Era o que fazia Sócrates. Primeiramente usava a ironia, para confundir; depois, a maiêutica, para explicar, para aprofundar.

Todo o método tem suas vantagens e desvantagens. Cabe-nos saber utilizá-los com critério e bom senso. O método expositivo, por exemplo, permite a unidade e a comunicação de muitos conhecimentos em pouco espaço de tempo. Tem, contudo, a desvantagem de deixar o ouvinte numa posição de inatividade, caso o assunto não lhe interesse. O interrogativo permite constantes perguntas, mas pode transformar-se em pseudodiálogo, caso a maioria dessas perguntas seja de caráter fechada.

Optando pelo ensino de filosofia através do método da exposição dialogada, o facilitador de aprendizagem deve possuir mente aberta e receptiva. Sua função é conduzir a reunião de modo que todos os membros de um grupo possam participar da elaboração gradual dos pensamentos. Não pode ser a pessoa que quer ensinar tudo, pois a sua tarefa consiste em coordenar o pensamento do grupo, o que não é tarefa fácil, convenhamos. É que geralmente queremos passar aos outros aquilo que arduamente nos empenhamos por aprender.

O coordenador deve também conhecer algumas técnicas de liderança de grupo. Muitas vezes a reunião se torna incontrolável, confusa, com participantes falando alto demais. O que fazer? Dependendo da situação, convém não interromper o fluxo energético do grupo. Contudo, é necessário tomar consciência daquilo que está acontecendo e não simplesmente deixar que as coisas caminhem a seu bel prazer. Lembremo-nos de que nem sempre toda discussão acalorada é sinal de bagunça. Quando algo acontece, não queiramos que seja diferente, defendendo A ou B. deixemos simples que o fato penetre livre e solto em nosso subconsciente, sem julgar ou recriminar. O tempo se encarrega de colocar as coisas no seu devido lugar.

Tenhamos em mente que o papel da filosofia não é ensinar alguém a pensar ou mesmo mudar de comportamento, mas fazer as pessoas pensarem melhor. E se cada um de nós pensar melhor, estaremos modificando o nosso modo de atuar em sociedade.

Fonte de Consulta

SOUZA, Sonia Maria Ribeiro de. Um Outro Olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, 1995.

Abril/2005

ENSINO DE FILOSOFIA (II)

 

O ensino de filosofia acompanha os vários sentidos que a palavra filosofia encerra. Da sua etimologia grega – como amor à sabedoria – às diversas acepções políticas, econômicas e sociais, o campo de estudo está aberto. Para muitos filósofos, se realmente quisermos aprender a ensinar filosofia, temos necessidade de perpassar toda a história da filosofia, no sentido de absorver os ensinamentos desses eminentes filósofos.

Caso não tenhamos condições de fazer esse retrospecto histórico, há um consolo: em todos os acontecimentos de nossa vida, haverá sempre um exercitar filosófico. Como podemos explicar? Mesmo que cassem o direito de expressarmos o nosso pensamento, ainda assim, estaremos questionando, duvidando e elaborando sobre os mais diversos assuntos. O estranhamento e a diferença do outro estarão sempre em nossa percepção. Por isso, a frase de Kant: "Não se deve ensinar filosofia, quando muito deveríamos aprender a filosofar".

A maiêutica, o diálogo, a hermenêutica e a exposição são alguns, dos muitos métodos, que o professor de filosofia pode se utilizar. Todos eles têm os seus aspectos positivos e negativos. O importante é que ele saiba comunicar a essência das coisas e não a superficialidade. Para alcançar tal fim, deve saber distinguir a informação do conhecimento, o texto do contexto e a linha da entrelinha. É daí que surge o pensamento robusto, aquele que vai a fundo e procura, não os interesses imediatos que o amanhã os torna indiferentes, mas aqueles que realmente formam o ser humano para a eternidade.

A essência da filosofia está no perguntar e não no responder. O professor de filosofia deveria fazer esforços para que o aluno pense pela sua própria cabeça. Pedro Demo disse certa feita: "O que temos de fazer na e da vida não é propriamente a resolver problemas, mas a administrá-los com inteligência". Se cada professor tivesse sempre em mente o desenvolvimento integral de seus alunos, a educação se fortaleceria e teríamos cada vez mais cidadãos compenetrados de si mesmos.

A leitura da obra Críton, de Platão, é uma boa possibilidade de ensinar filosofia e aprender a pensar mais criticamente. A questão proposta nessa obra é: se a Sócrates coube uma sentença injusta, há alguma lei que obrigue um homem a submeter-se a uma injustiça? No diálogo Críton temos uma pergunta capital: Sócrates deve ou não fugir da prisão? Críton apresenta-lhe um argumento, oferece-lhe dinheiro e facilidade para deixar a prisão. Contudo, Sócrates contesta-lhe esses argumentos, convencendo-o de que a sua morte seria um bem e não um mal.

Aprender a ensinar é aprender a deixar aprender. O professor sabe-tudo já não faz mais parte da globalização dos dias atuais.

Fonte de Consulta

FÁVERO, Altair Alberto et all (Org.). Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijui, 2002 (Coleção filosofia e ensino).

Julho/2006

O ENSINO DA FILOSOFIA: CRIANÇA

 

O ser humano, especialmente na fase infantil, está à procura do significado. De que maneira a filosofia pode auxiliar nessa busca? Para Lipman, criador do programa de filosofia para as crianças, "O que os filósofos e as crianças têm em comum é a capacidade de se maravilhar com o mundo". Assim sendo, a busca desse significado deve partir do exercício filosófico por excelência, ou seja, do assombro da criança em relação ao conhecimento. Deve partir dela e não de algo imposto por outrem.

A filosofia deve oferecer à criança os recursos necessários para o seu pensar. Esses recursos poderiam ser descritos como a verdadeira educação para o pensar. A educação para o pensar inclui a busca do conceito, o diálogo e a crítica reflexiva. As crianças devem ser educadas a expressar – falar e escrever – as palavras pelo seu sentido próprio. Embora tal comportamento cause transtornos e inquietações, ela não deve recuar porque aí está todo o desenvolvimento de seu ser psíquico, físico, intelectual e moral.

O professor ou professora de filosofia para crianças tem uma grande tarefa: criar condições para que a criança aprenda a se relacionar com o outro. Assim, deve aprender a emitir opiniões e a ouvir as dos outros. Numa discussão, o outro também tem razão; por isso, não há necessidade alguma de monopolizar uma reunião. A criança deve ser educada a estar sempre pronta para aprender, venha o conhecimento de onde vier. A sua leitura não deve ser passiva, mas que a ajude a construir o seu próprio pensamento.

O que se poderia abordar num curso de filosofia para as crianças? Tendo as crianças dispostas em círculos, poder-se-ia lançar algumas perguntas: "O que é amizade? O que é ser pessoa? O que é o real? O que é o medo? O que é a verdade? O que é a injustiça? O que é cidadania? Como o poder é exercido? A morte é o fim de tudo? Sabemos nos comunicar?" Para cada pergunta formulada, uma orientação ao debate, ao diálogo saudável e instrutivo.

Algumas impressões das crianças, extraídas de reuniões e de Congresso de Filosofia entre Crianças: "Através do diálogo fica mais fácil mudar de atitude"; "Depois de uma discussão eu me sinto mais gente"; "Pessoa gera pessoa quando há respeito, boa comunicação, entendimento, compreensão amor e verdade"; "Como separar a pessoa do cidadão? É impossível, pois, um depende do outro, seria como separar água nas suas substâncias formadoras e portanto não seria mais água".

A co-participação do pensamento é a internalização do diálogo. Evitemos a fragmentação e a crescente especialização do conhecimento. Esforcemo-nos para torná-lo crítico, criativo e cuidadoso.

Fonte de Consulta

MURARO, Darcísio N. Filosofia para Crianças: Educação para o Pensar. In PIOVESAN, Américo et al. (org.). Filosofia e Ensino em Debate. Rio Grande do Sul: Unijui, 2002. (Coleção Filosofia e Ensino, 2).

4/4/2007

 

 

UM CURSO DE FILOSOFIA

 

O objetivo central de um curso de filosofia deve ser a formação de espíritos críticos, que saibam pensar por si mesmos e não sejam apenas espectadores de frutas de vitrine. Pode haver ou não conexão de um assunto para o outro. Esforçando-nos por conectá-los, teremos condições de melhor compreender o raciocínio filosófico, isto porque, quando percebemos que um assunto puxa o outro, o nosso interesse aumenta, e juntamente com este, o aprendizado que se lhe segue.

Um curso de filosofia deve ser histórico ou temático? Tanto faz. Cada qual tem sua vantagem e desvantagem. O histórico tem a vantagem de ser menos dogmático e mais simples, pois seguindo o percurso das idéias de cada filósofo, vamos inteirando-nos do progresso realizado pela filosofia; a desvantagem é perdermos a noção da parte. O temático tem a vantagem de ser restritivo; a desvantagem é a perda da noção de conjunto, que é base da filosofia.

Optando por uma linha histórica, poderíamos incluir as seguintes aulas: Pré-Socráticos: Físicos e Sofistas, Platão e as Idéias, o Realismo Aristotélico, a Filosofia Cristã, o Racionalismo Cartesiano, o Empirismo Inglês, o Criticismo Kantiano, o Positivismo de Comte, Hegel e a Dialética, o Materialismo Histórico, o Irracionalismo de Kierkegaard, Nietzsche: uma Crítica Radical, o Existencialismo de Sartre, a Filosofia Analítica, a Visão da Modernidade e a Filosofia no Brasil. Com isso formaríamos uma linha de ascensão da filosofia desde os tempos antigos até os atuais.

Optando por uma linha temática, poderíamos incluir as seguintes aulas: Natureza do Universo, Lugar do homem no Universo, Que É o Bem e o Que É o Mal?, Natureza de Deus, Destino versus Livre-Arbítrio, a Alma e a Imortalidade, o Homem e o Estado, o Homem e a Educação, Espírito e Matéria, as Idéias e o Pensamento. Estes seriam os grandes problemas que todo homem, quer seja filósofo ou não, põe-se a meditar para encontrar uma solução que lhe satisfaça o seu phatos.

Optando tanto por um caminho quanto pelo outro, não podemos perder de vista o fim último da filosofia, que é o filosofar. Kant já nos dizia que ninguém ensina filosofia, quando muito podemos aprender a filosofar. Nesse sentido, convém aprendermos a analisar cada tema, dentro da sua profundidade intrínseca. Se escolhermos o método histórico, busquemos a vivência de cada filósofo, procurando aplicá-la nos dias de hoje; se escolhermos o método temático, reflitamos em cada tema no sentido de aplicá-lo como terapia para o niilismo que nos avassala.

A filosofia, como a verdade, não é monopólio de ninguém. É patrimônio comum das inteligências que se entrelaçam na busca do saber pelo saber.

Fonte de Consulta

FROST JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo, Cultrix, s/d/p.

REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação. 6. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

Fevereiro/2001.

 

 

CIÊNCIA E FILOSOFIA

 

Ciência é o conjunto de conhecimentos organizados, relativos a uma determinada matéria, comprovados empiricamente. O objetivo do cientista é adquirir o conhecimento exato do mundo e, para tanto, se vale da observação e da experimentação. Nesse sentido, insurge-se contra o saber comum e desconexo. Procura, sim, construir seus modelos, baseando-se na lógica e na racionalidade.

O conceito de Filosofia, por sua vez, sofreu muitas alterações ao longo do tempo. Do simples amor à sabedoria, transformou-se num saber racional e dialético. Atualmente, é uma ciência que estuda as leis mais gerais do ser, do pensamento, do conhecimento e da ação. O objetivo do filósofo é desenvolver o espírito crítico, ou seja, suplantar as concepções ingênuas e superficiais acerca do homem, da sociedade e do mundo que o rodeia.

As divergências entre ciência e filosofia estão relacionadas com a forma de se abordar o real. Na Antigüidade, a filosofia abrangia a totalidade do saber. A partir do séc. XVII, surgem as ciências particulares, delimitando um campo específico de pesquisa. À Física cabe investigar o movimento dos corpos; à Química, as transformações substanciais, à Biologia, a natureza dos seres vivos, e assim por diante. Desta maneira, a ciência fragmenta o real, ocupa-se do imediato e formula juízos de realidade. Por outro lado, a filosofia engloba o real, ocupa-se do mediato e formula juízos de valor.

A lógica, a racionalidade e a rigorosidade das hipóteses são os pontos de contato entre ciência e filosofia. Dado o caráter operatório da ciência, ela tende a formar um sistema sempre mais autônomo e autocontrolado. Ciência liga-se à experiência. A experiência científica é "uma intervenção de caráter sistemático no curso das coisas". O filósofo, ao interpretar a realidade, não pode excluir, em sua análise, a influência que as modernas técnicas exercem no relacionamento entre o indivíduo e o meio ambiente.

Os "juízos de valor", elaborados pelo pensamento filosófico, é de grande valia. Eles nos sinalizam o fim proposto de cada ação. Enquanto a ciência, auxiliada pela técnica, produz máquina e equipamentos, a filosofia trata da finalidade do emprego deles na vida prática. É possível que uma nova invenção esteja destruindo a flora e poluindo os rios. Os filósofos desenvolverão argumentos, levando-se em conta os aspectos relevantes da evolução do ser.

Além da ciência e da filosofia, há a religião. Se pudéssemos juntá-las num feixe único, aproximar-nos-ia, cada vez mais, da verdade relativa de que somos capazes de absorver.

Fonte de Consulta

ARANHA, M. L. de A. e MARTINS, M. H. P. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo, Modena, 1986.

LADRIERE, J.. Filosofia e Práxis Científica. Rio de Janeiro, Francisco Alves, l978 (Coleção Episteme).

Fevereiro/1995.

 

CIÊNCIA, FILOSOFIA E RELIGIÃO

 

A distinção entre filosofia, ciência e religião é um dos temas que mais dão margens a polêmicas, aparentemente infindáveis. Não conseguimos perceber que os termos estão interligados e, por isso, não somos capazes de analisar qualquer assunto sob estes três ângulos. Pode-se começar por um arroubo da fé; depois, adere-se às lucubrações da filosofia; finalmente, tenta-se provar que aquilo que estamos idealizando tem base sólida. Se uma pessoa se cristaliza num dos vértices deste triângulo, acaba por deformar a sua visão de mundo.

A ciência moderna, como a conhecemos presentemente, tem sua origem nas especulações feitas, em meados do século XVI, pelo cônego polonês Nicolau Copérnico, o qual colocava o Sol no centro do Universo. Um dos pontos culminantes das disputas entre religião – representada pela Igreja Católica – e ciência – representada pelo projeto de física-matemática –, ocorreu com a condenação em 1633 do astrônomo, matemático e filósofo natural Galileu Galilei.

A condenação de Galilei, feita pela Igreja, é compreendida por muitos como um atentado à liberdade de pensamento. O que pouco se comenta é que Galileu era um católico fervoroso, que temia desobedecer às regras da Igreja. Na realidade, ele queria encontrar um elo de ligação entre ciência e religião, sem que houvesse perdas para ambas. Seu lema era: "a fé ensina como ir para o céu; a ciência como vai o céu". Talvez tenha sido o fato de nunca ter procurado desobedecer à Igreja Católica que levou Galilei a aceitar – ao menos para o mundo externo – a pena de prisão domiciliar perpétua.

O Iluminismo francês, movimento político-intelectual muito forte e presente em toda a Europa durante a segunda metade do século XVIII, foi um dos responsáveis por essa interpretação da condenação de Galileu. Para defender a tese de que o ser humano é capaz de descobrir as verdades do mundo externo, sem precisar recorrer a Deus, o iluminismo se apóia no episódio de Galileu, no sentido de mostrar que a palavra teologia (ou religião) é sinônima de atraso. A supremacia da razão, em detrimento da fé e da filosofia, inverte os valores humanos. Conseqüência: o mundo se torna materialista.

Onde está a verdade? Na fé? Na ciência? Na filosofia? A verdade não se encontra em nenhum lugar específico: ela está em toda a parte. Se o homem percebesse que as leis naturais, criadas por ele, nada mais são do que representações do vasto mundo real, ele procuraria conter os seus desmandos intelectuais. Temos necessidade da coexistência entre filosofia, ciência e religião. São as três vertentes essenciais do conhecimento humano. Somente elas poderão nos proporcionar o perfeito equilíbrio de nossas ações.

Por mais que a ciência dê a sua contribuição, ela sozinha será sempre um conhecimento parcial, tal qual um corte na realidade. Para vê-la totalmente, devemos adicionar a intuição trazida pela fé e a lógica trazida pela filosofia.

Fonte de Consulta

STOEGER, William R. As Leis da Natureza: Conhecimento Humano e Ação Divina. Tradução de Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulinas, 2002. (Coleção Religião e Cultura).

Março/2005

CONVITE À FILOSOFIA

O ser humano, pela condição de ser primeiro homo faber em vez de homo sapiens, acaba emprestando aos bens materiais – dinheiro e propriedades – um valor muito maior do que àquele dado aos bens espirituais. Esse tipo de escolha rouba-lhe o tempo que poderia estar sendo usado para cuidar de sua alma, um bem muito mais precioso. Quando, porém, se predispõe a tal cuidado, é sempre visto com desdém pelos que assim não pensam.

O exercício filosófico não é difícil. Basta apenas que tenhamos tempo e disposição para pensar e repensar todos os assuntos que visitarem as nossas mentes. O importante é não fugirmos de um problema, mesmo que esteja nos causando angústia e inquietação. Observe a biografia dos grandes pensadores: muitos contam que, somente depois de muitos escritos e correções, é que acabam compondo as suas peças literárias. Lembremos também do adágio: "o gênio é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração".

A palavra filosofia – do grego filo e sofia significa amor à sabedoria, mas não qualquer sabedoria, porém a sabedoria que nos leva à descoberta da verdade. Com relação à descoberta da verdade, René Descartes dá-nos uma contribuição valiosa. Para ele, seria muito mais produtivo descobrir o espírito à captação da verdade do que correr pressurosamente na busca da mesma. Em outras palavras, esforçarmo-nos por purificar o vaso interior deve ter um peso muito maior do que buscar reconforto nos escritos alheios. Repassar mentalmente o dia, como fazia Santo Agostinho, não deixa de ser um excelente exercício de reflexão filosófica.

O espanto, a dúvida e a contradição são requisitos fundamentais para o filosofar. Ao sermos bafejados por um insight, parece-nos que todo o nosso ser sofre um realinhamento comportamental. Assim, o espanto mostra-nos que há outra forma de analisar o mesmo problema; a dúvida, não qualquer dúvida, mas aquela que nos leva ao encontro da verdade, dá-nos novo alento às nossas pesquisas; a contradição, por sua vez, faz-nos confirmar ou negar o conhecimento que pensávamos ter sobre um determinado objeto.

A filosofia é a mãe de todas as ciências, porque foi dela que partiram todos os ramos do conhecimento. Ela está acima das ciências, por que vai ao encontro das causas primeiras e procura colocar tudo em termos globais, holísticos. Comparativamente falando, a ciência procura a parte, o corte da realidade; a filosofia pega essa parte, esse corte e o relaciona com o todo.

Os conhecimentos filosóficos devem ser absorvidos de forma natural. Eles se assemelham aos cuidados que devemos ter para com uma planta: aguando-a em demasia pode vir a morrer; não jogando água nenhuma, também. O seu crescimento depende da quantidade de água justa: nem mais, nem menos.

Setembro/2005

ESPANTO E FILOSOFIA

 

A Filosofia originou-se em Mileto, no século VI a.C. Pergunta-se: o que existia antes? Como algo pode surgir repentinamente, se as idéias sofrem um processo de evolução? Partindo-se da mitologia, forma-se uma análise mais correta. Na mitologia, encontramos as grandes explicações sobre a origem do universo, do homem e de todas as coisas sobre a face da Terra. O grande mérito da filosofia grega foi o de propor um método para a absorção do real, iniciando pela surpresa, pela admiração.

O espanto (tò thaumázeisé), como dissemos acima, é o princípio da filosofia. Observe que tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Metafísica, A2, 982d) diziam que a metafísica se originava na admiração. Nesse sentido, os primeiros filósofos foram aqueles que, contemplando o espetáculo, familiar, da abóbada celeste, e sentindo-se colhidos de admiração perante o movimento das estrelas e dos planetas, a si próprios formularam questões a propósito de um espetáculo até então passivamente aceito por todo o mundo. A ironia e a maiêutica socrática propunham, também, uma espécie de curto-circuito, que jogava o interlocutor na rota da abertura intelectual.

A pedagogia do filósofo torna-se, muitas vezes, uma dificuldade para o avanço da filosofia. Sócrates, Platão, Descartes, Hegel e outros começaram pelo espanto, pelo zero, por uma espécie de tábua rasa. Alguns deles, contudo, tão logo se achavam possuidores do conteúdo filosófico, negavam esse direito aos novos filósofos, entendendo que estes deveriam dar continuidade ao que eles haviam descoberto. Quer dizer, a posteridade não precisava mais do espanto e da admiração, características próprias do ato de filosofar.

O questionamento é requisito essencial no ato de filosofar. No âmago da questão está embutida a resposta. O fim e o começo estão unidos de tal forma que, muitas vezes, a racionalidade especulativa não consegue compreender. Por exemplo, como absorver diretamente a verdade e o bem, sem começar pelo erro ou pelo mal? Por que não podemos captar de imediato o bem e a verdade? Os filósofos têm dificuldade de dar uma resposta satisfatória a essas questões. Eles não entendem que a vida humana está acima da filosofia e da ciência. Preocupam-se apenas em especular racionalmente.

O estudo da filosofia não nos isenta da inquietação, ao contrário, aumenta-a. É ela que impulsiona o nosso pensamento para o progresso. Sabemos que, seguindo os caminhos que outros já percorreram, o nosso trabalho se torna mais leve. Mas, como não somos simples repetidores, acabamos sofrendo as agruras que o pensamento inovador acarreta. Muitos, ao se depararem com tal situação, voltam-se desanimados para a sua comodidade. Não deveríamos proceder desta maneira, pois os que souberem sofrer, sofrerão menos no futuro.

O filósofo, à semelhança do cristão, não deve pensar somente em si. Deve, sim, colocar-se como o arauto do pensamento, como uma luz que irá redimir a ignorância de toda a humanidade.

Fonte de Consulta

GUSDORF, Georges. Tratado de Metafísica. Tradução de Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Nacional, 1960

Outubro/2004

ESPECULAÇÃO FILOSÓFICA

 

Especulação do lat. speculatione significa investigação teórica, exploração minuciosa. A especulação filosófica assusta os leigos que, influenciados pela linguagem abstrusa de Kant, Hegel, Husserl, Whitehead etc., sentem-se temerosos de vivenciarem a argumentação filosófica. Pecham-se, muitas vezes, de orgulhosos por não saberem filosofia, esquecendo-se de que ao refletirmos sobre a nossa profissão ou sobre o nosso "que hacer", estamos filosofando.

Semântica, etimologia e linguagem são essenciais à articulação filosófica. A semântica trata do significado da palavra, enquanto a etimologia estuda suas origens próximas e remotas. Expressa-se bem quem conhece o verdadeiro significado das palavras. Nesse sentido, a busca em dicionários e enciclopédias muito contribui para uma melhor compreensão daquilo que queremos comunicar aos outros.

Denotação e conotação são as duas principais dimensões das sentenças e dos símbolos lingüísticos. Denotação refere-se à extensão, ou seja, abrange todos os objetos a que determinado termo se aplica; conotação eqüivale a intensão, isto é, ao conjunto de propriedades ou atributos dos objetos a que determinado termo se aplica. A palavra "homem", por exemplo, denota todos os seres que são designados pelo referido termo. Mas a mesma expressão conota "animal racional", "bípede sem plumas" etc., incluindo todas as propriedades que distinguem o indivíduo e o tornam classificável como um ser humano.

A especulação filosófica, como já vimos, contém a reflexão, a semântica, a etimologia, a denotação, a conotação e outros. Desta forma, a Filosofia caracteriza-se como método e não como domínio autônomo do conhecimento. Eis porque a reflexão crítica sobre nossas idéias e ações acaba identificando-se com a análise dos princípios gerais do conhecimento.

A Filosofia, especulada pelo método científico, torna-se filosofia científica. Método é um conjunto de meios que permite alcançar um determinado fim. O método científico, por sua vez, é um conjunto de procedimentos que permite alcançar a verdade. Desta forma, a filosofia científica procura descobrir em que medida o espírito humano chega à verdade e evita o erro.

Partindo-se, assim, de uma base sólida e isenta de preconceitos, podemos construir eficazmente o nosso conhecimento filosófico. Perseverando nesse procedimento, podemos melhorar sensivelmente nossa maneira de pensar e atuar na sociedade.

Fonte de Consulta

CANNABRAVA, E. Elementos de Metodologia Filosófica. São Paulo, Editora Nacional, 1956.

Fevereiro/1996.

 

EXPRESSÃO FILOSÓFICA

 

A expressão filosófica nada mais é do que a comunicação das idéias e pensamentos dos filósofos. Um determinado pensador tem os seus insights: anota o ocorrido, elabora um texto e torna-o público para que outras pessoas possam tomar conhecimento. Não deve fazê-lo nem por orgulho e nem por vaidade, mas sim por um sentimento de solidariedade para com os demais seres humanos. É sobejamente sabido que devemos dar de graça o que de graça recebermos.

Como surgem as idéias? Como se formam os pensamentos? Primeiramente, há uma captação mental. Tem-se a impressão de que as idéias jorram do cosmo, do universo, do alto. Muitas vezes é a resposta a uma dúvida, a um temor ou a uma necessidade vital e peremptória. A dificuldade começa quando essas idéias têm que ser transformadas em palavras, pois o filósofo nem sempre tem à sua frente um termo adequado para exprimi-las. Por essas e outras razões, a linguagem filosófica acaba se tornando abstrusa, confusa.

O filósofo é eminentemente teórico. Por isso a frase homo teoreticus. Ele não está preocupado com a prática. Quer captar, através da contemplação, a verdade dos fatos, tornando-se assim incompreensível aos seus semelhantes. Sobre esta questão, há uma interessante observação de Platão: "Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés".

As críticas literárias ao discurso filosófico são muitas vezes injustas. O literato escreve com facilidade os seus longos pensamentos a respeito de um determinado assunto. O filósofo, por sua vez, ao se aprofundar num tema de sua predileção, quer ser rigoroso não só nas palavras como também no raciocínio. Como sua função não é contar histórias nem transmitir informações, acaba por tornar o texto de difícil compreensão. Isso, contudo, não invalida a verdade que está perscrutando.

Dialeticamente considerado, o mais abstrato leva ao mais concreto. Por que? Por elevar-se do concreto ao abstrato, acerca-se ainda mais da verdade, com maior profundidade e exatidão, pois reflete a realidade objetiva não já na sua aparência sensível, mas nas suas relações internas, na sua estrutura. Observe que quando estamos exercitando os nossos pensamentos, estamos, na realidade, exercitando as nossas mãos. O pensamento tem intrinsecamente a sua prática.

Expressemo-nos tais quais somos. Por que temer a crítica? Tal como é necessário que uma árvore dê frutos, é necessário que criemos pensamentos. Que nos importa se serão agradáveis ou não?

Maio/2006

A EXPERIÊNCIA E O FILOSOFAR

 

O problema do ponto de partida do filosofar reveste-se de vários e distintos matizes. Primeiramente, há que se considerar o "assombro", a "surpresa" e o "desespero" que incitam o homem a filosofar. Posteriormente, deve-se estabelecer a prioridade lógica para que se tenha a rigorosidade dos seus conceitos. Alguns filósofos buscam uma verdade absolutamente certa; outros falam de uma primeira realidade que sirva de base para tudo o mais. Porém, sempre que estabelecemos uma origem, indagamos de uma origem anterior, de modo que o perguntar não tem fim. Por isso, uma reflexão sobre a experiência humana facilita a nossa compreensão do filosofar. Empenhemo-nos, pois, em estudá-la.

A experiência humana é considerada por alguns filósofos como o principal ponto de partida do verdadeiro filosofar. Ela não deve ser confundida com a experiência científica, em que se estabelecem hipóteses para serem comprovados empiricamente. A experiência humana constitui a realidade, fato básico do qual todos os outros fatos decorrem. Refere-se, primordialmente, à pessoa que tenha vivido muitos, variados e intensos estados psíquicos. Em síntese, ela fundamenta a totalidade do ser.

A experiência humana diz respeito ao "eu", ao "outro", ao "nós" e ao mundo. O eu não pode ser analisado isoladamente, pois sempre está relacionado com o objeto. Observe o erro tanto do idealismo quanto do materialismo ao pretenderem reduzir o ponto de partida do filosofar a uma única realidade. O eu quando se expressa, expressa-se através de um juízo de valor: o pensado ao pensar, o desejado ao desejar, o percebido ao perceber. O cogito pressupõe um cogitatum. É somente pela síntese das concepções idealista, materialista e religiosa que podemos formar uma visão global da realidade que nos absorve.

Experiência pressupõe "resistência". Todo o objeto que quer ser apreendido mostra a sua resistência. Nesse sentido, a "resistência" é proporcional ao impacto que o sujeito exerce sobre o objeto. Por isso, nenhuma idéia nova é aceita com tranqüilidade. Ela precisa aclimatar-se nos corações daqueles que estão ligados a essa vivência conjunta. Observe a vida dos grandes homens: tiveram que rasgar horizontes através de toda a sorte de dificuldades. Assim, ao sermos incompreendidos, mesmo com a melhor de nossas intenções, não nos desanimemos, porque está ampliando-se a nossa visão de mundo.

A experiência deve ser concebida no tempo. O que fazemos nesse instante é conseqüência do que fizemos no passado e daquilo que intencionamos fazer no futuro. A calma nos grandes momentos de dificuldade e de tribulação é o resultado dos pequenos esforços feitos no passado. O acaso não existe: cada um é construtor do seu próprio destino. O importante é aprendermos a nos limitar dentro das circunstâncias que estamos inseridos.

Recebamos com naturalidade tanto a crítica como o elogio. A diversidade dos pareceres alheios não pode desviar-nos dos projetos existenciais que, conscientemente, traçamos para nós mesmos.

Fonte de Consulta

FRONDIZI, R. El Punto de Partida del Filosofar. Buenos Aires, Editorial Losada, 1945.

Julho/1999

FILOSOFIA: ALGUMAS NOTAS

 

As pessoas, em geral, tem uma impressão negativa da filosofia. Dizem que "a filosofia é a ciência pela qual ou sem a qual continua tudo igual", "a filosofia é um saber especulativo inútil, que em nada contribui com a ciência e o conhecimento". Há também algo genuinamente filosófico contado por Platão sobre Tales: "Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés".

A filosofia precisa recobrar a sua originalidade, pois a sua profissionalização nos centros acadêmicos tem sido indigesta pelos demais seres humanos, principalmente pelas crianças e jovens. Se os filósofos contemporâneos colocassem o diálogo como centrum da filosofia eles facilmente substituiriam o caráter sisudo, acadêmico, hierático e hermético em que filosofia se transformou ao longo do tempo.

A sociedade, nos dias atuais, instrumentalizou-se e não dispõe de tempo para os arroubos filosóficos. O ser humano esta tão preso às aparências e aos formadores de opinião que abdicou do seu exercício de pensar. Pensar dá trabalho porque temos que romper com o comodismo e debruçar sobre os problemas que se nos apresentam tentando dar uma solução racional.

Sócrates, ao praticar naturalmente a filosofia, tinha um objetivo claro e definido: transformar opiniões em conceitos que, em outras palavras, é transitar da doxa para a episteme. A filosofia não é conversação espontânea, pois esta ficaria sujeita apenas à discussão infindável sobre pontos de vista de um ou do outro litigante. O objetivo da filosofia é passar dessa opinião aos conceitos claros e límpidos como bem dizia descartes em seu Discurso do Método.

Olhemos criticamente o ensino da filosofia. Muitas vezes diz-se que a filosofia é contemplação, reflexão e comunicação. Isso não é verdade. Essas palavras referem-se mais a uma técnica do que à filosofia propriamente dita. Observe que contemplar não é criar, refletir pertence a todo o mundo e comunicar nada mais faz do que divulgar o consenso. Em outras palavras, a filosofia se utiliza dessas ferramentas como qualquer outra atividade intelectual.

Em filosofia, deve-se dar ênfase à discussão e não à exposição. Os participantes de uma reunião filosófica não devem ser passivos, ficar simplesmente ouvindo os outros. Eles devem também expressar as suas opiniões para poderem chegar ao conceito. Para tanto, não devemos nos envergonhar de buscar subsídios com os chamados mortos, tais como Sócrates, Platão e outros. Auguste Comte, o pai da sociologia, criou a sua religião natural que não era mais do que uma volta aos ensinos dos grandes pensadores desde a antiguidade até os dias presentes.

A filosofia é um tesouro oculto que ninguém poderá nos roubar. É um consolo na falta de tudo o mais, tal como emprego, família e amigos. Quanto menos coisas exteriores tivermos mais tempo teremos para nos dedicar às coisas do espírito. Em principio, não precisaríamos de mais nada porque, a filosofia, embora faça uso de tudo o mais, basta-se a si mesma. Seu principal objetivo é fazer o homem voltar-se para dentro de si mesmo no intuito de conhecer a sua própria ignorância e com isso educar-se para a vida de relação.

A filosofia é um contínuo perguntar. O ensino formal favorece mais as respostas do que as perguntas. Contudo, no âmbito da filosofia, deveríamos ensinar o aluno a perguntar. As perguntas mostram não só o estado de espírito do aluno como também o torna proativo, no sentido de ele mesmo buscar o conhecimento de que precisa e não esperando que venha do outro, o que fez a pergunta e tenta passar as suas informações para frente. A pergunta também revela uma virtude, ou seja, a virtude da humildade, porque nos coloca na condição de ouvir o outro, ouvir aquele que supostamente saiba mais do que nós.

Escolhamos sempre a filosofia como a nossa orientadora na vida. Cuidemos, contudo, que ela esteja sempre abaixo de Deus, para que a fé esteja sempre secundada pela razão e não o contrário.

Fonte de Consulta

FÁVERO, Altair Alberto et all. (Org.) Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijuí, 2002. (Coleção filosofia e ensino)

Julho/2006

A FILOSOFIA E O FILOSOFAR

 

A filosofia pode ser definida como uma concepção geral do mundo do qual se pode deduzir certa forma de conduta. Filosofar não é defender um idealismo ou um sistema de idéias, mas procurar, através do espanto e da reflexão, entrar em contato direto com os fatos, extraindo deles uma verdade que nos ajude a viver bem em sociedade. Talvez fosse melhor, ao invés de demonstrar que o nosso oponente se equivoca, tratar de descobrir em que sentido ele pode ter razão.

O filosofar nada mais é do que tentar interpretar a relação existente entre o "eu", o "outro" e o "mundo". Formar um castelo de idéias abstratas, sem aplicação prática na vida equivale ao pseudofilosofar. A verdadeira filosofia é uma expressão e expressividade do problema-solução. Quer dizer, o sujeito, ao entrar em contato direto com o objeto, deve responder rapidamente à circunstância, no sentido de tomar uma decisão, isenta de preconceitos, de dogmas e da influência perniciosa da autoridade.

A filosofa deve estar presa ao hic et nunc (aqui e agora). Qual a importância dos muitos planos para o futuro? O que conta é o tempo presente, aquele que estamos realizando a nossa experiência. Estamos sempre adiando a solução do problema para o dia seguinte; o amanhã fica para o depois de amanhã, de modo que a ação concreta acaba sendo protelada indefinidamente. O correto é enfrentar o problema tão logo ele surja. Deixá-lo para depois pode aumentar as dificuldades. Ver o problema na totalidade da vida é uma boa técnica.

Sócrates, o protótipo do filósofo, que não distinguia a atividade de filosofar do próprio ato de viver, ensina-nos a maneira correta de bem filosofar. Ele partia da idéia de que nada sabia; depois, procurava a pessoa que julgava conhecer aquilo que queria aprender. O seu método consistia em perguntas e respostas (maiêutica). Com isso, aprofundava o tema em questão, sem esgotá-lo por completo. O que ele pretendia era ampliar a compreensão a respeito do assunto, no sentido de se desviar das opiniões e dirigir o seu pensamento para o conceito ou a verdade das coisas.

O ato de filosofar, inerente ao ser humano, sugere-nos que tudo pode ser pensado e repensado. A cada retomada de um tema, a nossa percepção é diferente, pois ela abarca todo o progresso alcançado no período transcorrido. O mais importante é a disposição de ânimo, que deve estar isenta de idéias preconcebidas. Diz-se que para um bom aproveitamento de um debate filosófico, convém ir a ele como uma criança, ou seja, sem defesas e sem idéias cristalizadas.

A verdade não admite contestação. Mais tempo ou menos tempo, ela vem à luz, dissipando as trevas que a encobriam. Saibamos nos aproximar dela de forma humilde e serena.

Dezembro/2003

FILOSOFIA CRISTÃ

 

Até a vinda de Cristo, a Filosofia, em sentido histórico, seguia o seu curso normal, ou seja, cada novo filósofo acrescentava algo ao anterior. Foi desta maneira que do método socrático, passamos à dialética platônica e desta à lógica aristotélica. Em termos de idéias, Platão e Aristóteles assumem papel relevante, pois os conhecimentos por eles proferidos servem ainda de bálsamo para mitigar o niilismo dos dias atuais.

Cristo não veio à Terra para acrescentar algo à filosofia existente; sua missão consistia em desvendar os mistérios do reino dos céus consoante a revelação divina. A denominação de filosofia cristã, cujo problema central é a conciliação das exigências da razão humana com a revelação divina, nada mais é do que a filosofia que, influenciada pelo cristianismo, predominou no Ocidente, principalmente na Europa, no período que se estende do século I ao século XIV de nossa era. Compreende dois períodos distintos: a filosofia patrística (séc. I ao V) e a filosofia escolástica (séc. XI ao XIV).

A filosofia patrística, que vai do século I ao V, foi influenciada por Platão. O apogeu desta filosofia teve o contributo de Santo Agostinho (354-430), o maior filósofo da era patrística, e que marcou mais profundamente a especulação cristã. Santo Agostinho reinterpreta a teoria das idéias de Platão, modificando-a em sentido cristão para explicar a criação do mundo. Deixou formulado - indicando o caminho para a sua solução - o problema das relações entre a Razão e a Fé, que será problema fundamental da escolástica medieval. Ao mesmo tempo demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma.

A filosofia escolástica, que vai do século XI ao XIV, foi influenciada por Aristóteles. São Tomás de Aquino (1221-1274) representa o apogeu desta filosofia na medida em que conseguiu estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação.

As causas da decadência da escolástica são externas e internas. As causas externas são principalmente as condições sociais, políticas e religiosas da época que suscitaram o desenvolvimento do individualismo, do liberalismo e do racionalismo. As causas internas são, sobretudo, a inexistência de espíritos criadores, a paixão pelas sutilezas inúteis, o desprezo pela forma e a hostilidade de alguns filósofos contra as ciências experimentais que, nessa ocasião, começavam a florescer.

A filosofia cristã influenciou o pensamento da humanidade por muitos e muitos anos. Saibamos interpretá-la de modo racional, a fim de que não sejamos tragados pelos silogismos veiculados pelos seus pensadores.

Fonte de Consulta

REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação. 6. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

SANTOS, T. M. Manual de Filosofia - Introdução à Filosofia Geral - História da Filosofia - Dicionário de Filosofia. 10. ed., São Paulo, Editora Nacional, 1958.

Fevereiro/2001.

FILOSOFIA DO ESPÍRITO

 

Filosofia do Espírito é uma disciplina filosófica que trata dos fenômenos mentais, ou seja, dos fenômenos que envolvem exclusivamente seres capazes de consciência. A Filosofia do Espírito entrelaça-se com outras áreas da Filosofia. Por exemplo, quando a filosofia das artes trata de experiências estéticas, a da teoria do conhecimento de experiência sensorial, a da religião de experiências místicas, todas encontram-se com a Filosofia do Espírito. A Filosofia do Espírito, que é hoje freqüentemente chamada de psicologia filosófica, relaciona-se também com a Psicologia (ciência empírica). Quer dizer, enquanto a primeira trata da análise dos conceitos da consciência e de fenômenos mentais específicos, a segunda procura estudar empiricamente os fenômenos a que se referem tais conceitos de preferência à investigação conceptual de tais conceitos.

A Filosofia do Espírito foge da divisão tripartida, a qual classifica os fenômenos mentais em cognição, afeição e volição. Suas contribuições mais importantes têm dado ênfase à descoberta das diferenças entre os fenômenos que até aqui tem sido considerados como pertencentes à mesma espécie. Observe que o prazer e a dor são freqüentemente considerados como extremidades opostas de uma única dimensão de sensação que só se distinguem pela gradação. Já os filósofos contemporâneos, tendo à frente Gilbert Ryle, chamaram a atenção para o fato de que enquanto a palavra "dor" é o nome dado a uma sensação do corpo, o "prazer" já não é o nome de uma sensação. É que a dor é local, enquanto o prazer não o é.

O problema da autoconsciência do homem já vem de longa data. Desde Sócrates com o conhecimento de si mesmo, passando pelos psicólogos com a auto-análise, estamos sempre preocupados com a volta do ser para sobre si mesmo. Se quiséssemos resumir esses dois mil e quinhentos anos, veríamos que todos estudos da consciencização se enquadram nos relatos da 1ª pessoa, que resulta das coisas que se passam conosco e o relato na 3ª pessoa ou coisas que se passam com os outros.

A consciência, como vimos acima, implica estudá-la sob a ótica da 3ª e da 1ª pessoa. Analisando-a na 3ª pessoa, notamos que ela leva em conta o que o outro sente ou diz sentir; na 1ª pessoa, é o próprio ser que a exprime. Assim, quando eu sinto dor, é um estado íntimo, mas quando o outro diz que a sente é um comportamento. Quer dizer, a dor para nós é real, enquanto para o outro é apenas uma impressão daquilo que estamos lhe contando. Por isso, a dificuldade de olharmos os outros pelo nosso prisma pessoal. Será que a dor que ele sente é a mesma que eu estou supondo que ele está sentindo?

A Filosofia do Espírito trata também da ação. Poderíamos perguntar: o que leva uma pessoa a mover uma peça no jogo de xadrez? É substancialmente o conhecimento das regras desse jogo. Então, de acordo com as regras, a minha ação envolve três assertivas: boa, má ou indiferente. Será boa quando contribuir para eu vencer o adversário; má, quando eu permitir que ele me vença; indiferente, quando se move uma peça por mover. Do mesmo modo são os nossos atos com relação ao semelhante. Podemos fazer-lhe o bem, o mal ou sermos indiferentes.

A Filosofia do Espírito é uma filosofia do consciente. Não resta dúvida que para a exercitarmos fielmente, devemos ser cada vez mais conscientes de nós mesmos.

Março/1998

 

FILOSOFIA E RELIGIÃO

 

A Filosofia, por sua própria estrutura verbal — junção das palavras gregas philos e sophia —, que significam "amor à sabedoria", é um apelo ao uso do "logos", da razão. A Religião, pelo seu caráter místico, é um apelo à fé. Como conciliar razão e fé, razão e Deus, razão e crença é o trabalho árduo que muitos pensadores empreenderam ao longo do processo da evolução humana.

A filosofia, tal qual surgiu na Grécia, mostra uma nova maneira de construir o conhecimento, distanciando-o do processo mitológico vigente até então. Partindo da dúvida, da crítica, do paradoxo, quer chegar à verdade das coisas. Em termos religiosos, Sócrates fala-nos do seu "daimon", uma espécie de guia protetor, Platão desenvolve a Teoria da Formas, em que a essência das coisas estaria num outro mundo e Aristóteles instrui-nos sobre o Motor Imóvel, o Criador do universo.

Como a religião cristã faz o anelo com a filosofia grega? De três maneiras: 1) como a morte de Sócrates foi vista como um martírio, a Igreja cristã julgou-o quase como um cristão pré-cristianismo; 2) os cristãos primitivos, tomando o demiurgo ou "Logos" (o "Verbo") platônico, por meio do qual o mundo é criado e as formas ideais são infundidas ao cosmo em permanente mudança, associaram-no a Jesus, o Verbo (ou "Logos") de Deus"; 3) como Aristóteles acreditava num "Motor Imóvel" (ou "Primeiro Motor"), um ser remoto e imutável que transmite ao mundo a mudança, a Igreja cristã veio a adotar o Motor Imóvel de Aristóteles como Deus cristão.

Enquanto os cristãos apoiam-se na filosofia grega, as descobertas científicas levam muitos pensadores à negação de Deus e da religião. Assim, para Feuerbach (1804-1872), a religião baseia-se na dependência. Os seres humanos sentem-se impotentes num mundo estranho e por isso precisaram inventar Deus para confortá-los. Para Karl Marx (1818-1883), a religião é o "ópio do povo", algo que trazia uma ilusão de felicidade, mas nenhuma felicidade real, e que levava as pessoas a se concentrar na próxima vida e não nesta. Para Sigmund Freud (1856-1939), a religião é o complexo de Édipo da humanidade, uma ilusão, uma espécie de "neurose obsessiva mundial" cuja origem está nos "tabus", nas proibições.

Posteriormente a esses pensadores ateístas, surgem outros que dão primazia à existência de Deus. Entre eles, citamos Albert Einstein e Kant. Albert Einstein (1879-1955) confessou que era "um homem profundamente religioso". Para ele, o sentimento religioso era "um conhecimento da existência de alguma coisa que não podemos devassar, das manifestações da razão mais profunda e da mais radiante beleza, que só são acessíveis à nossa razão em sua forma mais elementar". Immanuel Kant (1724-1804), embora dando prioridade à filosofia, insistia que a religião tem de estar contida nos limites da razão. Ele escreveu: "É absolutamente necessário estar convencido da existência de Deus; não é igualmente necessário demonstrá-la".

À filosofia e à religião devemos acrescentar a ciência, pois esta é tríade pela qual o pensamento humano deve enveredar para descobrir as verdades que se escondem por detrás dos fatos.

Fonte de Consulta

RAEPER, W. e SMITH, L. Introdução ao Estudo das Idéias: Religião e Filosofia no passado e no presente. São Paulo, Loyola, 1997.

Maio/2001

FILOSOFIA E SEU ENSINO

 

Filosofia e seu ensino é o título de um livro que reúne os trabalhos de cinco renomados pensadores de filosofia no Brasil. São eles: Paulo Eduardo Arantes, Franklin Leopoldo e Silva, Celso Fernando Favaretto, Ricardo Nascimento Fabbrini e Salma Tannus Muchail. As palestras foram proferidas durante a "Semana de Filosofia", promovida pelo Departamento de Filosofia da PUC-SP, realizada entre 24 e 27 de setembro de 1991, cujo tema central foi o mesmo que enfeixa o livro.

Franklin Leopoldo e Silva, do Departamento de Filosofia da USP, falou sobre a "Função Social do Filósofo". Em sua análise, perpassa toda a história da filosofia, salientando as contribuições de Platão, Descartes, Pascal e outros. No Mito da Caverna de Platão, elabora sobre a volta para a caverna daquele que obteve a luz do conhecimento. Em Descartes, enaltece o racionalismo que propiciou todo desenvolvimento técnico-científico posterior. Em Pascal, discorre sobre a transcendência de Deus e a forma religiosa de impor um comportamento ao ser humano.

Paulo Eduardo Arantes, com o tema "Cruz Costa, Bento Prado Jr. e o Problema da Filosofia no Brasil – uma Digressão", trata da cultura importada. Parte da frase "No Brasil, a falta de assunto em filosofia é quase uma fatalidade" para nos mostrar que somos dependentes do exterior em matéria de pensamento filosófico. A sua palestra teve como objetivo principal fazer uma crítica à inflação de obras literárias em contraste com as minguadas em filosofia. Para ele, os filósofos brasileiros deveriam deixar de ser tímidos, pois esta postura impede a produção de obras de grande alcance para cultura filosófica brasileira.

Salma Tannus Muchail, do Departamento de Filosofia – PUC-SP, com o tema "Ler, Escrever, Pensar (Notas sobre o ensino da filosofia)" trata da organização dos cursos de graduação em Filosofia e as dificuldades de consenso entre posturas muitas vezes controversas. Tendo como ponto de referência a USP, a UNICAMP, a PUC-SP e a UFRJ, destaca os vários pontos concernentes a essa dificuldade inicial. Lembra-nos do princípio da flexibilidade e da diversidade, dos objetivos da formação de professores para o 2.º grau, do adestramento para as pesquisas e o do quadro curricular mínimo.

Celso F. Favaretto, da Faculdade da Educação –USP, com o tema "Notas sobre o Ensino de Filosofia" e Ricardo N. Fabbrini, do Departamento de Filosofia – PUC-SP, com o tema "Ensino de Filosofia no 2.º Grau: uma "Língua de Segurança"", destacam a dinâmica no ensino de filosofia, em que a desconstrução e reconstrução do saber assumem papel relevante, pois em Filosofia não há progresso, no sentido linear e ascendente do termo, mas um revisitar e problematizar constantemente os temas escolhidos

Exercitemos o pensamento filosófico, pois é dele que recebemos a força necessária para a edificação de uma atitude mais aberta e mais de acordo com a realidade que nos circunscreve.

Fonte de Consulta

ARANTES, P. (et all). Filosofia e seu Ensino. 2. ed., Petrópolis, RJ; São Paulo: EDUC, 1995. (Série eventos)

Agosto/2003

 

HOMEM COMUM E A FILOSOFIA

 

Por homem comum entendemos o indivíduo que não se ocupa profissionalmente da filosofia. É a dona de casa, o operário, o estudante e o trabalhador, que no afã de aprenderem, debruçam-se sobre alguns problemas e querem tê-los resolvidos, através do auxílio de um filósofo de renome.

Adentrando na filosofia, depara-se com as suas inúmeras interpretações, fornecidas por cada filósofo em particular. Em linhas gerais, se o filósofo for materialista, considerará a matéria como o fenômeno e o espírito como epifenômeno; se espiritualista, dará atenção especial ao espírito, e tratará a matéria como um epifenômeno. Além disso, como a filosofia é mais filosofar do que veicular conceitos, entrará em contato com tantos pontos de vista que ficará perplexo diante de tanta informação.

Passado por cima dessa primeira dificuldade, o homem comum atreve-se a fazer as suas primeiras perguntas. Mas as respostas que lhe dão não são mais do que outras questões, de modo que a convicção de que teria uma resposta correta sobre a sua dúvida, acaba caindo por terra. Sente-se confuso e desanimado ante tantas outras questões que nem sequer teria imaginado existir. Quer desistir, deixar como está para ver como é que fica. Afasta-se temporariamente.

Depois de algum tempo, volta novamente à carga, e encontra mais dúvidas e mais questionamentos. Pensa consigo mesmo: essa coisa não tem fim. Não seria melhor ficar do jeito que está, sem problemas para resolver, sem amargura na cabeça? De que vale o conhecimento, se não terei paz depois de havê-lo adquirido? Como esses pensamentos não têm fim, a sua perplexidade fica ainda maior. Quer voltar, mas a rota já está traçada. A necessidade de novos conceitos impulsiona-o para a frente.

Seguindo, porém, o impulso de seu sentimento, acaba achando um consolo prodigioso na filosofia. É que os filósofos nos dizem que quando chegamos a este estado de espanto, de perplexidade, estamos adentrando no verdadeiro ato de filosofar, que é a busca do conhecimento por nós mesmos, pelo nosso esforço, pela nossa atitude mental. Quer dizer, sabemos porque buscamos o conhecimento, porque pesquisamos, porque nos debruçamos sobre as questões, sobre os conceitos, enfim sobre o âmago do aprendizado.

Olhemos sempre o lado bom das pessoas e das coisas. Por trás de uma confusão, de uma crise, de um desilusão pode haver um manancial de conhecimento que antes não imaginávamos.

Setembro/2001

PHILOSOPHIA

 

A palavra filosofia, pelo fato de ser usada sob diversos ângulos, acabou perdendo o seu significado original. É preciso, pois, buscar o seu verdadeiro conceito, ou seja, a philosophia dos gregos que, enquanto palavra grega, é um caminho. Nesse sentido, a palavra grega philosophia é um caminho sobre o qual estamos a caminho. Quer dizer, há sempre uma procura renovada do arche, da ratio, do ti estin.

O espanto é o primeiro signo da philosophia grega. Esse espanto, denominado pathos, não está simplesmente no começo da filosofia. O espanto carrega a Filosofia e impera em seu interior. Traduzimos habitualmente a palavra pathos por paixão, turbilhão afetivo. Mas pathos remonta à paschein, sofrer, agüentar, suportar tolerar, deixar-se levar por, deixar-se con-vocar por. É uma dis-posição interior na qual o indivíduo se detém ante a grandeza do universo. Assim sendo, espanto é a dis-posição na qual e para qual o ser do ente se abre.

O espanto deve ter necessariamente uma cor-respondência, ou seja, res-ponder ao que foi perguntado. "Corresponder" significa ser dis-posto. Enquanto dis-posta e con-vocada a correspondência é essencialmente uma dis-posição. Por isso, o nosso comportamento é cada vez dis-posto desta ou daquela maneira. A dis-posição não é um concerto de sentimentos que emergem casualmente, que apenas acompanham a correspondência. A correspondência deve ser essencialmente dinâmica, sempre em vias de ser construída, de ser processada.

A "destruição" deve fazer parte do esforço para apreender o real significado da palavra philosofia. A "destruição" não representa uma ruptura com a história, nem uma negação da história, mas uma apropriação e transformação do que foi transmitido. Assim sendo, destruição não significa ruína, mas desmontar, demolir, por-de-lado. Quer dizer, destruição é abrir os nossos ouvidos, torná-los livres e dóceis à inspiração do ser do ente. Somente assim conseguiremos nos situar na perfeita correspondência com o que a palavra philosophia expressa.

O espanto é, enquanto pathos, a arche da Filosofia. Arche designa aquilo de onde algo surge. Buscar a arche da Philosophia é situar-se dentro do espírito pelo qual os gregos consideravam a Filosofia. Os gregos não o faziam através das emoções, dos sentimentos, mas usavam o logos, a ratio. Em outras palavras, queriam ter certeza de que conheciam o que conheciam. É por esta razão que Sócrates usava a sua famosa maiêutica, ou seja, colocar em dúvida o conhecimento vigente, para aprofundá-lo e descobrir novas verdades.

Lembremo-nos de que é somente através de estudos constantes e reflexões profundas que conseguiremos penetrar no âmago do conhecimento verdadeiro.

Fonte de Consulta

HEIDEGGER, M. Que É Isto – A Filosofia? Identidade e Diferença. São Paulo, Duas Cidades, 1971.

Março/1999.

PROBLEMA E FILOSOFIA

 

O que é um problema? Em filosofia, o problema não é um cálculo matemático; ele deve resumir uma pergunta, com fundamento gramatical. Assim, antes de estudarmos Kant, Hegel e Leibniz, deveríamos descobrir o que eles estavam procurando, ou seja, que tipo de resposta eles queriam dar às suas perguntas. Nesse sentido, o conteúdo filosófico é muito mais importante do que a descrição histórica, do que contar história. Para uma melhor compreensão do que seja a filosofia, convém tratarmos da racionalidade, da intersubjetividade, do algoritmo e da refletividade.

A filosofia deve ser racional. Deve-se dar esclarecimento, mas esclarecimento que vá ao fundo da questão. O verdadeiro filósofo não se prende a questiúnculas; ele quer dar uma explicação cabal, aquela que vai às origens do problema, da pergunta. Para melhor explicar, ele deve juntar, amontoar e classificar. E o que é isso? É simplificar, é tornar o conhecimento compreensível, sem necessidade de muitas figuras de linguagem. Um texto nebuloso, e excessivamente rebuscado, mostra muito mais a limitação do pensador do que a sua intelectualidade.

A filosofia, ao contrário do que a maioria pensa, não é obra subjetiva, ou seja, exclusiva de um pensador. Ela se expressa através da intersubjetividade, que é o inter-relacionamento de idéias e pensamentos. Vista por este ângulo, a filosofia pertence ao coletivo; ela é a soma de todos os pensamentos e raciocínios. Não há assim tanta arbitrariedade como normalmente se pensa. Em realidade, cada pensador, cada filósofo nada mais faz do que tornar seu o que é coletivo, e expressar tudo isso com suas próprias palavras.

A filosofia não é algoritmo, ou seja, não se apresenta como uma padronização que a tudo se ajusta. Algoritmo, segundo o Aurélio é o processo de cálculo, ou de resolução de um grupo de problemas semelhantes, em que se estipulam, com generalidade e sem restrições, regras formais para a obtenção do resultado, ou da solução do problema. Na filosofia, embora o coletivo permaneça, cada qual deve construir o seu próprio conhecimento. Dessa forma, haverá sempre muita espontaneidade e muita criatividade nos pensamentos de cada filósofo.

A filosofia é reflexiva. Deve abranger algo voltado para dentro do próprio sujeito pensante. Por isso, quando o filósofo se expressa ele deve expressar-se a si mesmo e não o pensamento dos outros. Além do mais, a reflexão deve ser fruto de um perfeito amadurecimento do espírito que, calma e tranqüilamente, vai absorvendo as verdades que lhe forem sendo apresentadas. Depreende-se, daí, que a ansiedade é prejudicial, pois dificulta os vôos do Espírito rumo ao conhecimento superior.

Coloquemos devidamente os problemas filosóficos. Procedendo desta forma, eliminaremos muitas questões supérfluas. Uma busca sem objetivo não só é inútil como também nos faz perder tempo precioso, que poderia ser mais bem alocado em nossa melhoria interior.

Agosto/2004

PROBLEMAS FILOSÓFICOS E RELIGIÃO

 

Tales de Mileto, Anaximandro, Pitágoras e Heráclito – os primeiros pensadores gregos – foram contemporâneos de Lao-tzu, Confúcio, Buda e Zaratustra (o fundador da religião persa), filósofos orientais. Os filósofos gregos queriam tornar racional o conhecimento, fugindo, assim, do mito e das opiniões. Propunham alguns problemas e buscavam respostas baseadas na razão.

Os problemas levantados: a existência de Deus, a ligação de Deus com esse mundo sensível, o problema do mal, a relação entre moral e religião e as relações entre a alma e o corpo. As perguntas decorrentes: se Deus existe, como é Deus? Como demonstrar a sua existência? Deus é imanente ou transcendente? Se Deus é onipotente, por que existe o mal? Será possível uma moral sem religião? Existem princípios morais a todas as religiões? Existe alma? Ela é imortal? Que função desempenha? Como coexiste com o corpo? Depois da morte, ela voltará a se reunir com ele? Todas essas perguntas foram respondidas, de forma diferente, ao longo dos seus 2.600 anos.

Antiguidade: os pré-socráticos não tinham plena convicção de Deus. O agnóstico Protágoras dissera: "Sobre os deuses, não posso saber se existem ou não, pois há dois obstáculos: a obscuridade do problema e a brevidade da vida humana". Platão fala de um artesão divino, o demiurgo, intermediário entre os dois mundos. Aristóteles descreve Deus como o primeiro motor do Universo. Epicuro defendia a ética de origem exclusivamente humana. Os estóicos pregavam que o próprio mundo é o Deus racional, submetido à lógica do seu pensamento.

Idade Média: a filosofia e a teologia caminham juntas, com a primeira reduzida a um instrumento de fé. O problema central era: conciliar as exigências da razão com as perspectivas da fé na revelação. Para Santo Agostinho, por exemplo, "Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as idéias divinas. Essas idéias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, conforme o testemunho da Bíblia".

A revolução científica dos séculos XVI e XVII deu uma nova imagem ao divino: "Deus é o criador de uma máquina perfeita que Ele se limita a vigiar depois de tê-la posta em marcha". Em conseqüência, o século XVIII foi inundado de posições materialistas e atéias, as quais acabaram negando abertamente a existência de Deus: Hume, por exemplo, fez sérias objeções à possibilidade de se demonstrar a existência de Deus; Marx, por seu turno, via a religião como o ópio do povo: ela somente existiria enquanto existisse "um mundo necessitado de ilusões". Nietzsche, no entanto, foi o filósofo mais contundente: anunciou a morte de Deus na cultura ocidental.

Depois de a revolução científica criar condições para a morte de Deus, as idéias religiosas entram em contato com as teorias psicanalíticas de Freud, que definiu a religião como uma neurose obsessiva da coletividade humana. Freud diz: "seria muito agradável que Deus existisse, e que houvesse criado o mundo, e que sua providência fosse benevolente. Seria excelente que existisse uma ordem moral no universo, e que existisse uma vida futura; mas é muito surpreendente que tudo isso coincida com o que todos nos somos obrigados a desejar que exista".

Por mais que os estudiosos queiram demonstrar a insignificância da religião, ela resiste ao tempo e ao espaço, porque representa o sentimento natural de adoração a um ser superior.

Fonte de Consulta

Temática Barsa – Filosofia

29/11/2006

 

RETÓRICA FILOSÓFICA

 

Filosofia – Do grego philo e sophia significa o amor à sabedoria. A filosofia não é qualquer saber, mas aquele que nos conduz ao descobrimento da verdade. O filosofar, por sua vez, não é defender um idealismo ou um sistema de idéias, mas procurar, através do espanto e da reflexão, entrar em contato direto com os fatos, extraindo deles uma verdade que nos ajude a viver bem em sociedade. Como a busca da verdade não é tarefa fácil, muitos preferem tê-la ao seu lado a estar ao lado dela.

Retórica Do grego rhetor (orador numa assembléia) – é a arte de bem falar, mediante o uso de todos os recursos da linguagem para atrair e manter a atenção e o interesse do auditório para informá-lo, instruí-lo e principalmente persuadi-lo das teses ou dos pontos de vista que o orador pretende transmitir. Pode ser também a organização de um discurso enquanto visa um efeito. Este efeito pode ser direto e indireto, como veremos a seguir.

A retórica direta caracteriza-se pela produção no receptor do discurso a compreensão do sentido e a apreensão da validade dos argumentos veiculados. O objetivo é comunicar os conhecimentos claros e distintos, como bem apregoava Descartes em seu Discurso do Método. Em vista disso, os filósofos organizam em sistemas as suas convicções, as quais acabam se tornando uma espécie de dogma, resistindo ao tempo e lugar. Há, na história muitos exemplos, como as teses materialistas de Marx, em que elas asseguram que é o econômico o fim único dos homens.

A retórica indireta consiste em produzir inicialmente um certo efeito de primeiro grau, uma certa disposição do receptor, em vista de facilitar ou induzir a produção de um outro efeito que busca aquele que se exprime através desse desvio. Esta parece ser a verdadeira retórica filosófica, porque pelo diálogo e pela interrogação ocasional abre-se a mente do interlocutor. Não é necessário que se conclua o diálogo ou mesmo que as perguntas sejam respondidas, pois o que interessa é a caça e não a presa.

A busca da caça e não da presa é bastante relevante. Ao contrário da ciência que trabalha com dados objetivos, a filosofia trabalha com o imponderável. A filosofia inclui, em seu rol de problemas, a existência de Deus, o comer ou não comer carne, a localização da mente etc. Assim, ao propor a caça e não a presa está sinalizando que cada qual deve buscar o conhecimento por si mesmo. Podemos ler, assistir a palestras, confabular com este ou aquele filósofo famoso, mas o conteúdo doutrinal deve ser um trabalho pessoal e intransferível.

Renovemos sempre os nossos discursos. Há muitos pontos que devem sofrer uma ruptura e uma transformação radical para que o homem novo e criativo possa se desenvolver dentro de nós mesmos.

Fonte de Consulta

GRANGER, Gilles-Gaston.  Por um Conhecimento Filosófico. Trad. Constança M. César e Lucy Moreira César. Campinas - SP: Papirus, 1989.

Maio/2006

 

VERDADEIRO FILÓSOFO

 

O "verdadeiro filósofo", nos primeiros séculos de nossa era, designava aquele que se opunha ao sofista, ou seja, àquele que falava bem, mas não agia de acordo com o que dizia. Seu principal empenho não era especular ou buscar erudição, mas diminuir a distância entre aquilo que dizia e o modo como agia. Procurava também uma perfeita sintonia entre o ser o pensamento. Em outras palavras, pensava como era, falava como pensava e agia como falava.

O "verdadeiro filósofo" dava pouca importância à erudição e à especulação. Eles não estavam preocupados em criar teorias, doutrinas e sistemas filosóficos. Agiam mais como terapeutas, porque as suas prédicas tinham por objetivo a saúde de alma. A erudição e a especulação por si mesmas não visam a uma transformação do homem. Na maioria das vezes, incham-no. O verdadeiro filósofo, por sua vez, não procura transformar os outros nem mundo todo, mas transformar-se a si mesmo, um trabalho muito mais complicado, porque exige a renúncia dos prazeres mundanos.

Os Padres da Igreja são catalogados como verdadeiros filósofos. Mas o que se entende por Padres? O termo Padres, no começo de nossa era, não tinha a mesma conotação que se empresta aos padres de hoje. Eles devem ser entendidos como "Pais" da Igreja. E o pai é uma pessoa que vela pelos seus filhos. Assim, qualquer um que ensina ao outro o caminho para deus, torna-se pai e, o outro, filho. Nesse sentido, todos somos filhos desses padres. E por extensão, todos somos filhos de Jesus, porque Ele é o guia espiritual do Planeta Terra.

Há diversos Padres da Igreja. Façamos um resumo de suas contribuições. Orígenes (185-254) trata o martírio como a "verdadeira filosofia"; Clemente de Alexandria (150-215) escolhe a gnose como a "verdadeira filosofia"; Evágrio Pôntico (345-399) elege praxis e gnosis como elementos da "verdadeira filosofia"; João Crisóstomo (344-407) recomenda a contemplação e a liturgia como "verdadeira filosofia"; João Cassiano (365-435) aborda a vida monástica como refúgio dos "verdadeiros filósofos"; Gregório de Nissa (331-395) indica a "busca" sem fim do "verdadeiro filósofo".

Anotemos alguns ensinamentos desses Padres da Igreja. "O pregador deve ser não só um sábio, mas também um homem de oração" (Orígenes). "A gnose foi transmitida a um pequeno número de pessoas desde os apóstolos, através da sucessão dos mestres e sem escrituras (Clemente de Alexandria). "Bem-aventurado o intelecto que, durante a oração, torna-se imaterial e completamente despojado" (Evágrio Pôntico). "Meu sacerdócio consiste em pregar e anunciar o Evangelho" (João Crisóstomo). "A amizade é um bem tão precioso que deve ser preferido a qualquer coisa de material" (João Cassiano).

Equilibremos a admiração passiva (contemplação) e a admiração ativa (pesquisa, procura, leitura), a fim de que possamos captar totalmente a mensagem dos "verdadeiros filósofos".

Fonte de Consulta

LELOUP, Jean-Yves. Introdução aos "Verdadeiros Filósofos": os Padres Gregos: Um Continente Esquecido do Pensamento Ocidental. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Janeiro/2006

 

 

CONHECIMENTO

 

 

APRENDIZAGEM E CONHECIMENTO

 

Quando nos deparamos conosco mesmos, podemos dizer que somos fruto do nosso passado: desta vida ou de outras existências. Numa visão mais ampla, somos o resultado de todas as experiências realizadas após o aparecimento da espécie humana, há 250.000 anos. Indo mais além, podemos afirmar que herdamos todas influências advindas do aparecimento do Planeta Terra, há 5 bilhões de anos ou do big-bang, há 15 bilhões de anos.

Ao longo do tempo nós, por diferirmos dos animais em inteligência e cultura, acumulamos uma grande quantidade de conhecimentos: científico, tecnológico, religioso, psicológico etc. Como conseqüência, a nossa mente encontra-se mergulhada num cipoal de informações, experiências e realizações, dados esses que podem ser encontrados em livros e bibliotecas espalhados por todo o mundo. Pergunta-se: até que ponto esse estoque de conhecimento dificulta a liberdade do Espírito? Como entender a frase: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"?

De acordo com Krishnamurti, pensador hindu, o conhecimento é um empecilho, pois, pertencendo ao passado, dificulta o aprendizado, que é característica do presente. O aprendizado exige uma ruptura com o conhecimento, pois quando o prolongamos para o futuro não há criatividade, não há inovação e, portanto, não chegamos a conhecer a verdade. Para conhecê-la, acha ele, que devemos ser humildes e disciplinados no sentido de que nada sabemos e estamos interessados em aprender.

Segundo o seu ponto de vista, uma mente voltada para o conhecimento cria o preconceito, ou seja, quando vai analisar alguma coisa, vai com o estoque que tem em seu cérebro, o qual é baseado em experiências passadas. O correto, contudo, é enfrentar o problema sem idéias preconcebidas. É tomar consciência do que está à nossa frente e tentar resolver o problema como se estivéssemos numa floresta, sem ninguém mais: guru, autoridade, mestre, livros etc. Acha ele que devemos pensar por nós mesmos, o que não é tarefa fácil, pois seguir o que os outros descobriram é mais cômodo.

Mas como saber se aquilo que descobrimos é verdadeiro ou não? E o que os outros já descobriram não tem utilidade? Não seria o mesmo que descobrir a América, que já está descoberta? Não podemos nos valer das descobertas dos outros? Realmente devemos nos valer disso, mas o que ele sugere é que primeiramente façamos um esforço próprio, uma tentativa de descobrir por nós mesmos. Se não seremos sempre expectadores de frutos de vitrine. Falaremos sempre através da lente dos outros.

Exercitemos a difícil arte de aprender. Somente nos disciplinando é que não moldaremos a nossa mente, mas a forjaremos nos fundamentos da humildade e do auto conhecimento que, em ultima instância, é a própria verdade.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. Sobre a Aprendizagem e o Conhecimento. Rio de Janeiro, Cultrix, 1999.

Maio/2002.

CÉREBRO, MENTE E COMPUTADOR

 

A relação mente-corpo é estudada desde a Antigüidade. Coube, porém, a Descartes a primazia de levantar o problema com mais ênfase. Em seu dualismo, afirma que a mente (res cogitans) e o corpo (res extensa) são formados de substâncias distintas, mas que ainda não tinha descoberto como uma é ligada a outra. Aventou a hipótese de a glândula pineal ser o intermediário. Contudo, mais tarde, dissera que o importante é saber que são distintos e isso já basta.

O materialismo, oferecendo-nos uma série de dificuldades conceituais, contrapõe-se e abandona o dualismo cartesiano. Alguns pensadores materialistas, inspirando-se na Lei de Leibniz, advogam a identidade entre cérebro e mente, ou seja, cérebro e mente não são distintos como afirmara Descartes, eles fazem parte da mesma substância. Como dão valor à matéria e não ao espírito, dificultam o entendimento da mente e da sua relação com o corpo, inclusive, chegando alguns a afirmar que a mente não existe porque a Psicologia não a definiu.

O surgimento do computador, e sua evolução através do tempo, trouxe como conseqüência mudanças radicais em todos os níveis de conhecimento: Física, Química, Biologia etc. A Filosofia da Mente, uma área aparentemente díspar da teoria computacional, também sofreu influência, principalmente através dos modelos computacionais em que se procura relacionar o software (programas de computação) com o hardware (a máquina), comparando-os com o relacionamento entre mente e cérebro.

A teoria computacional retoma as posições radicais entre o materialismo e o dualismo, procurando achar o meio termo entre ambas. H. Putnan, em "Minds and Machines", artigo escrito em 1975, procura estabelecer uma correlação entre estados mentais (pensamentos) e o software de um lado e entre os estados cerebrais e o hardware ou os diferentes estados físicos pelos quais passa a máquina ao obedecer as instruções. Esta teoria não esteve isenta de críticas. A principal delas é que a máquina é geral e não permite a individuação própria de cada mente humana.

Numa versão mais moderna, temos o funcionamento neuro-computacional ou conexionismo iniciado com os trabalhos de Von Neumann. Pretende-se, com esse sistema computacional, resolver a questão da individuação deixada no modelo de Putnan. De acordo com esta teoria, estabelece-se uma relação específica entre o software e o hardware. Não há independência entre o software e o hardware e as características do design deste tipo de máquina permitem que, no limite, possamos conceber que cada estado mental (ou de software) corresponda a um estado cerebral (ou de hardware).

A teoria computacional deu novo dinamismo à pesquisa da mente, contudo o problema da ligação mente-cérebro ainda está por resolver: Falta-lhes a noção de PERISPÍRITO, elo de ligação entre a matéria e o Espírito.

Fonte de Consulta

TEIXEIRA, J. de F. Filosofia da Mente e Inteligência Artificial. Campinas, UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1996. (Coleção CLE, v. 17).

Junho/2000.

A COMPLEXIDADE DO MUNDO

 

Complexidade é a qualidade do que é complexo, ou seja, aquilo que encerra muitos elementos ou partes, que pode ser observável sob vários aspectos. A ciência tenta definir satisfatoriamente a complexidade: vale-se da mudança e da relação entre os todos e suas partes. Além do mais, sempre que a ciência pensa no complexo ela o vê pela sua simplificação.

Desde a criação da ciência muita coisa mudou, exceto uma: o amor pelo simples. Descartes, por exemplo, ao elaborar o seu método, fá-lo partindo do simples para o complexo. Por outro lado, Whitehead diz-nos: "A ciência deve buscar as explicações mais simples dos fenômenos mais complexos". Já Ockham escreve: "Se duas fórmulas de comprimento diverso explicam o mesmo fenômeno com igual mérito, a mais curta é verdadeira, falsa a outra".

O que faz uma pessoa buscar o desconhecido? É a complexidade que se expressa como uma inquietude. Quando somos capazes de não apressá-la, temos condições de obter conhecimento. Mas como na maioria das vezes temos muitos assuntos para serem resolvidos, acabamos não nos concentrando no motivo central de nossa inquietação. Daí, esse marasmo no campo das percepções superiores. É que as solicitações superficiais do dia-a-dia não nos permitiram um vôo mais fecundo do nosso espírito.

O conhecimento é construído através dos estímulos, que podem ser brandos ou duros. Os estímulos brandos são aqueles que provém das sugestões externas, dos livros que se nos apresentam, das conversas que participamos, das conferências que ouvimos etc. Os estímulos duros são aqueles que saem do nosso interior. É a escolha deliberada em seguir um dado caminho na vida. Estes podem, no princípio, vir de uma sugestão externa, mas a construção é fruto de um árduo trabalho interior.

O conhecimento deve provir muito mais das perguntas do que das respostas. A resposta é uma adaptação enquanto a pergunta é uma rebelião. Em ciência nem todas as perguntas têm sentido. Para o filósofo, em princípio, qualquer pergunta é lícita, pois sofre quando uma inquietude de sua alma nem sequer é formulável. Se quisermos saber, convém adquirirmos o hábito de perguntar. Só assim edificaremos o conteúdo de conhecimento que diz respeito à nossa própria essência.

Em fim, somente uma alma viril consegue atender ao clamor de sua própria consciência. Esta é a grande mensagem que os homens famosos nos ensinaram ao longo de suas vidas.

Fonte de Consulta

WAGENSBERG, J. Ideas Sobre la Complejidad del Mundo. 2 ed., España, Tusquets Editores, 1989.

Junho/1998

CONHECIMENTO E COMPREENSÃO

 

Na antiguidade clássica grega, a arte e a dramartugia tinham por objetivo a sublimação, a modificação, a transmutação dos sentimentos humanos. Através das encenações, o indivíduo, utilizando-se de uma máscara (persona), procurava estimular as ações que culminavam na melhoria interior. A expressão corporal combatia as más tendências e enaltecia aquelas outras voltadas para o bem, o belo e o poético.

Atualmente, a arte e a dramaturgia televisiva têm por objetivo a produção de emoções fracas, superficiais. Não se intenta para o profundo do ser humano, senão como fator inibidor do pensamento criativo. A pessoa coloca-se defronte da telinha e tem tudo pronto à sua vista; basta apenas consumir passivamente. A catarse, a terapia profunda e lenta produzida pela obra de arte, é substituída pelo divertimento banal e inconseqüente, contrário do que víamos na antiguidade. Por isso, fala-se de produção de lixo intelectual, e aquele que fica o dia todo diante de uma televisão acaba contraindo a preguiça de pensar.

Diante desse quadro, convém distinguir o conhecimento da compreensão. O conhecimento é aquilo que está na memória, nas palavras, nos conceitos. A compreensão vai além, pois ela não precisa de palavras para se expressar. Nesse sentido, pode-se encontrar um senso maior de compreensão no homem simples do que naquele que freqüentou uma Universidade. Esta simplesmente aumentou-lhe os conhecimentos técnicos, relativos a uma profissão. Isto não quer dizer que o tornou melhor, mais compreensivo, mais paciente e mais amante da humanidade.

Para Huxley "o conhecimento é adquirido quando se obtém uma nova experiência. A compreensão ocorre quando nos libertamos do velho e tornamos possível o contato direto e imediato com o novo, com o mistério, momento a momento, em nossa existência". É paradoxal que o homem primitivo, a certa altura de sua evolução, opta por desenvolver exclusivamente o pensamento conceitual, deixando atrofiar o percebimento imediato da realidade. Dando nome às coisas, colecionando conceitos sobre elas, o homem deixou de vê-las como realmente são. Daí o sofrimento, a tortura do dualismo, os conflitos.

Para ouvir bem, faz-se necessário educar a atenção. Não é forçando-a que conseguiremos nos concentrar numa determinada matéria. Nós só podemos fazê-lo através do interesse. O interesse, pelo seu lado, pode gerar o medo ou o amor. O medo faz-nos buscar uma técnica para evitá-lo. O amor é a pedra de toque, a chama de nossa liberdade. É por ele que a humanidade fará a sua ascensão espiritual, pois Jesus nos deixou a rota do amor, quando disse: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei".

Assim, para uma compreensão global e total das coisas, basta amarmos verdadeiramente e não por palavras. Os nossos atos contam mais, pois eles denotam a nossa compreensão diante de uma dada situação.

Fonte de Consulta

LISBOA, Luís Carlos. Olho de Ver Ouvidos de Ouvir. Rio de Janeiro: Difel, 1977.

Agosto/2003

CONHECIMENTO E INTERPRETAÇÃO

 

O fato é algo que se nos apresenta. Está à nossa frente e não o podemos negar. Se o dia amanhece chuvoso, não podemos dizer que ele está ensolarado, porque haveria uma contradição entre a observação e as palavras usadas para descrevê-lo. Há, contudo, fatos e fatos, e nem sempre eles aparecem tão claros quanto ao exemplo citado. Por isso, dizemos que o fato é objetivo e sua interpretação subjetiva.

Há, assim, uma realidade e a sua interpretação. A interpretação, porém, é utilizada muito mais para torcer os fatos do que para descrevê-los corretamente. Observe as religiões materialistas. O que é que os seus propagadores fazem? Eles tisnam a pureza doutrinária do Cristo tendo em vista o enriquecimento pessoal. Fazem-no, muitas vezes, ludibriando as mentes mais ingênuas e ansiosas por consolações celestes. Estes, premidos pela dor e sofrimento, apegam-se a qualquer solicitação, desde que haja promessa de cura e de salvação da alma.

Como intuir a verdade, se a nossa interpretação torce os fatos? Para que tenhamos uma percepção mais acurada da verdade, não deveríamos tentar descobri-la, mas, à semelhança de Descartes, descobrirmo-nos para ela. E o que isto significa? Significa que deveríamos manter as nossas mentes limpas de preconceitos, de interesses pessoais, de egoísmo. Se o nosso vaso estiver limpo, tudo o que nele é depositado, é depositado de maneira pura. Não basta nos sentarmos para ouvir; precisamos estar despertos para a audição.

Descobrindo-nos para a verdade, vamos nos tornando mais simples de coração e mais propensos à captação dos conhecimentos superiores, que os Espíritos mais elevados querem nos transmitir. E como somos intermediários – e não criadores – dessas instruções, a lógica do raciocínio pede-nos cautela contra a vaidade e o orgulho, dois grandes vícios que podem nos cegar a visão crítica de nós mesmos. O "sei que nada sei" de Sócrates é mais produtivo.

A busca do conhecimento superior reveste-se de uma atitude de simplicidade. Está assentada na palavra do Cristo que prometia revelar os conhecimentos espirituais da Boa Nova aos pobres de espírito e não aos orgulhosos, os doutores da lei. É que as verdades mais profundas devem ser cavadas com o sentimento e não simplesmente com a lógica do raciocínio. Sintamos primeiramente Deus dentro de nós; depois, tornemo-Lo racional em nossos pensamentos.

Assim, quanto mais estivermos atentos sobre nós mesmos, mais aptos estaremos para receber as orientações evangélicas do Mestre Jesus.

Abril/2003

 

ERRO FILOSÓFICO

 

O erro filosófico pode ser atribuído ao afastamento dos métodos seguros, à elaboração de postulados infundados e à colocação de dúvidas mal esboçadas. Não são poucos os filósofos que, querendo alcançar fama, acabam confundindo as idéias dos que lhes ouvem. É importante saber distinguir o falso do verdadeiro, o superficial do profundo. A Filosofia não é invenção de um homem. Ela representa o arcabouço histórico de todos os que, de uma forma ou de outra, contribuíram para positivar os conhecimentos acerca do homem, da natureza e de Deus.

O conceito de conceito dado por Descartes é um dos primeiros erros. Para Descartes o conceito equivale à idéia, o que gerou uma série de confusões na cabeça de muita gente. Partindo da cognição e da intencionalidade, temos melhores condições de absorver a verdade do conceito. A cognição é um ato imanente (consciente) do sujeito com relação ao objeto. A mente tende para o objeto, ou seja, é intencional. A intencionalidade é algo de que as coisas são feitas. Fugir ou obnubilar a intencionalidade é confundir, é estar em erro.

O erro devido à intencionalidade é reduzir tudo à matéria. Quando uma pessoa conhece, ela capta o objeto, o qual pode ser de ordem material ou formal. Sendo material, temos a intuição sensível; sendo formal, temos a representação mental. Há muitas coisas que não conseguimos ter um prova material, mas nem por isso a prova intelectual (representação mental) deixa de ser verdadeira. Por exemplo, o tempo não comporta uma prova material (ser apalpado), mas sim uma prova formal. Quer dizer, não podemos pegar o tempo na mão, mas intuí-lo através do pensamento.

A abstração, que consiste em tomar separadamente, pela mente, o que na coisa está junto com as outras é também fonte de erro. A abstração é um modo de conhecimento imperfeito, mas nem por isso falso. Um conhecimento pode ser menos perfeito ou mais perfeito, mas não quer dizer que seja falso. Se atribuirmos falsidade a toda e qualquer abstração, então o nosso pensamento estará elaborando em erro. É preciso ficar atento às relações entre a parte e o todo.

Captar idéias claras não é tão fácil quando à primeira vista parece. Preferirmos nos deitar no berço vaidade, saindo por aí pregando idéias novas, desconhecendo que essas idéias novas já foram refutadas pelos filósofos de modo peremptório. Observe a idéia de Deus. A intencionalidade de Deus é ser soberanamente bom, justo, todo poder, toda perfeição. Querer uma prova material (figura de Deus) é desfigurar a intencionalidade que o conceito já positivou.

Tenhamos a mente livre dos preconceitos. Só assim poderemos captar inteiramente o objeto que se nos apresenta.

Fonte de Consulta

SANTOS, M. F. dos. Origem dos Grandes Erros Filosóficos - Erros Crítico-Ontológicos. São Paulo, Matese, 1965.

Julho/1999.

FRAGMENTAÇÃO E VISÃO HOLÍSTICA

 

Na antiguidade clássica não havia separação entre sujeito, objeto e conhecimento. A filosofia abarcava a totalidade do saber. Essa postura perdurou até a Idade Média, quando então veio o iluminismo e a descoberta do método teórico-experimental. O conhecimento começou a se particularizar e surgiram as diversas ciências, ou seja, a Física, a Química, a Biologia etc. hoje notamos que mesmo dentro de uma ciência há uma série de subdivisões para tratar mais pormenorizadamente cada aspecto da realidade. Com isso criou-se o especialista, aquele que sabe quase tudo de quase nada.

Galileu Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), Isaac Newton (1642-1727) e René Descartes (1596-1650) são apontados como os mentores do pensamento moderno. Eles propuseram o método teórico-experimental, ou seja, o poder explicativo das ciências deveria ser feito com ênfase no racionalismo empírico e no controle da Natureza, expressando a nova cosmovisão do homem frente ao mundo. Daí o paradigma cartesiano-newtoniano, porque os modelos de explicação do mundo doravante se baseariam no uso da razão e do mecanismo da causa e efeito.

Max Planck (1858-1947), Albert Einstein (1879-1955) e Werner Heisenberg (), com suas pesquisas sobre os fenômenos elétricos e magnéticos abalaram drasticamente o paradigma mecanicista cartesiano-newtoniano. Primeiramente, a descoberta dos quanta, em que a energia emitida por qualquer corpo só poderia se realizar de forma descontínua, através de múltiplos inteiros de uma quantidade mínima – o quantum de energia. Ao mesmo tempo, Werner Heisenberg introduz na Física o princípio da incerteza, uma lei científica que postula a impossibilidade de se saber, ao mesmo tempo e com absoluta precisão, a posição e a velocidade das partículas.

Em face do exposto, a Física moderna conceitua o mundo como um todo unificado e inseparável. Daí o paradigma holístico (de holo, todo), em que tudo se relaciona no Universo. Refletindo sobre especialização do conhecimento, Bérgson já se perguntava: "O que teria acontecido se a ciência moderna, em vez de partir das matemáticas para orientar-se em direção à mecânica, à astronomia, à física e à química, em vez de convergir todos os seus esforços no estudo da matéria, tivesse iniciado pelas considerações do espírito; se Kepler, Galileu e Newton, por exemplo, tivessem sido psicólogos".

Presentemente, preconiza-se a transdisciplinaridade. O que é? "É o reconhecimento da interdependência de todos os aspectos da realidade". Pode-se dizer que é a síntese dialética provocada pela interdisciplinaridade, quando esta for bem sucedida. De acordo com este novo paradigma, o homem deve estar inteiro naquilo que estiver fazendo. Não importa o tipo da atividade desenvolvida (manual ou intelectual). Em qualquer uma das duas, o homem deve se colocar por inteiro, pois está irradiando o seu "eu", a sua marca registrada, a sua personalidade e o seu caráter.

A vivência da realidade é função do estado de consciência. Saibamos, pois, edificar a nossa consciência na prática do bem e da verdade. Agindo assim, ampliaremos a nossa visão de mundo e poderemos ajudar mais efetivamente os nossos irmãos de jornada.

Outubro/2004

IMAGEM E REALIDADE

 

O ser humano, na sua maioria, forma uma imagem dos fatos e permanece fixo nessa dimensão da realidade. Quando algo vem de encontro à sua maneira de pensar, logo acha motivos para rechaçar tal idéia, uma vez que já tem um conceito formado sobre o assunto. Ao mesmo tempo, como que de prontidão, cognomina de inverdade o conhecimento estranho que se lhe apresentou.

Diz-se que a realidade é o que é. Ela não é nem falsa nem verdadeira. Falsos ou verdadeiros são os nossos juízos a respeito da mesma. Significa dizer que a imagem que fazemos da realidade pode ser verdadeira ou falsa. Porém, como distinguir a imagem falsa da verdadeira? Neste sentido, os filósofos desenvolveram duas teorias - a da correspondência e a da coerência - tentando, com isso, elucidar o problema da verdade e do verdadeiro.

Na teoria da correspondência, "verdadeiro" significa "o que é coerente com os fatos"; na teoria da coerência, "verdadeiro" significa "o que é coerente com o corpo de enunciados aceitos". A crítica da teoria da coerência pode ser visualizada da seguinte forma: geralmente enunciamos o fato de acordo com nossa razão, mas não suficiente para aceitá-lo como verdadeiro, pois se a coerência é uma prova da verdade não pode ser o mesmo que a verdade. A crítica da correspondência encontra-se em formular uma correspondência sem sentido algum, mas mostrando coerência lógica. Um exemplo: é verdadeiro que não existem os centauros. Mas o que são os centauros?

A posição filosófica da imagem depende muito da visão do observador. Caso seja pragmatista, a imagem que formará da realidade será a de utilidade, no sentido de que tudo o que é útil é verdadeiro. Caso seja existencialista, a imagem do mundo exterior será uma massa de inconsistências e de absurdos, em que o senso real é o não senso, ou seja, o mundo é meramente a ilusão de nossas próprias idéias.

Diante dessas dificuldades de ordem epistemológicas, onde buscar o verdadeiro sentido da nossa existência? Na . Somente a é capaz de dar-nos o equilíbrio do pensamento e auxiliar-nos a formar uma imagem mais ajustada à própria realidade. Isto mostra que existe em cada um de nós um elemento latente, natural, que nos faz crer no bem, na justiça e no amor, sem que precisemos provar a sua coerência lógica.

Formemos uma imagem serena da realidade. Somente assim conseguiremos vencer o mar alto das grandes desilusões do nosso pensamento.

Fonte de Consulta

BOULDING, K. E., The Image: Knowledge in Life and Society. 6. ed., Estados Unidos, University of Michigan, 1968.

URMSON, J. O. Enciclopedia Concisa de Filosofía y filósofos. 2. ed., Madrid, Catedra, 1975.

Maio/1997

 

IMANÊNCIA E TRANSCENDÊNCIA

 

Imanência - lugar onde fica. Im-manere é deter-se em - ficar aquém de um limite, perante uma vedação, numa fronteira. Transcendência - do lat. transcendentia é, antes de tudo, a idéia de um exceder, de um além referido a um aquém. Em grego, meta. Transcender é ultrapassar, subir além de, estar além de.

Sabedoria é a busca incessante dos conhecimentos superiores do espírito. O sábio não é o indivíduo que se prende à questiúncula; procura, sim, os vôos da consciência para a absorção plena da verdade. Não quer dizer que foge das pessoas, do trabalho e da convivência familiar; apenas pelo seu modo de ser e de pensar transcende tudo isso, ou seja, quer haja concordância, discordância ou arrogância, mantém a serenidade de espírito.

O sábio, à semelhança do cristão, deve viver no mundo sem ser do mundo. Significa dizer que deve alimentar-se, vestir-se e trabalhar como todos os outros mortais, porém com a condição de estar acima de tudo isso. Este é o grave problema que terá de solucionar, porque o corre-corre, as opiniões e os afazeres diários estão sempre o arrastando para o imanente, o trivial e o corriqueiro. Nesse sentido, o sábio deve ser suficientemente forte para não se deixar levar pelo sensacionalismo do momento que passa.

Transcender não é sairmos de nós e irmos para o exterior. É suplantarmo-nos, ou seja, vencermos a nós mesmos. Estamos sempre querendo vencer o mundo, planejando adquirir mais propriedades, mais poder. Pergunta-se: somos senhores de nós mesmos? Eis a grande dificuldade que se nos apresenta ao nos depararmos com esse mundo extremamente alicerçado nos valores materiais. O mérito não está nas facilidades, e sim nos tormentos que se sofre para que sejamos donos de nós mesmos, do nosso pensamento e de nossa atitude frente a uma situação.

O ser transcendental é basicamente um ser intuitivo. Busca, em primeiro lugar, Deus. Age de acordo com seus insights e não precisa, a todo o momento, estar demonstrando as verdades evidentes. Nem por isso deixa de lado a razão, mas a utiliza muito mais para verificar se não houve nenhum erro no aporte das idéias do que a essência de um pensamento racional. Ele sabe que os poderes da mente são infinitos e por isso deixa-se levar por uma onda mental que o faz emergir deste mundo para trazer novos conhecimentos de outras esferas do saber.

Sejamos imanentes na transcendência. Construamos um mundo cheio de luz, de sabedoria, de felicidade e procuremos permanecer nesse status quo.

Fonte de Consulta

VIALATOUX, J. A Intenção Filosófica. Coimbra, Portugal, Livraria Almedina, 1979.

Abril/1997

INVENÇÃO DA IMPRENSA E CONHECIMENTO

 

Na Antiguidade, o acervo de conhecimentos adquiridos perdia-se com facilidade: pela morte dos mais velhos ou por uma epidemia. Os homens daquela época, preocupados em guardar as informações para a posteridade, inventaram tabuinhas de barro cozido, onde deixavam impressos os seus textos. Foram os primeiros "livros", depois progressivamente modificados até chegarem a ser feitos – em grandes tiragens – em papel impresso mecanicamente, proporcionando facilidade de leitura e transporte.

A invenção da imprensa, por Gutenberg, em 1450, deu outro rumo à veiculação das idéias. Conta-se que 45 copistas, trabalhando durante dois anos, sob as ordens de Cosimo de Medici, produziram apenas 200 volumes. Em contraste com o método manuscrito, imperfeito e vagaroso, apareceram na Europa, entre 1450 e 1500, cerca de dez milhões de livros, compreendendo 40.000 títulos, com centenas de impressores laboriosamente produzindo novas obras. A multiplicação acelerada de livros possibilitou uma difusão igualmente rápida do saber.

Se quisermos pesquisar alguma coisa sobre os grandes homens que abalaram o mundo, devemos fazê-lo através da palavra impressa. De que outra maneira entraríamos em contato com os pensamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles? Contudo, a divulgação maciça desses pensamentos só foi possível graças aos meios modernos de documentá-los veiculá-los. A editora Martin Claret, por exemplo, está publicando a coleção Obra-Prima de Cada Autor, um projeto com mais de 300 volumes de importantes autores brasileiros e de outras nacionalidades, no sentido de fazer com que o mundo leia mais, a um preço módico.

Robert B. Downs, em Obras Básicas: Fundamentos do Pensamento Moderno, faz uma análise crítica e concisa sobre o impacto causado no mundo atual por 111 obras diversas, principalmente aquelas que se referem às ciências da natureza e às ciências biológicas, economia, política, história, educação e sociologia. Esse trabalho só foi possível graças ao fabuloso estoque de livros existentes no mundo todo. Na sua introdução, observa que todos os homens, quase sem exceção, expressaram e propagaram as suas idéias usando como veículo unicamente a palavra impressa.

Bastante elucidativa é a citação de Isaac Newton: "Se vi mais longe que outros homens foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes". Referia-se à sua dívida para com Copérnico, Kepler, Galileu e outros predecessores. Na realidade, o nosso presente é conseqüência direta da influência que recebemos daqueles que já se foram. E de que maneira vamos receber essa influência? Através dos registros arquivados em livros. Poderíamos, também, receber informações via mediunidade. Depois, contudo, teremos de passá-lo para o papel.

Tenhamos em conta o valor inestimável da palavra escrita. Que a publicação de nossas idéias esteja sempre alicerçada na intenção de elevar o sentimento e a razão daqueles que nos lêem.

Fonte de Consulta

DOWNS, Robert B. Obras Básicas: Fundamentos do Pensamento Moderno. Tradução de Hilda Pareto Soares Maciel e Maria Celina Deiró Hahn. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, Ed. Renes, 1969.

Agosto/2002.

REVOLUÇÃO KANTIANA DO SABER

 

Immanuel Kant (1724-1804) nasceu em Königsburg, antiga Prússia, que hoje se situa na Polônia. Filho de pais pobres, tem sua formação universitária financiada por um teólogo, amigo da família. Assim, em 1740, pode se matricular na universidade de Königsburg. Em 1755, torna-se livre docente nesta mesma universidade. A partir de 1770, ano em que se faz professor catedrático, ministra diversos cursos de interesse acadêmico. É nesse período que prepara uma de suas mais importantes obras, a Crítica da Razão Pura, que veio a lume em 1781.

Kant pública três tipos de crítica: a Crítica da razão pura, a Crítica da razão prática e a Crítica da faculdade do juízo. Na Crítica da razão pura, examina a teoria do conhecimento, estabelecendo os limites para a sua apreensão. Na Crítica da razão prática, examina o significado moral da liberdade, da imortalidade da alma e da existência de Deus. Na Crítica da faculdade do juízo, desenvolve a sua teoria acerca do belo, tendo por fundamento o mesmo das duas críticas anteriores, ou seja, o domínio da natureza e o domínio da liberdade/moralidade.

A revolução copernicana, que Kant proporciona na filosofia, baseia-se na hipótese de que o conhecimento não é extraído da coisa em si, mas do fenômeno. Para Kant, não temos condições de penetrar nas coisas em si, muito embora podemos discuti-las. O que sabemos é proveniente da observação, das sensações. Em outras palavras, o conhecimento é fruto de nossa sensibilidade. É a sensibilidade que nos dá o ensejo de conhecer. Um modelo teórico existe e podemos nele pensar, mas, daí inferir uma verdade categórica, vai grande distância. Pretende, com isso, combater o dogmatismo e o ceticismo.

Para Kant, a participação do sujeito na construção do objeto de conhecimento não é uma projeção de caprichos e de fantasias subjetivas. Existe algo que se encontra na base de todos os sujeitos particulares (tão distintos entre si), algo que os torna essencial. Acha que só conhecemos a priori das coisas aquilo que nós mesmos colocamos nelas. Esta é a mudança na maneira de pensar proposta por Kant, a sua revolução copernicana.

O sujeito absorve o conhecimento de acordo com a sua subjetividade. Mas não é qualquer subjetividade. De acordo com Kant, há no sujeito uma faculdade que consegue apreender a essência do saber.

Fonte de Consulta

REGO, Pedro Costa. Kant: A revolução copernicana na filosofia. In FIGUEIREDO, Vinicius de. Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis e Vertecchia, 2006

14/3/2007

O MESTRE ESPIRITUAL E O CONHECIMENTO

 

O conhecimento, captado e divulgado por um mestre espiritual, apresenta resultado no tempo-espaço em que foi projetado. Ele serviu para um determinado grupo, numa determinada época. Para ter validade nos dias que correm, há necessidade de renová-lo e adaptá-lo às necessidades presentes, pois a mente e as pessoas estão em eterna mutação. Imaginemos as pregações de Jesus, feitas há 2000 anos, à beira do lago ou nas encostas das montanhas. Será eficaz repetir esses mesmos atos hoje?

Um grupo religioso surge e se fortalece ao redor de um mestre. Este, por sua vez, vale-se de livros e textos de algum revelador do passado. Se o grupo, que se forma hoje, segue de modo irrestrito todos os exercícios, propostos naquela época, há muito mais um adestramento do que um desenvolvimento espiritual. O desenvolvimento espiritual autêntico extrapola tempo, espaço, técnica e qualquer tipo de exercício; ele pressupõe eminentemente a compreensão do que o ser humano está fazendo.

Para que um grupo progrida, os ensinamentos veiculados devem atender às necessidades dos participantes deste grupo. O que adianta traçar planos mirabolantes, evocar as divindades gregas, clamar pelos grandes líderes religiosos, se tudo isso estiver distante dos anseios do grupo? O alimento, para ser eficaz, deve produzir uma transformação nas pessoas que o recebem. A simples repetição de atos exteriores, mesmo dos maiores líderes espirituais da humanidade, conduz ao automatismo e embota a intuição.

Há um evangelho apócrifo que escreve uma observação atribuída a Jesus: "Jesus disse: ‘Havia dois homens que foram vender maçãs. Um deles escolheu vender a pele da maçã por seu peso em ouro, sem se preocupar com sua substância. O outro desejava presentear as maçãs, recebendo em troca um pouco de pão para sua viagem. Porém os homens compraram a pele das maçãs por peso em ouro, sem se importarem com aquele que estava disposto dá-las e quase o desprezando’". A busca do conhecimento, para a maioria de nós, funciona dessa maneira: a substância fica sempre em segundo plano; preferimos pagar um preço muito alto pelas inutilidades, mas recusar o conhecimento gratuito dos sábios.

Qual deve ser, então, o trabalho de um mestre espiritual? O mestre não deve ser o monopolizador das instruções, o conhecedor de todos os mistérios da natureza, ou aquele que dirime todas as dúvidas. A sua função precípua é "des-condicionar" a mente dos seus seguidores, no sentido de fazê-los penetrar na essência do conhecimento espiritual. Para obter êxito nessa empreitada, deve estar constantemente incentivando os seus adeptos a pensarem pela própria cabeça.

Estejamos sempre enaltecendo as virtudes evangélicas. Sejamos os verdadeiros homens de bem, que destroem o ego para que o Cristo interior cresça em espírito e verdade.

Abril/2006

OPINIÃO E CONCEITO

 

Sócrates, filósofo grego da Antigüidade, instituiu um método para a construção do saber, ou seja, o diálogo. O diálogo socrático realizava-se sob dois momentos distintos: a ironia e a maiêutica. Na ironia procurava confundir o interlocutor a respeito do este julgava saber; na maiêutica instruía sobre o que ele poderia aprender. As perguntas que Sócrates fazia tinha por objetivo aprofundar o tema em questão. Dizia que nada sabia, e por isso perguntava a quem ele julgava que soubesse.

Para Sócrates as opiniões devem ser destruídas. De acordo com o pensamento deste filósofo, o indivíduo, movido pela sensação, vai adquirindo conhecimentos falsos e incorporando muitos vícios ao seu patrimônio intelectual. Acha ele que esses pseudoconhecimentos são adventícios, e, que uma reflexão mais cuidadosa sobre eles fará o indivíduo mudar de parecer, motivando-o na busca do conceito.

Após confundir o interlocutor sobre aquilo que ele julgava saber (opinião), Sócrates partia para a construção do conceito. O conceito era o resultado das perguntas que ele fazia com o objetivo de aprofundar o tema em questão. Penetrava no âmago do problema, sem contudo ter a pretensão de descobrir a verdade total. Pelo contrário, indo até às últimas conseqüências, deixava sempre um campo aberto para posteriores pesquisas.

O método socrático, como vemos, é o de perguntar. A avaliação pedagógica atual está muito mais interessada nas respostas do que nas perguntas dos alunos. Aliás, a maioria dos testes psicotécnicos mede a capacidade de responder; poucos, a de perguntar. Por isso, diz-se que as pessoas deveriam ser avaliadas pelas perguntas que fazem, e não somente pelas respostas que dão. É que as perguntas revelam o caráter espontâneo do indivíduo, enquanto as respostas, aquilo que ele tira do livro.

A apreensão do conceito, sendo racional, deveria encaminhar o indivíduo para a prática da virtude, pois a razão não pode conceber a Verdade à parte do bem. Conceber as pessoas dentro da totalidade, imaginando-as como parte integrante de uma população cósmica e espiritual, é de suma importância para a ampliação de nossa visão com relação ao "eu", ao "outro" e ao "nós".

Renunciemos às nossas opiniões particulares. Posteriormente, procuremos descobrir o conceito que se oculta por trás das coisas sensíveis. Esta é a regra áurea para bem conduzir o nosso pensamento na busca da verdade.

Fonte de Consulta

GRISI, R. Didática Mínima. 13. ed., São Paulo, Editora Nacional, 1988 (Atualidades pedagógicas, volume 84).

Janeiro/1997

PRECONCEITO E VERDADE

 

Preconceito - do latim prae + conceptum = concebido antes. É a fixação de um juízo anterior à análise objetiva da realidade, atingindo, desfavoravelmente, pessoas, idéias, instituições ou objetos. Entre os preconceitos mais censuráveis se encontram os que concernem à raça e à religião. Os preconceitos são característicos dos indivíduos de mentalidade estreita, incapazes de uma análise serena e desapaixonada da realidade.

Vivemos envoltos com inúmeras crenças. Algumas de caráter científico, tal qual a de que a Terra gira ao redor do Sol. Porém, a maioria delas, é o resultado da tradição e da autoridade. Neste sentido, o filósofo Husserl fala-nos de uma "tese geral', ou seja, de uma compreensão implícita do mundo, que caracteriza o comportamento dogmático das criaturas. São atitudes humanas voltadas para a ação e o fazer técnico. É o mundo das sombras expresso por Platão na alegoria do "Mito da Caverna".

O progresso é uma lei natural. Cedo ou tarde teremos de romper com as posições cristalizadas do nosso comportamento. A transformação pode se dar: a) de forma natural, quando nos defrontarmos com as crenças antagônicas e tivermos que tomar nova decisão; b) pelo próprio esforço, quando tomarmos consciência da necessidade de nossa modificação interior. É o princípio da problematização fornecendo as diretrizes para a aquisição do conhecimento.

A descoberta da verdade é impedida, muito mais pelo preconceito, do que pela falsa aparência que as coisas apresentam, e que podem induzir-nos ao erro. O preconceito é aquela erva daninha que obscurece o curso de nosso raciocínio e impede-nos de ter uma visão mais clara da realidade. É como um pseudo, a priori, que barra a caminho da verdade e empurra-nos para as sombras da ignorância.

A busca da verdade deve ser um exercício constante de nossa mente, caso queiramos eliminar os erros do preconceito. Construímos, ao longo do tempo, conceitos que, sem a devida problematização, tornaram-se dogmáticos e superficiais. Contudo, desde que nos apliquemos eficazmente, poderemos modificar a estrutura básica do nosso proceder e concomitantemente obter bom êxito na apreensão mais profunda da realidade que nos absorve.

"Atitudes repetidas" convertem-se em "hábitos". O hábito é um sexto sentido. Dessa forma, o que a princípio parecia difícil torna-se, pelo esforço constante, fácil. A verdade se nos apresenta de modo intuitivo e direto sem as peripécias do raciocínio discursivo.

Fonte de Consulta

BORNHEIM, G. A. Introdução ao Filosofar - O Pensamento em Bases Existenciais. 7. ed., Rio de Janeiro, Globo, 1986.

GOMES, L. C. Antologia Filosófica. São Paulo, Livros Horizontes, 1983.

Abril/1994

O QUE É UM MESTRE?

 

O tema tem uma interrogação que requer uma explicação. A pergunta refere-se a "um" mestre e não a "o" mestre (por excelência). Dessa forma, para bem pensar sobre este assunto, devemos buscar os vários sentidos que o termo evoca: sentido empírico, pragmático, profissional (tornar-se mestre de, ser mestre em); sentido político (mestre e dominação); sentido moral (o domínio das paixões, o domínio de si mesmo).

A palavra maître tem, em francês, o duplo sentido de mestre e senhor, dono, amo. Esta ambigüidade faz do termo mestre uma palavra polissêmica. Quer dizer, quando a usamos devemos situá-la dentro de um contexto, de uma circunstância específica, porque tanto é mestre aquele que se especializou numa profissão, como aquele que apresentou uma dissertação de mestrado, como aquele que comanda outrem. Dessa reflexão, surgem algumas questões: o que é um verdadeiro mestre? Podemos pensar o mestre por excelência? É possível diferenciar entre os mestres "de fato", reais e os falsos?

Magister, o mestre verdadeiro, é aquele que ensina; mas, ao ensinar, ele não pode exercer um domínio, uma força, porque invalida a sua própria essência. Nesse mister, pode-se dizer que há mestre e mestre. Quantos o são no verdadeiro sentido da palavra magister? Quantos são os que apequenam para que o outro cresça? Quantos de nós nos assemelhamos a Sócrates e a Jesus, exemplos de mestria? E foram considerados mestres (por excelência) simplesmente porque não se consideravam como tais. É famosa a frase de Jesus, que cognominado de mestre, disse: "Mestre é só Deus".

O mestre dominus, aquele que domina pela força, encontramo-lo aos montes. E por que há o domínio do homem sobre outro homem? Aqui também convém dizer que há dominus e dominus. Sabemos que nas sociedades organizadas temos necessidade de chefes e de subordinados, alguém que ordena e alguém que obedece. A ordem, porém, não significa que quem manda é superior ao que obedece. Contudo, o termo dominus é usado no sentido pejorativo, ou seja, aquele que manda pelo prazer de mandar, domina pelo prazer de dominar.

O mestre de si mesmo é o terceiro sentido que o termo evoca. Enquanto o magister e o dominus referem-se a um relacionamento com terceiros, este diz respeito a um relacionamento da pessoa para com ela mesma, da mesma forma que fazia Sócrates em sua prática da autoconsciência. É, também, o que Santo Agostinho nos convida a fazer, todas as noites, antes de dormir, ou seja, uma ordenação para repassarmos mentalmente o dia no sentido de verificar como fomos em pensamentos, palavras e ações.

Exercitemos a nossa mestria. Não nos deixemos seduzir pelos falsos discursos, pelas facilidades da vida. Antes, porém, envidemos esforços para entrar pela porta estreita, para sermos os verdadeiros mestres de nós mesmos.

Fonte de Consulta

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. Tradução de Paulo Neves. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Ferramentas)

Julho/2002

RECONSTRUIR O CONHECIMENTO

 

Aprender significa redescobrir e reconstruir o conhecimento adquirido. Na obtenção do conhecimento, dois erros devem ser evitados: 1) aumentarmos desordenadamente as informações recebidas; 2) não buscarmos nenhuma informação exterior. No primeiro caso, podemos nos tornar uma pessoa erudita, em que os saberes são desconexos, isto é, sem análise ou crítica; no segundo caso, podemos imitar Narciso que ficou enamorado de sua própria beleza. Há necessidade da informação exterior, contudo ela deve passar por uma destilação, até tornar-se conhecimento apreendido.

O conhecimento, para ser de fato conhecimento, deve ser fruto da necessidade do aprendiz. Diz-se que ninguém deseja o que ignora, ou seja, no desejo já há uma antecipação do que se gostaria de aprender. Por isso, seguirmos os nossos insights pessoais tem mais peso do que atendermos a interesses meramente financeiros, principalmente aqueles que nada têm a ver com a nossa realização pessoal. Estes, muitas vezes, podem refrear a nossa criatividade e distanciar-nos de nossa evolução espiritual.

Algumas idéias a respeito da educação: "Educação consisti em substituir, no sujeito, o princípio do prazer pelo princípio da realidade"; "Educar alguém é convencê-lo a integrar-se a uma sociedade, no sentido de fazê-lo obedecer às leis vigentes"; "Toda aprendizagem autêntica requer uma ruptura com relação às representações antigas e aos preconceitos anteriores"; "O professor deve ensinar o aluno a se esforçar porque, por natureza, o aluno é quase sempre passivo".

De que maneira o professor pode auxiliar os seus alunos? Colocando-se como gestor das solicitações destes. Agindo de outra forma, diminui drasticamente a eficácia do ensino. O bom professor não é aquele que busca informação e, depois de absorvida, derrama-a inescrupulosamente na cabeça dos seus alunos. Para que ensine com eficácia, é importante que veja os seus alunos dentro das necessidades e do meio ambiente em que vivem. As técnicas oratórias ensinam-nos que, se não houver sintonia entre o emissor e o receptor, a mensagem não será absorvida.

O professor moderno não é aquele que sabe tudo. Ele deve se colocar mais como um facilitador de aprendizagem do que um comunicador de matéria. Os alunos de hoje são diferentes do de ontem, pois têm mais facilidade de obter informações: Internet, jornais, revistas, livros e Televisão. O professor que não assumir uma atitude de aprendizado, inclusive obtendo conhecimento dos próprios alunos, está fadado ao fracasso. Eu não sei, mas podemos buscar juntos a solução do problema, eis a atitude didática por excelência.

Reconstruir o conhecimento é romper com as barreiras do preconceito anterior para que o homem novo possa surgir com todo o seu vigor.

Fonte de Consulta

MEIRIEU, Philippe. Aprender...Sim, mas Como? Tradução de Vanice Pereira Dresch. 7.ed., Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

Julho/2006

REFLEXÃO E SABEDORIA

 

Reflexão é uma espécie de movimento de volta a si mesmo (re-flexão), executado pelo espírito que põe em pauta os conhecimentos que possui. Sabedoria é uma compreensão superior do mundo e da vida, acumulada através da experiência e da meditação. O trabalho do filósofo é uma ação voltada para a busca do saber. Ironizado e desprezado, vivendo em meio à humildade, à pobreza e à castidade, segue a vocação que o destino lhe traçou.

A sophia da palavra filosofia não é, ao mesmo tempo, ciência e filosofia. É somente o desejo, a procura, o amor dessa sophia. É como estar a caminho. Nesse sentido, Jasper insiste em dizer que a essência da filosofia é a procura do saber e não sua posse. Do mesmo modo Kant afirma: "Não há filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar".

O modelo de reflexão filosófica é maiêutica socrática, ou seja, o ato de interrogar e problematizar. Para a filosofia, perguntar é mais importante que responder, pois uma reposta suscita outra pergunta. Sócrates, criador do método, afirmava nada saber. Isto significa dizer que a matéria de reflexão não é o seu saber, mas o conhecimento que o interlocutor tira de si mesmo no transcorrer do dialogo.

A solidão do filósofo adquire todo o seu sentido. Preocupado com o conhecimento rigoroso e desinteressado, não se integra a nenhum meio. É como um inquilino no quarto de hotel. Sua consciência inquieta e insatisfeita lhe determina sua ação, muitas vezes, estranha aos demais seres humanos. Mas, isto nada mais é do que o ardor pela busca da verdade.

Segundo Nietzsche, as virtudes ascéticas — humildade, pobreza e castidade — constituem o misterioso sentido da vida de um filósofo. Isento de desejos, volta-se para a aquisição da verdade, tendo a certeza de que não a alcançará totalmente. A humildade filosófica consiste em dizer que a verdade não pertence mais a mim que a ti, mas se encontra diante de nós.

A reflexão, no âmbito da filosofia, é o elo de ligação para a conquista da sabedoria. Faz-nos ir além da ciência e da técnica, proporcionando-nos o contato com os conhecimentos superiores de nossa esfera.

Fonte de Consulta

HUISMAN, D. e VERGEZ, A. Compêndio Moderno de Filosofia. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1966.

DELEUZE, G. Espinoza e os Signos. Portugal, Porto, Rés-Editiora, ____.

Setembro/1994.

 

TEORIA E PRÁTICA

 

O termo teoria – do grego therein – é usado em várias acepções segundo os dicionaristas. Na Origem, designava o ato de ver e de ser visto em locais abertos a todos, tais como o templo, o circo, a ágora e em espetáculos e cerimônias públicas. Pode ser também a ação de contemplar ou pessoas que marcham para um determinado local. Modernamente, o conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou ciência.

O conhecimento teórico, em toda a antiguidade clássica grega, era entendido como a contemplação da verdade (aletheia) em si mesma. É o conhecimento que confere plena realização e domínio completo tanto em relação ao conhecimento da práxis (conhecimento com utilidade exterior) como ao conhecimento da techne (com utilidade para o próprio sujeito do conhecimento). A supremacia do conhecimento teórico sobre o prático ou técnico provém do fato de ele ser útil em si mesmo, independentemente de sua aplicação exterior.

No sentido moderno, uma teoria equivale a um corpo de proposições adequadas à explicação e à interpretação dos fenômenos dentro de determinado campo disciplinar, descobertas por indução e aplicadas por dedução. Nesse sentido, a teoria passou a ser um conjunto de regras ou de normas a que devem obedecer os fenômenos ou a sua interpretação. Por isso, diz-se que o conhecimento tornou-se teórico-experimental. Há uma concepção mental, uma teoria; para que tenha validade, há necessidade de colher dados e prová-la, geralmente com o auxilio de modelos matemáticos.

O vocábulo teoria é usado, as mais das vezes, como oposição a prática, a ponto de muitas pessoas dizerem que "a teoria na prática é outra". Com isso, não são poucos os pensadores que acabam dando mais importância à prática do que à teoria. Os homens práticos, ou seja, aqueles que estão à frente de atividades empresariais e governamentais ganham cada vez mais notoriedade, principalmente pelas suas aparições nos veículos de comunicação de massa. Eles falam de realizações, de feitos, de planos para o futuro etc. Desconfiemos, contudo, das aparências.

A prática não pode viver sem a teoria. E a teoria deve sempre vir antes, porque é dela que as idéias emergem e se estabelecem os princípios de uma doutrina, de uma ciência ou de um sistema filosófico. O cientista, por exemplo, não vai direto às provas; primeiro, estabelece as hipóteses. Observe que na França, a maioria dos cursos universitários, não exige pesquisas práticas como aqui no Brasil. Entendem eles que, para muitos estudantes, basta apenas ter o arcabouço teórico, e que isso já é o suficiente para resolver muitos problemas no seio da sociedade.

Estejamos aptos a captar idéias. Não nos importemos com a aplicação prática. No seu devido tempo e lugar elas nos servirão de guia para auxiliar o progresso da humanidade.

Fonte de Consulta

POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo: Verbo, 1986.

Abril/2006

 

 

 

 

 

 

 

PENSAR

 

A ARTE DE ARGUMENTAR

 

Argumentar é oferecer um conjunto de razões que nos levam a uma conclusão. O argumento difere da discussão. A discussão pressupõe o uso do preconceito e da opinião pessoal; o argumento é a tentativa de sustentar certos pontos de vista com razões. Assim, um bom argumento não se limita a repetir conclusões. Em vez disso, apresenta dados e razões para que auxilie os outros a formarem as suas opiniões.

Ao utilizarmos os argumentos, podemos ir da conclusão às premissas ou das premissas à conclusão. Estabelecer premissas fidedignas, objetivas e coerentes é o primeiro passo. Isso nos dá condições de bem elaborar o nosso raciocínio. Ao mesmo tempo, convém rechaçar as sentenças tendenciosas, as ambigüidades e as teses confusas. Com isso, fortalecemos o pensamento correto, ou seja, aquele em que há menor uso de palavras e mais consistência lógica.

Há vários tipos de argumento: argumentos de analogia, argumentos de autoridade, argumentos com base em exemplos etc. No argumento de analogia, costuma-se comparar uma situação com outra semelhante. Exemplo: o vice-presidente de um país deve obedecer ao presidente tal qual os jogadores de futebol obedecem ao treinador. No argumento de autoridade, aceita-se uma verdade porque uma pessoa famosa a proferiu. No argumento com base nos exemplos, generaliza-se pela observação de um exemplo. Nesse caso, é preciso tomar cuidado para não cometer o erro da generalização da informação incompleta.

O tema em questão não pode prescindir das falácias. Elas são raciocínios falsos que se apresentam com aparência de verdadeiros; usadas de má-fé, transformam-se em sofismas. Entre elas, citamos as falácias ad hominem (conforme o homem) e ad ignorantiam (apelo à ignorância). Na falácia ad hominem, confundimos o sujeito com as qualidades do sujeito. Exemplo: em vez de criticarmos o desempenho de uma função, criticamos o sujeito na função. Na falácia ad ignorantium, argumentamos que algo é verdadeiro porque não se provou ser falso, ou que algo é falso porque não se provou ser verdadeiro.

Depois de entrar em contato com as regras da argumentação, temos de escrever um ensaio argumentativo. Para fazê-lo com êxito, convém não ter pressa de colocá-lo no papel. O correto é deixar, por algum tempo, a questão de molho. Depois, fazer um pequeno esboço, e segui-lo fielmente. Agindo de outra forma, podemos ficar dando voltas ou andando sobre uma esteira rolante, sem sairmos do lugar. Há necessidade de sentir que estamos indo de um ponto ao outro, mas de forma lógica e racional.

Fundamentemos bem as nossas teses. Escolhamos as palavras simples e objetivas, no sentido de darmos coesão aos nossos raciocínios. A verbosidade pode criar confusão na cabeça daqueles que nos lêem.

Fonte de Consulta

WESTON, Anthony. A Arte de Argumentar. Tradução de Desidério Murcho. 2. ed., Lisboa: Gradiva, 2005.

Agosto/2006

COMO PENSAR

 

O pensamento pode ser visto sob vários aspectos: em sentido amplo, é resultado de tudo o que se passa na nossa mente, sem lógica ou veracidade: sonhos, devaneios, imaginação, intelectualidade etc.; em sentido restrito, são as escolhas que o nosso espírito faz para a análise de algumas questões; em sentido mais restrito é aplicação de nossas potencialidades para a resolução de um problema, de uma dificuldade.

Para um desenvolvimento integral da pessoa humana, interessa-nos desenvolver o pensamento reflexivo, que é o pensamento ativo, prolongado e cuidadoso de tudo o que nos vem à mente. Nesse sentido, são elementos do pensamento reflexivo: a) um estado de perplexidade, hesitação ou dúvida; b) atos de pesquisa ou investigação tendo o fim imediato de descobrir outros fatos que sirvam para corroborar ou destruir a convicção sugerida. Em outras palavras, todas as vezes que nos debruçarmos sobre uma questão — de interesse vital para a nossa alma —, a fim de buscar soluções, conexões, ilações, estaremos de posse do pensamento reflexivo.

John Locke (1632-1704) aponta-nos algumas características das convicções errôneas: a) a dependência dos outros — são os que pensam pela cabeça dos outros; b) interesse pessoal — são os que colocam a emoção na frente da razão, sem exame lógico das coisas; c) experiência limitada — são os que se utilizam da razão, mas com uma visão tacanha. Nesta classe estão agrupados os indivíduos que se relacionam apenas com uma casta limitada de homens, lêem livros de determinada espécie e querem apenas conhecer determinadas opiniões: não se aventuram no mar alto dos grandes conhecimentos.

O ato de pensar deve ser enérgico e profundo. Procurando resposta para uma necessidade, uma curiosidade, uma dúvida, um anseio, o pensamento deve ir até as últimas conseqüências, a fim de obter a verdade dos fatos. Quem assim procede vai adquirindo um vasto conhecimento, porque em cada etapa observa, para, pensa, pondera e deixa que os novos ensinamentos se acrescentem aos já adquiridos, de modo que o estoque de conhecimentos vá crescendo de forma suave, mas sempre progressiva.

O tipo de pergunta é bastante importante na relação ensino-aprendizagem. Não são poucos os que perguntam por perguntar, acreditando que estão desenvolvendo o diálogo socrático. Muitas vezes não passa de tagarelice mental. É necessário que as perguntas promovam o aprofundamento do estudo, pois o simples ato de perguntar acaba desviando-nos do tema em questão. É fácil de se observar, quando numa discussão em grupo, deixamos seus componentes à vontade; em pouco tempo, a conversa toma rumo totalmente distinto daquele que foi anunciado anteriormente.

Quer queiramos ou não, estamos sempre envoltos com as sugestões dos jornais, da TV, dos amigos etc. O pensamento enérgico exige renúncia ao comodismo, esforço ao raciocínio e certa solidão interior.

Fonte de Consulta

DEWEY, J. Como Pensamos. São Paulo, Editora Nacional, 1933.

Outubro/2000.

ESCREVER É PENSAR?

 

O tema vem a calhar, pois sentimo-nos diminuídos diante de um autor que editou mais de cem livros. Perguntamo-nos: como ele consegue fazer tanto e eu nada? Esta seria a pergunta relevante? Não estamos confundindo quantidade com qualidade? Suponhamos que ele componha estórias de amor e outras futilidades. Será que, por ele ter perdido tempo compondo-as, devemos nós perder o nosso para lê-las? É preciso cuidado. O que interessa extrair de um escrito? Algo que nos ajude a pensar melhor.

O que se entende por pensar? Pensar vem do latim sopesar e significa ponderar, avaliar, refletir. A metodologia filosófica lembra-nos de que não devemos conhecer por conhecer, mas conhecer para pensar; sugere-nos que devemos ruminar tudo aquilo que nos passa diante dos olhos, para que possamos construir o nosso próprio raciocínio. Temos a obrigação não só de conhecer os autores que nos precederam, mas também lhes sugar o que melhor produziram. Apropriar-se de um conhecimento alheio não é parafraseá-lo, mas construir solidamente aquele raciocínio como se fosse nosso.

A palavra escrever, em sentido comum, é colocar no papel o que está primeiro no cérebro. Num sentido mais amplo, podemos dizer que é a expressão do discurso do ser humano. Ou seja, nós só podemos colocar no papel aquilo que se encontra dentro de nós próprios. Se componho estórias de amor, é porque elas já existem em potência no meu psiquismo. Em outras palavras, os meus escritos revelam a maneira que eu sou. Se sou despótico, pessimista, violento, terei a tendência de passar isso para o papel; se sou bondoso, amante da verdade e da justiça, farei o contrário.

Os livros, em sua maioria, auxiliam a pensar? Temos dúvida. Muitos trazem informações, outros contam estórias, outros descrevem biografias, outros são pornográficos. Eles, em si mesmos, não dizem muita coisa. Vale mais a maneira que os lemos. Se tivermos um objetivo determinado, tiraremos proveito até do pior dos livros. Contudo, para ajudar a pensar, o autor deve se expressar claramente no sentido de sugerir uma reflexão, uma mudança de comportamento. Nesse mister, Einstein já nos dizia que "quem lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar". Temos de fazer nosso o motivo da reflexão.

Como, porém, tornar um texto apto à reflexão filosófica? Em primeiro lugar a disposição: se o texto não estiver legível e bem distribuído nas páginas, o leitor poderá abandoná-lo tão logo o pegue para ler. Observe quando nos pedem para ler alguma coisa. Os nossos olhos procuram sintetizar e colocar títulos para melhor dispor o próprio pensamento. É isso o que devemos fazer para o leitor. Em segundo lugar, o texto deve enunciar ou sugerir uma mudança de atitude. Por que? Por que na raiz da palavra aprendizagem está a mudança de comportamento.

Estejamos sempre atentos. Para bem viver nós não precisamos de muitas informações e nem de muitas leituras. Basta que elas sejam essenciais ao nosso crescimento moral e espiritual.

Agosto/2002

LÓGICA VERSUS BOM SENSO

 

A lógica é boa nos raciocínios, mas nem sempre útil à compreensão da vida. A China, por exemplo, o país mais antigo e mais populoso da Terra, dá pouco valor à lógica. Seus pensadores preferem se dedicar à importância de viver. A filosofia de vida chinesa é desenvolvida em cima de epigramas – poesias breves e satíricas –, levando-se em conta o desperdício de tempo e de energia vital. A natureza, o rio e a planície servem de estímulo à captação desses pensamentos.

Por que a lógica é nociva à vida? Porque ela dá importância exagerada ao raciocínio, ao uso de palavras. Isso traz como conseqüência a especialização, que tira do indivíduo a noção de todo, isto é, a interpenetração de todos os conhecimentos. A especialização torna a nossa mente muito estreita, distanciando-a muito das conotações filosóficas. A crítica e a reflexão, próprias do filosofar, ficam para segundo plano, quando não esquecidas. Por isso os chineses tratam muito mais de viver do que bem raciocinar.

O sentido positivo da ciência, ou seja, a busca de provas na realidade objetiva, acaba por nos induzir ao erro: achamos verdadeiro somente aquilo que é proveniente dos fatos concretos. As inspirações e as intuições, frutos da percepção extra-sensorial, são deslocadas para o campo do misticismo. O físico vienense Herbert Pietschamann, ao tratar das coisas da matéria e das coisas da alma, diz: a via das ciências naturais levaria ao conhecimento do exato; a via das ciências do espírito levaria ao conhecimento do verdadeiro.

Alguns escritores ocidentais renunciaram definir tudo o que escrevem. Entre eles, citamos William James e Shakespeare. Tanto um quanto o outro procurou desenvolver os seus pensamentos de forma corrente sem se preocupar muito com o significado implícito de cada palavra empregada. Isto porque a busca frenética pelo significado de uma palavra leva à procura do significado da outra, e assim sucessivamente. O método socrático de definir tudo o que se fala deixou rastros ao longo do tempo.

Enquanto o pensamento ocidental segue o cogito ergo sum de Descartes, os chineses seguem as ponderações de Walt Whitman: "Basta-me que eu exista". O senso de razoabilidade frente aos acontecimentos da vida tem mais valor do que a pretensa profundidade em ciência. Tenhamos em conta que somos um ser global. Para isso, precisamos tanto da lógica ocidental quanto da cultura oriental. Manter a idéia fixa em um dos dois sistemas é ser preconceituoso.

A união do pensamento oriental com o do ocidental é factível e mostra que a lei divina é única. Assim, para que possamos alcançar um grau maior de compreensão da vida, saibamos facear todo o conhecimento com a luz da ciência e da intuição espiritual.

Fonte de Consulta

YUTANG, Lin. A Importância de Viver. Trad. Maria Quintana. Porto Alegre, Rio de Janeiro: Globo, 1986.

Agsto/2005

PENSAR COM CONCEITOS

 

A análise conceitual é uma disciplina que auxilia a melhorar a comunicação entre os seres humanos, uma vez que estimula a reflexão e a crítica antes da expressão em público. Não pretende ser um raciocínio correto, mas esclarecer e dirimir dúvidas quanto aos diversos significados que uma mesma palavra pode ter.

Pensar com conceitos é um incômodo para muitas pessoas que tem os seus pensamentos arrumadinhos. Depois de uma sessão de discussão acerca de conceitos, elas falam: "tantas palavras para nada"; "ninguém chegou a conclusão nenhuma". Esquecem-se de que a conclusão deve ser feita no âmago do Espírito, por cada um de nós.

Quais são os benefícios de se pensar com conceitos? Um melhor uso das palavras e mais clareza dos pensamentos. Buscando os vários significados de cada termo, teremos condições de empregá-los corretamente, dando maior fluidez aos nossos raciocínios. Quando uma pessoa diz: "Este é um bom livro", podemos perguntar-lhe: O que você entende por um bom livro? Queremos que ela explique o entendimento dela acerca de um bom livro e não aquilo que está escrito no dicionário.

Diante da análise de conceitos, haverá sempre algo novo a dizer sobre um tema, pois a nossa mente corre atrás dos seus significados e, com isso, vamos enriquecendo o nosso conhecimento acerca do assunto proposto. Sendo aplicado nesse exercício, eliminamos também o erro crasso de nos acharmos o dono da última palavra sobre o tema. A criatividade implica em ver sempre de forma diferente o mesmo assunto. Desta forma, quando alguém quer mudar tudo, não soube mudar a si mesmo a respeito do tema, pois há sempre uma forma atual de abordá-lo.

O exercício de análise de conceitos deve se basear na distinção entre fato, valor e conceito. O fato é algo que se observa; pode-se quantificar. Por exemplo, O metal funde-se a x graus centígrados. Temos que ir esquentando o metal e, paralelamente, anotando os valores obtidos, a fim de chegarmos ao grau de ebulição do mesmo. O valor é um juízo que fazemos acerca de um fato, no sentido de gostar ou não gostar, de achar bom o ruim. O conceito é algo mais complexo. Temos que colocar em palavras o que concebemos com a mente. Se nos perguntarem, por exemplo, sobre o conceito de Deus, temos alguma dificuldade de dar uma resposta.

É agindo metodicamente que vamos aumentando o nosso dicionário de palavras. Saibamos aguardá-las e aprisioná-las, à semelhança do que fazem os pescadores quando jogam as suas redes no mar. Conforme o tamanho da abertura da rede, tal é o peixe que pegam.

Fonte de Consulta

WILSON, John. Pensar com Conceitos. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Coleção Ferramentas)

Outubro/2003

PENSAR DIREITO

Em qualquer lugar onde estivermos, apresentar-nos-ão problemas, dificuldades, afirmações, dúvidas etc. Pergunta-se: o que fazer diante desses fatos? Crer porque a pessoa que nos disse é uma autoridade no assunto? Aceitar porque não temos informações sobre a questão? Nada fazer porque temos preguiça de pensar a respeito? Em fim, qual a melhor atitude a tomar?

Diante de uma questão ou de um problema, entendemos que a primeira atitude deve ser a de ouvir atentamente o que o interlocutor tem a dizer. Posteriormente, lucubrar sobre o que foi dito, verificando o quanto sabemos ou o quanto nos falta saber do assunto. Mais precisamente, exercitar o raciocínio buscando argumentos sólidos. Significa tentar explicar, proceder a uma análise, ou seja, enfrentar o problema na sua plenitude, até chegar a uma maior compreensão do mesmo.

Inteirado dos argumentos e verificada a nossa limitação em relação ao que foi proposto, proceder à pesquisa. Ir à enciclopédia para saber a etimologia e o significado da palavra; ir ao dicionário bilíngüe, caso o termo seja estrangeiro; ir ao dicionário de símbolos, quando a palavra assim o exigir. Tudo isso ajuda a termos uma visão mais ampla da palavra e usarmos a linguagem que melhor se adapte ao significado que queremos expressar. Partir do conhecido para o desconhecido solicita esse procedimento científico. Nesse mister, lembremo-nos de que a maioria das discussões começa pela não definição do termo que queremos comunicar.

Em se tratando de números, prestar atenção no que foi enunciado, pois os números não mentem, mas os mentirosos os usam para mentir. Em economia há erros crassos ao relacionarmos coisas distintas. Um deles é comparar salário líquido com a renda do outro, em um país onde o imposto de renda progressivo é enorme; outro, é comparar renda, que pode ser consumida, com a riqueza, que representa um patrimônio físico de um país ou de uma empresa, o que pode ou não se transformar em renda.

Os sofismas ou falácias do pensamento devem ser lembrados. O que é um sofisma? É um raciocínio falso que se apresenta com aparência de verdadeiro; argumento aparentemente válido, mas, na realidade, não conclusivo, e que supõe má fé por parte de quem o apresenta. Observe o exemplo: todo o homem é bom. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é bom. A premissa inicial teve como conclusão que Sócrates é bom, mas quem nos garante que todo o homem é bom.

Pensar direito requer uma atitude socrática, ou seja, "uma vida sem exame não merece ser vivida". Empenhemo-nos no exercício de bem expressar o nosso discurso, seja ele de que natureza for.

Fonte de Consulta

FLEW, Antony. Pensar Direito (Ou, Será que Eu Quero Sinceramente Estar Certo?). Tradução de João Paulo Monteiro. São Paulo: Cultrix, Editora da Usp, 1979.

Junho/2002

 

PENSAR POR SI MESMO (I)

 

O que significa pensar por nós mesmos? Seria transformar o pensamento em ação? Debruçar sobre a leitura de livros? Escrever um livro? Parafrasear o pensamento do próximo? Aprofundar um tema? Estas são, dentre muitas outras, questões substanciais acerca do pensar.

Dever e responsabilidade são, respectivamente, os primeiros elementos na tentativa de pensarmos por nós mesmos. Por que? Porque quando estivermos cônscios de nossos deveres para com o próximo, a nossa responsabilidade concomitantemente ajusta-se a esse status quo. Assim sendo, as nossas atitudes e comportamentos tendem a colocar em prática os pressupostos de nossos objetivos, induzindo-nos a prestarmos mais atenção aos estímulos que nos cercam, no sentido de dirigirmos melhor a nossa conduta para o papel que devemos desempenhar na sociedade.

O pensar por nós mesmos pode ser auxiliado pela filosofia de Kant, quando ele analisa o sapere aude! "Tem coragem de fazer uso do teu próprio entendimento, tal é o lema da filosofia". Nesse contexto, ele fala da menoridade e da maioridade na arte de pensar. Para Kant, menoridade é pensar pela cabeça do outro, quer seja um homem famoso, um juiz ou guru; a maioridade, por outro lado, é enfrentar toda a situação com o espírito crítico e coragem intelectual. Estar, sozinho, no meio de uma floresta é um bom exercício. Sem ninguém que nos guie, temos de encontrar a saída.

Pensar não requer verbosidade. Os Espíritos superiores, quando se comunicam conosco, fazem-no de modo sintético, ou seja, com o mínimo de palavras possíveis, sem prejuízo do conteúdo a ser transmitido. Para que perder tempo, enchendo de letras e mais letras os papéis que, depois, serão transformados em livros para que outros percam tempo lendo o que escrevemos? Respeitemos o nosso próximo: transmitamos a nossa mensagem de modo claro, objetivo e sem segundas intenções.

Vez ou outra o nosso pensamento recebe fluxos negativos e uma mórbida obsessão ecoa em nosso psiquismo. Assim mesmo, é imperioso lutar para não sermos tragados pelas influências menos felizes. Nesse mister, convém não nos deixarmos guiar pela imaginação catastrófica. Devemos, sim, direcionar a nossa mente para os fins que nos propomos, embora tudo a derredor pareça ir contra. Quem sabe se todos esses incômodos não estão nos fortalecendo para o que há de vir?

Pensar por nós mesmos é, acima de tudo, estar debaixo da vontade de Deus. E estar com Deus, mesmo que seja no Inferno, é estar no Paraíso.

Fonte de Consulta

BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao Pensar: O Ser, o Conhecimento, a Linguagem. 28. ed., Petrópolis, Vozes, 2001.

Julho/2002

PENSAR POR SI MESMO (II)

 

O exercício filosófico estimula-nos a tratar objetivamente todos os temas que se nos apresentam. A técnica utilizada é a mesma que apregoa Kant, ou seja, não devemos ser espectador de frutas em vitrine, mas operadores conscientes do nosso próprio pensar. Quer dizer, se somos apenas receptores passivos do conhecimento, não entramos propriamente no ato de filosofar; porém, se passarmos à "ação filosofante", apropriando-nos da idéia, da questão, do juízo dados, eles farão sentido para nós, pois, em vez de deixá-los do lado de fora, o nosso pensamento se apodera deles.

A análise filosófica deve ser o ponto de partida para adquirir o hábito de pensar por nós mesmos. De acordo com a etimologia grega a palavra análise significa não só decompor e discernir as diferentes partes de um todo, como também reconhecer as diferentes relações que elas mantêm entre si, quer com o todo. Em outras palavras, analisar é ousar refletir, questionar e por em dúvida o conhecimento vigente tal qual sugeriu Descartes na sua obra O Discurso do Método. Precisamos, pois, sem precipitação, cruzar, descruzar, comparar e buscar o máximo de aprofundamento que a nossa mente possa alcançar.

Perguntas e respostas fundamentam a análise filosófica. Nesse sentido, cada tipo de pergunta requer uma resposta específica. Com "o que é", pergunta-se qual a natureza de, portanto, busca-se uma definição. "Pode-se" ou "pode..." ou "é possível..." verbo e locução que concentram três idéias: possibilidade lógica, física e moral. "Em que" ou "como" ou "em que medida" pede-se para justificar o enunciado, explicar em virtude do que ele é justo. "É preciso" ou "deve-se" ou "é forçoso..." interroga-se sobre a questão da necessidade, da exigência. "É justo afirmar que..." ou "será verdade que..." ou "o que você acha de..." não se pede a nossa opinião, como se estivéssemos sendo entrevistados, mas uma reflexão sobre um juízo.

E quando o pensamento entra em pane? O que fazer? 1.º) decompor a palavra em todas as suas formas: verbo, adjetivo, substantivo, advérbio etc.; 2.º) fazer uso dos sinônimos e dos antônimos; 3.º) nada rejeitar a priori, pois somente após um confronto com o enunciado do problema é que teremos condições de aceitar ou não; 4.º) utilizar a técnica do "em outras palavras", a qual permite reformular a mesma idéia; 5.º) somente recorrer a um autor se o mesmo tratar do tema em questão.

A reflexão filosófica deve ser de fundo e não de forma. Muitas vezes direcionamos a nossa energia mental para assuntos que só servem para preencher o tempo. Lembremo-nos de que esta atitude não representa o verdadeiro exercício filosófico. Este, para ser verdadeiro, deve atender à nossa necessidade interior de construção do conhecimento. Percebamos, pois, que é somente com esse esforço hercúleo que o aprendizado torna-se propriedade do ato de pensar.

Estejamos sempre prontos para recomeçar. Quer queiramos ou não, a vida se nos apresenta eternamente de forma criativa, pois todo o momento é sempre único na passagem do tempo.

Fonte de Consulta

ARONDEL-ROHAUT, M. Exercícios Filosóficos. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

Julho/2000

POSIÇÃO E OPOSIÇÃO

"Há algo de identidade no diferente".

Dê um tema para ser desenvolvido, apresente um problema para ser resolvido, sugira um assunto para ser discutido, elabore uma questão para ser debatida... Depois, observe o resultado: cada pessoa irá expressar a sua idéia de um ponto de vista diferente, embora se tratando do mesmo assunto. Uns darão ênfase ao lado afetivo, outros ao lado científico, outros ao lado filosófico, outros ainda ao lado religioso.

A tese do diferente na identidade está em Metafísica, de Aristóteles, que diz: "... O que é diferente de alguma coisa é sempre diferente por qualquer coisa, e tanto assim que deve necessariamente haver algo de idêntico, pelo que são diferentes". Há, também, citações de outros pensadores: Empédocles falava que "Os vértices dos discursos acabavam por percorrer um único caminho"; Pascal dizia que "A nossa natureza é sempre movimento, pois o repouso é a morte"; Heráclito afirmava que "O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo".

Para o bom senso comum, a oposição é detestável, pois as pessoas que assim pensam são avessas ao diálogo, à discussão, à elaboração dos prós e dos contras. Os grandes pensadores, contudo, pensam de forma diferente. Sócrates, por exemplo, era um grande incentivador da arte de discutir. No contexto histórico, a dialética de Hegel ficou famosa. Segundo este filósofo, a tese (posição), a antítese (oposição) e síntese (conclusão) são os elementos básicos para a construção do conhecimento. Esse processo, por sua vez, nunca termina, porque a síntese encontrada torna-se tese para um novo ciclo, e assim sucessivamente.

O par de termos uno/múltiplo, finito/infinito, simples/complexo, todo/parte, abstrato/concreto, identidade/diferença etc é o símbolo da metáfora da enciclopédia. Quer-se, com isso, obter uma noção da realidade total. Elaborar uma enciclopédia prende-se a esse fim. Observe, por exemplo, a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Em cada verbete há explicações religiosas, científicas, filosóficas e outras que se fizeram necessárias. Com isso, tem-se uma visão geral do termo analisado, incluindo-se os seus vários significados e aplicações práticas.

Para o ser humano de mente aberta, as coisas se ajustam melhor. Como tudo está em movimento, ele irá enfrentar cada situação como se fosse a primeira. Não se prenderá aos chavões, à tradição ou ao desânimo. Sabe que tudo se modifica: o que ontem era ídolo, hoje ninguém presta mais homenagem; por isso, não se importa quando este ou aquele não pensa pela sua cabeça. Ao contrário, até incentiva que os outros pensem de forma diferente, no sentido de não criar adeptos ou mesmo fazer proselitismo. Krishnamurti, filósofo indiano, era um mestre em fazer a pessoa pensar pela própria cabeça.

Enfrentemos serenamente as oposições e as contradições que se nos apresentarem. Sem elas não seríamos capazes de tomar consciência de nossos defeitos e das nossas limitações.

30/5/2007

 

SABEMOS REALMENTE PENSAR?

 

A proliferação dos "cafés filosóficos", das "cervejas filosóficas", da "ciberfilosofia", da "filosofia clínica" e da filosofia para a terceira idade dá a impressão que estamos assistindo a um boom filosófico no mundo todo. Será verdade? Devemos ser otimistas? Será que as pessoas estão realmente pensando melhor, raciocinando com mais clareza ou pensando pela própria cabeça?

De acordo com Gadamer, a experiência em filosofia difere radicalmente da experiência em ciência. Ele diz: "Em sentido estrito, não é possível fazer a mesma experiência duas vezes". Ela é única. A ciência só faria a primeira experiência; as outras, repetições da primeira, são experimentos. Exemplo: faz-se uma experiência e descobre-se que a água ferve a 100º C. Todos os que repetirem esse experimento chegarão ao mesmo resultado. O pensamento filosófico, ao contrário, tem que ser sempre criativo, não-dogmático, ou melhor, aberto a novas experiências.

Baseando-nos na idéia de que a experiência em filosofia difere radicalmente dos experimentos em ciência, podemos afirmar que há muitos procedimentos que nos fazem imitar, repetir e padronizar, em vez de pensar. A imagem do pensamento, por exemplo, é uma forma de retrair o nosso próprio pensar. Como? Ao nos valermos do pensamento de Sócrates, Platão, Santo Agostinho e outros, podemos estar apenas repetindo, imitando o que eles disseram, mas sem pensar pela nossa própria cabeça.

O que merece a nossa atenção é aquilo que não pode deixar de ser pensado. Quando algo vem à nossa mente e dela não podemos nos livrar, aí realmente pensamos. Daí emerge o pensamento criativo, aquele que tem que ser enfrentado para que se dê uma solução ao nosso problema, à nossa dificuldade. É como estarmos, sozinhos, no meio de uma floresta. Estamos perdidos, mas temos que tomar uma decisão, escolher um rumo para sairmos de lá. Não há ninguém por perto, nenhum instrutor, nenhuma resposta padronizada.

Pensar é rejeitar os modelos padronizados. Para pensar bem, temos que refletir e verificar o que está certo e o que está a errado em relação a um modelo preestabelecido. Se estivermos repetindo o pensamento do outro, não estaremos criando, não estaremos pensando. É aí que entra o professor. O professor não pode ensinar matéria sem avivar o pensamento do aluno para que este pense por sua própria cabeça. Deixar aprender é a maior façanha que alguém pode fazer na vida.

Busquemos o conhecimento, venha ele de onde vier. Estejamos convictos, porém, de que ele possa atender a uma necessidade peremptória de nosso espírito imortal.

Fonte de Consulta

KOHAN, Walter Omar. Perspectivas atuais do Ensino de Filosofia no Brasil. In FÁVERO, Altair Alberto et all (Org.). Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijui, 2002 (Coleção filosofia e ensino)

Julho/2006

 

SOBRE O PERGUNTAR

Ensinar a pensar é, em suma, ensinar a perguntar.

Sócrates, na antiguidade clássica grega, inaugurou o método – a maiêutica –, que consistia em perguntar. As suas perguntas não tinham a pretensão de encerrar uma questão ou mesmo de ser a última palavra sobre um determinado problema. Seu objetivo era o de aprofundar o tema proposto. Dizia que, à semelhança de sua mãe, que era parteira e ajudava vir à luz uma criança, ele, através das perguntas, fazia vir à luz novas idéias, novos conhecimentos.

A relação ensino-aprendizagem pressupõe perguntar e responder. O professor, ao ensinar, faz perguntas e verifica se o aluno aprendeu aquilo que lhe foi transmitido. Há um condutor, o professor, ao qual o aluno deve obediência. A educação, porém, difere do ensino propriamente dito, embora faça uso dele. Na educação, todos participam do processo de aprendizagem. Na educação verdadeira, o aluno é quem deveria fazer a pergunta e o professor responder. Somos ensinados a responder e não a perguntar.

A resposta, muitas vezes, bloqueia o processo de construção de conhecimento. Quando já sabemos a resposta, não procuramos aprender mais. O comodismo não nos leva à pesquisa e ao debate sobre o tema, pois já o temos como definitivo. Se, porém, nos colocássemos humildemente numa posição de ouvir o outro, ou de aprender com o outro, com certeza estaríamos incentivando a pergunta, venha ela de onde vier.

O que é uma pergunta filosófica? A questão quem sou eu é uma pergunta filosófica? Depende muito da resposta que lhe dermos. Se simplesmente falarmos o nosso nome, a nossa idade, o nosso estado civil, tudo isso em nada contribui para o filosofar. Para que ela seja fundamentalmente uma pergunta filosófica ela tem a ver com a reflexão sobre o nosso modo de ser, o nosso modo de pensar, o nosso modo de tratarmos a nós mesmos e aos outros.

A pergunta é o foco diretor; ela delimita a resposta. Por isso, temos que reaprender a perguntar. Somente assim vamos dando maior legitimidade à nossa necessidade peremptória de viver. É a pergunta vinda de dentro de nós, do nosso âmago que nos traz o prazer de pesquisar, de buscar, de aprender. Há perguntas e perguntas. Convém, de nossa parte, procurar as perguntas relevantes sem, contudo, ter a pretensão de respondê-las totalmente. O importante é perguntar, pois alguém sempre saberá dar a resposta.

O alvo da filosofia é fazer perguntas certas, não descobrir respostas certas. Procuremos em nossos colóquios, em nossas reuniões de ensino, incentivar o surgimento das perguntas por parte daqueles que estão participando conosco.

Julho/2006

SOBRE A ARTE DE PENSAR

 

A admiração, já apregoada pelos primeiros filósofos gregos da antiguidade, é um dos requisitos fundamentais na arte de pensar. Ela pode ser vista sob dois aspectos: passivo e ativo. Na admiração passiva, captam-se contemplativamente os estímulos da realidade; na admiração ativa, exige-se o uso da dialética, pois esta obriga-nos a perguntar e responder, tal qual fazia Sócrates, com a sua ironia e a sua maiêutica. Cabe-nos estabelecer uma relação equilibrada entre essas duas formas de construção do conhecimento.

A invenção é o arcabouço teórico do pensamento. É a partir dela que o nosso pensamento se exercita. A maioria das vezes é expressa pela fórmula "lucem demonstrat umbra", ou seja, é a sombra que nos faz conhecer a luz. Pensar, muitas vezes, é suplantar uma situação confusa, nebulosa e irracional. Assim, o pensamento parte sempre do falso para o verdadeiro, do erro para a verdade, da sombra para a luz. Sobre a invenção, Napoleão dizia: "desenvolvo sempre o meu tema de muitas maneiras".

Escolher é excluir. Quando pensamos em algo, recusamos tudo o mais. Para que possamos desenvolver plenamente a arte de pensar, há necessidade de abandonarmos aquilo que não nos interessa, aquilo que não faz parte do nosso projeto de vida. Para tal, o procedimento correto seria: escolha de um assunto de nosso interesse, aprofundando-o o máximo possível, para daí extrair os sucos saborosos do aprendizado. O diaphora eidopois (a diferença que especifica) deve ser muito enfatizada, para entendermos o uso correto das palavras.

A distinção dos termos é outra faceta na arte de pensar. Sob esse mister, não são poucas as palavras que apresentam dubiedades. Para isso, precisamos dar às palavras o seu sentido exato, e se não for possível, o mais próximo de um perfeito entendimento. Usamos constantemente as palavras amor, humildade, egoísmo e orgulho. Será que consideramos os dois lados da questão, como por exemplo, o egoísmo virtuoso e o vicioso? Dentro desse contexto, podemos afirmar que há muitos ateus que são mais religiosos do que os próprios religiosos, porque ter uma religião não significa necessariamente que a pessoa seja religiosa.

A contradição é o esgrima do pensamento. Santo Tomás, em sua Suma Teológica, usava constantemente o sed contra est (mas em contrário se diz). Isso quer dizer que deveríamos rejeitar todo o pensamento que parece correto, a fim de adquirir um conhecimento mais próximo da verdade. As frases, "supor que o impossível exista é um dos preceitos da arte de inventar" e "a arte de pensar consiste em supor, por um momento, que as coisas poderiam ser o contrário do que são", servem perfeitamente para ilustrar essa questão.

O pensamento sempre precisa de combustível. Se não lhe dermos o alimento de que necessita, ele pode se atrofiar. A solução: nunca estejamos de todo ociosos: ora lendo, ora escrevendo, ora refletindo, eis o exercício por excelência.

Fonte de Consulta

GUITTON, J. Nova Arte de Pensar. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1966.

Janeiro/2006

 

 

 

 

 

 

 

 

OS FILÓSOFOS E SUAS IDÉIAS

 

 

DE COPÉRNICO A DESCARTES

 

Até o Século XVI, a maneira de pensar que prevalecia na Europa era proveniente das crenças teóricas vindas de Aristóteles e outros gregos antigos, e das crenças doutrinais que derivavam da Bíblia e da Igreja. Os filósofos medievais eram homens de formidáveis raciocínios intelectuais, mas os problemas em que exercitavam suas mentes estavam distantes do mundo real que os rodeava.

A ciência moderna começou com a revolucionária teoria heliocêntrica do astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543). Antes dele, a visão do mundo provinha da teoria de Ptolomeu, que incorporada à doutrina da Igreja, descrevia a Terra como o centro do universo. Copérnico, ao afirmar a falsidade da teoria de Ptolomeu, indiretamente contrariava a doutrina da Igreja. Esta, sem dúvida, foi a razão pela qual demorou a tornar pública a sua descoberta científica.

Em seguida, surge Francis Bacon (1561-1626), o pai da ciência na Inglaterra. Bacon era um homem extremamente versátil: advogado, estadista, moralista, ensaísta, literário e filósofo. Sua fama não provém de alguma descoberta científica, mas do método que emprestou à ciência e às inspirações dos novos cientistas. A sua contribuição, que hoje nos parece óbvia, diz respeito ao seu empiricismo: observar a natureza, conduzir experimentos e formular leis naturais, através da indução.

Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, deu continuidade à rebelião contra a filosofia aristotélica da Idade Média. Sendo amigo de Francis Bacon, foi por ele fortemente influenciado, principalmente na observância das leis naturais. Hobbes apenas não aceitou o empiricismo de Bacon, preferindo optar pelas idéias de Galileu que conheceu na Itália. Galileu incutiu-lhe na mente a ambição de construir a ciência do homem natural e da sociedade - ciência que deveria ser a perfeição racional da geometria. Hobbes acreditava que poderia deduzir do conhecimento da natureza, o conhecimento da natureza humana e do conhecimento da natureza humana, o conhecimento das sociedades políticas.

Dentro desse contexto, surge René Descartes (1596-1650), ampliando a ojeriza pelos ensinamentos da escolástica. Em realidade, o plano da sua dialética não era o de descobrir verdades, mas o de descobrir o espírito para a verdade. Sendo assim, o seu método consistia na dúvida metódica, ou seja, começava qualquer raciocínio duvidando de tudo: de Deus, dele próprio e do seu semelhante. Depois, através das várias aproximações do próprio raciocínio, chegava à posse do conhecimento verdadeiro.

Como vemos, as idéias não surgem isoladamente. Elas ampliam-se ao passarem de uma mente para outra. Procuremos, assim, buscar esses elos de ligação para melhor compreendermos a dimensão de nossa evolução cultural e espiritual.

Fonte de Consulta

CAMERON, J. (Editor). Growth of Ideas: Knowledge, Though and Imagination. New York, Doubleday & Company, 1966.

Agosto/1997

DESCARTES E O MÉTODO

 

O cartesianismo – proveniente de Descartes – é considerado, por muitos historiadores da filosofia, como a passagem da filosofia do renascimento à moderna. Descartes, em seu Discurso do Método, enfatiza as duas armas necessárias à concretização do seu programa de conhecimento: liberdade do arbítrio e a disciplina consciente a que deve livremente se submeter para conhecer segundo a razão. Ao lado desses dois, acrescenta um terceiro: Deve haver uma razão em nós e no mundo, sem o que não seria possível nem proveitoso dispor de nossa liberdade e de nossa disciplina para conhecer.

A filosofia de Descartes foi desenvolvida fora da universidade. Por isso, suas críticas ferrenhas aos postulados escolásticos, ligados à tradição. Começou com correspondências, que enviava a vários pensadores da época. Somente depois, transformou essas discussões num tratado. Além do mais, o Discurso do Método foi escrito originariamente em francês, contrariando o hábito da época, que era o de escrever textos filosóficos e científicos em latim.

Descartes se propõe buscar a solução a partir do problema. Desejava encontrar, por si mesmo, uma solução evidente que permitia reorganizar nossos juízos e separar neles o falso do verdadeiro. Dizia: "Na menor dúvida tome algo por falso"; "prefira errar dizendo que uma coisa é falsa a errar dizendo que ela é verdadeira". Daí, as suas quatro célebres regras, cujo objetivo era auxiliar a resolução de qualquer problema, porque as regras tinham um caráter geral e não técnico.

 

Em suas regras, chama-nos a atenção sobre a precipitação e a prevenção, dois graves erros que cometemos na busca do conhecimento. A precipitação é a tendência de julgar mais rápido do que o recomendável; a prevenção, a tendência a evitar a responsabilidade de um juízo, seguindo uma opinião pré-fabricada. Toma, assim, a resolução de se desfazer de todas as opiniões que recebera até então. Faz tábua rasa e começa o seu labor para conhecer a verdade das coisas.

 

Em suas lucubrações filosóficas, diz que o pior precipitado não é aquele que erra dizendo "isso é falso"; é o que erra dizendo "isso é verdadeiro". Afirma que há apenas um instrumento para resgatar as verdades que porventura tenham sido rejeitadas inicialmente: são as evidências. Em seu modo de ver as coisas, achava que somos livres para aceitar o falso, para errar. Podemos, ainda, impor os nossos erros aos outros, bastando termos força ou engenho suficientes para isso.

Uma análise detalhada de cada regra do seu Discurso do Método auxiliar-nos-á a melhorar a nossa maneira de pensar e de buscar, por nós mesmos, o conhecimento que necessitamos.

Fonte de Consulta

VIEIRA, Paulo Neto. Descartes e o Método da Filosofia. In FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

7/3/2007

 

DESCARTES E A FILOSOFIA MODERNA

 

As idéias desenvolvidas por Aristóteles (384-322 a.C.) influenciaram as especulações filosófico-religiosas da Idade Média. Esse período, denominado de Escolástica, retratava a dependência da Filosofia à Religião. Exercitava-se o intelecto, baseando-se nas regras do silogismo. Procuravam explicar logicamente o cristianismo, lutando por excluir o espírito místico do pensamento até então. A finalidade maior era conciliar fé com razão.

René Descartes (1596-1650) insatisfeito com as informações adquiridas dos mestres e dos livros, faz tábua rasa, e, constrói o seu próprio método de obtenção do conhecimento. O verdadeiro ponto de partida da Filosofia cartesiana é a matemática, visto oferecer evidência e certeza. Os princípios incondicionados desta ciência, permite a Descartes romper com o modelo de pensamento estabelecido pela Escolástica.

Para Descartes, a Filosofia depende da matemática. O fato dá origem a uma idéia fundamental: a verdadeira filosofia deve ser um tratado do método. Estabelece, assim, suas quatro célebres regras: 1) não admitir verdadeira coisa alguma que não se saiba com evidência que o é; 2) dividir cada dificuldade em quantas partes seja possível e em quantas requeira sua melhor solução; 3) conduzir ordenadamente os pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis de conhecer, para ascender, gradualmente, aos mais compostos; 4) fazer uma recontagem tão integral e razões tão gerais, que se chegue a estar certo de não omitir nada.

Seu método inclui a dúvida metódica. Como se explica? Parte do conhecimento centrado em si mesmo. Dizia: "Cogito ergo sum", penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a idéia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

As regras do seu método, o estabelecimento da dúvida, o conhecimento centrado na razão e o conceito de subjetividade transcendental influenciaram o pensamento filosófico posterior, tendo Spinoza, Malebranche, Leibniz e Kant como seus maiores seguidores. Hoje, a metafísica, traz em seu bojo, as influências cartesianas, quando muda o enfoque dado ao ser para o sujeito.

A Filosofia, ao contrário da ciência, pertence a uma história. Não resta dúvida que Descartes foi um dos grandes construtores dessa História da Filosofia. Estudemo-lo, assim, com mais ardor.

Fonte de Consulta

JERPHAGNON, L. Dicionário das Grandes Filosofias. Lisboa, Edições 70, 1982.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

Outubro/1993.

DESCARTES: SÍNTESE DAS IDÉIAS FILOSÓFICAS

 

René Descartes (1596-1650), insatisfeito com as informações adquiridas dos mestres e dos livros, faz tábua rasa, e, constrói o seu próprio método de obtenção do conhecimento. O verdadeiro ponto de partida da Filosofia cartesiana é a matemática, visto oferecer evidência e certeza. Os princípios incondicionados desta ciência permitem a Descartes romper com o modelo de pensamento estabelecido pela Escolástica. O rigor matemático de suas análises o influenciam a conceber Deus, Espírito e Matéria, em termos mecanicistas, desprezando a forma, as idéias e os universais.

As suas suposições sobre o Universo, Deus, Espírito, Matéria etc. originavam-se na hipótese da existência de uma substância. A substância, por sua vez, é aquilo que existe por si e independente de qualquer outra coisa. Havia, assim, uma substância absoluta – Deus – e substâncias relativas, provenientes da primeira, que eram o espírito e o corpo. Ao afirmar que a substância espírito era distinta da substância corpo, acabou criando o dualismo, teoria esta contestada por outros pensadores, não só de sua época, como também de tempos posteriores.

A substância espírito – res cogitans - tinha como atributo o pensamento; a substância corpo – res extensa – tinha como atributo a extensão (comprimento, largura e espessura). Sendo um independente do outro, encontrou grande dificuldade para relacioná-los. Perguntava: como se explica, então, que, se uma pessoa desejar andar, anda? O espírito diz-nos ele, é perturbado pela matéria por meio dos processos que se verificam no corpo. O espírito e o corpo fazem contato com a glândula pineal. O corpo ou o espírito move-a. Qualquer que seja o caso, o movimento é transmitido ao outro que, então, também se move: eu quero andar; transmito o movimento à glândula pineal; esta o transmite ao corpo, e eu ando.

Em seu Discurso do Método, o indivíduo deve partir de premissas que não possam ser contestadas. Parece-lhe que a Matemática fornecia tais premissas. Via, nela, o modelo do raciocínio exato, o método de raciocinar com base em verdades evidentes – procurou as verdades evidentes por si mesmo – a única que descobriu foi: Penso, logo existo. Tomando-a, como base, formulou um corpo de idéias que acreditava não pudessem ser contestadas. Tais idéias, para ele, eram claras, distintas e, portanto, verdadeiras e fora de discussão.

Como Descartes chega à prova da existência de Deus? Dizia: "Cogito ergo sum", penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a idéia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

Assim, o conhecimento vem ao homem não pela percepção dos sentidos, mas através de cuidadoso raciocínio. Partindo-se de premissas fundamentais, cada idéia só poderá ser aceita depois de ser deduzida logicamente e mostrar-se que é clara e distinta.

Setembro/2005

EPICTETO E SUA ARTE DE VIVER

 

Epicteto não nos deixou escritos filosóficos. Os pontos principais de sua doutrina foram preservados graças ao historiador Flávio Arriano, um de seus alunos. Arriano transcreveu em grego um número considerável de palestras de seu mestre. Essas palestras, conhecidas como os Discursos (ou Diatribes) foram originalmente reunidas em oito livros, dos quais apenas quatro subsistiram até nossos dias. O Manual de Epicteto (ou Enchiridion) é um conjunto de trechos selecionados dos Discursos que forma um resumo conciso da essência dos ensinamentos de Epicteto.

Epicteto nasceu escravo por volta de 55 d.C., em Hierópolis, Frigia, no extremo oriental do império Romano. Seu mestre foi Epafrodito, o secretário administrativo de Nero. Dado seu talento intelectual, Epafrodito mandou-o a Roma para estudar com o famoso professor estóico Gaio Musônio Rufo. Tornando-se o aluno mais aclamado de Musônio Rufo, acabou sendo libertado da escravidão. Epicteto ensinou em Roma até o ano 94 d.C., quando o imperador Domiciano, ameaçado pela crescente influência dos filósofos, expulsou-o de Roma. Passou o resto de sua vida no exílio em Nicópolis, na costa noroeste da Grécia. Ali fundou uma escola filosófica e passou seus dias fazendo palestras sobre como viver com mais dignidade e tranqüilidade.

A base de seus ensinamentos encontra-se na clara distinção entre aquilo que se pode controlar e aquilo que não se pode. Dizia ele que podemos controlar nossas opiniões, aspirações e desejos e as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Fora do nosso controle estão as circunstâncias, as intempéries do tempo e o fato de ter nascido rico ou pobre. Tentar controlar aquilo que não pode ser controlado gera angústia e aflição. Por isso, pede que evitemos assumir as questões dos outros, porque estas tiram-nos ou desviam-nos do nosso caminho.

Anotemos alguns de seus pensamentos: "tudo tem um bom motivo para acontecer"; "aceite os acontecimentos à medida que ocorrem"; "não são os acontecimentos que nos ferem, mas a visão que temos deles"; "nunca dependa da admiração dos outros, mas crie o seu próprio mérito"; "evite adotar os pontos de vistas negativos de outras pessoas, porque eles podem ser contagiosos"; "a busca da sabedoria atrai críticas"; "ao tentarmos agradar outras pessoas, corremos o risco de nos desviarmos para o que está fora de nossa esfera de influência".

Para Epicteto, a meta principal da filosofia é ajudar as pessoas comuns a enfrentar positivamente os desafios cotidianos e as dificuldades da vida. É, comparativamente, um modelo taoísta para o Ocidente, pois sua filosofia identifica-se com a arte de viver. Assim sendo, a filosofia deve responder ao apelo da alma. Pode-se dizem também que a verdadeira filosofia não envolve rituais exóticos, liturgias misteriosas ou crenças originais. É, sim, o amor à sabedoria, a arte de viver.

Embora devamos pensar por nós mesmos, uma reflexão sobre o modo de pensar dos outros, muito contribui para o nosso engrandecimento espiritual. Não importa de onde veio o ensinamento; basta apenas que o coloquemos em prática.

Fonte de Consulta

EPICTETO. A Arte de Viver: uma nova interpretação de Sharon Lebell. Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

Fevereiro/2006

O EXISTENCIALISMO SARTREANO

 

Jean Paul Sartre (1905-1980) – filósofo francês – teve seu nome associado ao "existencialismo", corrente filosófica do século XX. Este termo "existencialismo" não foi cunhado por Sartre, mas pela mídia com o propósito de identificar a jovem geração de filósofos e escritores do pós-guerra na França. Assumiu a etiqueta "existencialismo" por ocasião de sua conferência O existencialismo é um humanismo, em outubro de 1945. O objetivo da conferência era defender-se das críticas, das acusações e das más interpretações que acompanharam a sua celebridade. Queria esclarecer os fatos, tirar as dúvidas, ou seja, colocar cada coisa no seu devido lugar.

O tema subjetividade ou sujeito concreto é a base de sua filosofia. Para Sartre, o sujeito concreto é o sujeito do dia-a-dia, aquele que está no trabalho, no bar, no lar, na escola. Separa, assim, o sujeito abstrato do sujeito concreto, ou seja, o sujeito conceito do sujeito real, palpável. Desta forma, quando dizemos: "isto é uma árvore", não estamos nos referindo ao conceito árvore, mas a uma árvore específica, aquela que se apresenta diante dos nossos olhos. Deduz-se que o sujeito sartreano está sempre envolto numa experiência.

O sujeito concreto é o ser-no-mundo. O mundo concreto não é o "universo", o "planeta", "o cosmos". O ser-no-mundo é a consciência do sujeito projetando-se para diante de si no mundo, para os seus afazeres. É o sujeito que tem um corpo e busca os fins últimos de sua existência. É o sujeito ativo. Não é o sujeito conceito, o sujeito forma, o sujeito abstrato. Pode-se dizer que é o sujeito efetivo. Tudo isso só pode ser realizado dentro de uma experiência, própria de cada sujeito.

A existência precede a essência é a chave de sua filosofia. Com essa afirmação, quer nos fazer crer que o sujeito não é um modelo criado por Deus ou por qualquer outra entidade. Esse sujeito nasce como se fosse uma folha em branco, uma tabula rasa. Conforme vai vivendo, vai experimentando, vai também preenchendo essa tábua, ou seja, vai construindo a sua essência. Tese eminentemente materialista, em que pressupõe nada existir antes e nada existir depois que o corpo se for para a tumba. Para Sartre, o homem só vive o momento presente: ele não tem nem passado e nem futuro.

O que o sujeito efetivamente percebe? Lembremo-nos de que o sujeito, para Sartre, é aquele que experimenta o aqui e agora. Em outros termos, ele vive de acordo com a sua percepção, a sua subjetividade. A percepção tem, para Sartre, um sentido mais largo do que o simples ato de observar uma cena. Um exemplo: há uma mesa à nossa frente. Nossa visão capta apenas parte dela. Isso não atrapalha a teoria de Sartre, pois, segundo ele, o indivíduo tem capacidade de ultrapassar os aspectos presentemente dados. O sujeito capta não só a forma, mas o fundo também.

O existencialismo sartreano chama-nos à atenção para a liberdade do sujeito concreto. A escolha é um imperativo desse sujeito, pois mesmo não escolhendo ele já fez a sua escolha, ou seja, a de não escolher.

Fonte de Consulta

MOUTINHO, Luiz Damon. Sarte: A Liberdade sem Descupas. In. FIGUEIREDO, Vinicius de. Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis e Vertecchia, 2006

14/3/2007

OS GRANDES PENSADORES DO MUNDO

 

O homem sempre foi visto numa dimensão ampla e complexa. Poderíamos concebê-lo no âmbito do universo indagando sobre o cosmo, as estrelas e a relação entre os diversos globos. Poderíamos, também, indagar sobre a sua origem, a sua constituição, a necessidade de estar no planeta terra e o modo como se relaciona com os outros seres humanos. É dentro desse contexto que descrevemos, a seguir, os diversos pensadores e sua principal obra representativa.

Começando pelos filósofos especulativos que trataram da relação entre o homem e o Espírito, citamos: Santo Agostinho (354-430) - A Imortalidade da Alma, Tomás de Aquino (1225-1274) - O Tratado do Governo Divino, Benedictus Spinoza (1632-1677) - Os Fundamentos da Vida Moral, Blaise Pascal (1623-1664) - Os Pensamentos, David Hume (1711-1776) - Inquirição sobre o Entendimento Humano, Immanuel Kant (1724-1804) - Crítica da Razão Pura e Friedrich Nietzsche (1844-1900) - Modo Religioso.

Depois, lembrando os filósofos sociais que trataram da relação do homem com o próprio homem, anotamos: Aristóteles (384-322 a. C.) - A Ética a Nicômaco, Platão (428?-348? a. C.) - A República, Marco Aurélio (121-180) - Meditações, Confúcio (551-478 a. C.) - A Sabedoria de Confúcio, Michael de Montaigne (1533-1592) - Os Meios Ilícitos empregados para a Obtenção dos Fins Lícitos, Ralph Waldo Emerson (1803-1882) - Auto-Confiança e John Dewey (1859- ) - Moral e Conduta.

Posteriormente, dentre os filósofos políticos que trataram do homem e sua relação com o Estado, citamos: Thomas Hobbes (1588-1679) - A República, John Locke (1632-1704) - O Governo Civil, John Stuart Mill (1806-1873) - A Liberdade, Jean Jacques Rousseau (1712-1778) - O Contrato Social, Henry David Thoreau (1817-1862) - Desobediência Civil, Adam Smith (1723-1790) - A Riqueza das Nações, G. W. F. Hegel (1770-1831) - História Filosófica e Karl Marx (1818-1883) - O Manifesto Comunista.

Finalmente, os filósofos da ciência que trataram do homem e sua relação com o universo: Lucrécio (99-55 a. C.) - A Natureza da Coisas, Nicolau Copérnico (1473-1543) - A Revolução da Esfera Celestial, Francis Bacon (1561-1626) - Novo Organon, René Descartes (1596-1650) - O Discurso do Método, Augusto Comte (1798-1857) - Filosofia Positiva, Charles Darwin (1809-1882) - A Origem das Espécies, Henri Bergson (1859-1941) - Evolução Criativa, Sigmund Freud (1856-1939) - O Método da Interpretação dos Sonhos e Albert Einstein (1879- ) - O Problema do Espaço, Éter e o Campo na Física.

Reverenciemos esses grandes pensadores da humanidade, mas não nos esqueçamos de todos aqueles colaboradores anônimos que os auxiliaram de uma forma ou de outra.

Fonte de Consulta

COMMINS, S. The World’s Great Thinkers. New York, Random House, 1947. (4 volumes).

Setembro/1997.

A POLÍTICA E O GOVERNO SEGUNDO MAQUIAVEL

 

Antes de Maquiavel, o governante de um país era comparado ao piloto de um navio. São Tomás de Aquino (1227-1274), por exemplo, no seu tratado De Regno (Do Reino), dizia que ao piloto de um navio cabem duas funções: a) preservar o navio para que não se afunde e sofra avarias; b) conduzir o navio ao porto. Do mesmo modo é o governante de uma República, ou seja, deve conduzir o povo, no sentido de não haver dispersão e, ao mesmo tempo, encaminhá-lo para a prática da virtude.

Maquiavel (Nicolò machiavelli, 1469-1527), em O Príncipe, pensa o governo de forma inédita: aceita a primeira função, que é a de preservar o governo das avarias, porém faz silêncio sobre a condução do povo à virtude. Cabe ao governante deixar a República intacta, não resta dúvida; quanto ao realizar a justiça, tem suas dúvidas. O Príncipe retrata o descontentamento do seu autor por ter sido banido da vida pública. O que está por detrás do livro é a aparência do bom e do virtuoso que o condutor do povo deve ter. Não importa se o ser humano é virtuoso, mais vale parecer virtuoso.

Até a vinda de Maquiavel, os manuais de política procuravam dizer ao príncipe o que ele deveria fazer para bem conduzir o seu povo. Para Maquiavel, o governante tem que saber resolver conflitos. A experiência mostra, segundo ele, que a vida social é constituída por um conflito fundamental entre dois grupos sociais – os grandes e o povo. O desejo dos grandes é governar e oprimir o povo; o desejo do povo é não ser oprimido pelos grandes. No capítulo IX de O Príncipe, escreve: "Em todas as cidades se encontram estas duas tendências diversas".

 

O livro de Maquiavel pode ser dividido em duas grandes partes: do capítulo 1.º ao 15.º, trata dos diversos tipos de principados e de como administrá-los. Nesses capítulos exalta-se que a força é um elemento constitutivo de poder político. Além disso, essa força deve ser uma mediadora de conflitos, porque não se pode agradar a todos em todos os momentos. Na segunda parte, trata de como o príncipe pode parecer bom aos outros. Hoje, esse trabalho é feito pelos marqueteiros.

De um lado, diz que príncipe deve cuidar para ser bem visto para poder governar. Do outro lado, diz que o príncipe deve aprender a não ser bom. Como conciliar essa duas afirmações? Eis a questão proposta por Maquiavel. O príncipe precisa às vezes frustrar as expectativas que se depositam sobre ele. O que está em jogo é que a melhor ação nem sempre é aquela que é vista e avaliada como boa, nem a pior ação é aquela que é vista e avaliada como má. O cenário político é um jogo em que os mais argutos (chamados sofistas na Antiguidade) acabam vencendo os mais justos.

Embora tenha escrito este livro como uma resposta ao seu banimento da vida pública, O Príncipe de Maquiavel é um clássico e, muitas das suas idéias, estão presentes em nossa vida política atual.

Fonte de Consulta

LIMONGI, Maria Isabel. Ética e Política n’O Príncipe de Maquiavel. In FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

7/3/2007

 

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

 

Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) nasceu no Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Ciências Sociais pela Faculdade de Direito de Porto Alegre. Foi advogado, diretor de jornal, tradutor, professor e escritor multiprismático. Dentre as várias traduções, citam-se "Assim Falava Zaratrusta" e "Vontade de Potência", de Friedrich Nietzsche. Uma das críticas que mais recebeu foi a da extrema produtividade intelectual que causou, e ainda causa, estranheza. Dizia ser filósofo e não professor de filosofia. Em 1930, quando tinha 23 anos, foi preso em virtude de seus ideais libertários.

O pensamento de Mário Ferreira dos Santos era robusto, pois procurava abarcar tudo o que de bom existia nas diversas escolas filosóficas. Era, por essa razão, chamado de ecumênico. Na sua busca procurava reter o que era positivo, ou seja, aquilo que servia para construir o homem. Nesse sentido, dizia que "O homem é um fim e não um meio. Utilizá-lo, transformá-lo em peça de um mecanismo, é ofender a sua dignidade". Falava também que "todo homem deve viver e morrer como um guerreiro". Por defender convictamente as suas idéias, era tachado de persona non grata em alguns círculos de ação.

Combatia exaustivamente a atitude brasileira de dar valor ao importado. Acreditava na possibilidade do povo brasileiro... "Todos aqueles que no Brasil revelaram possuir mente filosófica, e não foram muito numerosos, mas, contudo, foram brilhantes, tenderam sempre a um pensamento sintético; isto é, não ficaram totalmente dependentes às correntes filosóficas européias". O que na realidade tinha em mente era defender a sua pátria, dando, ao mesmo tempo, apoio e coragem para que o brasileiro – jovem ou adulto – fosse o construtor do seu próprio destino, e também de seu país.

A obra de Mário não tem similar, nem por sua extensão oceânica, mais de cem volumes publicados e trinta inéditos, nem pela orientação muito peculiar de seu pensamento, onde as influências mais díspares, de Sto. Tomás a Nietzsche, e Pitágoras a Leibniz, de Platão a Proudhon, se harmonizam numa síntese radicalmente original. Escreveu artigos políticos e de cultura para os jornais Opinião Pública, de Pelotas, e Diário de Notícias e Correio do Povo, de Porto Alegre. Foram quase duas centenas de artigos versando, principalmente, sobre aspectos da II Guerra Mundial.

Na sua crise religiosa, converte-se ao cristianismo, demonstrando que "esta é a única religião que não depende de raça nem de ciclo cultural, pois surge de uma revelação através do próprio homem, pedindo a ele que seja perfeito naquilo que lhe é próprio, quer dizer, na superação humana, que se realiza pela purificação da vontade, pela clareza e pela acuidade do pensamento, e pelo acrisolamento do seu amor". Com relação ao ateísmo, dizia que a maioria das contradições se dava em virtude das perguntas mal formuladas. As pessoas divergem com relação ao dogma da Santíssima Trindade, não com relação à existência de Deus.

Eis uma biografia para ser ponderada e refletida. Lutador, guerreiro, libertário de ideais e homem de bem que deu a vida para que a verdade resplandecesse no seio da sociedade.

Fonte de Consulta

www.marioferreira.com.br

Julho/2002

PLATÃO

 

Platão (428-347 a.C.) viveu no final do "século de ouro" da cultura grega, período em que começou a vigorar uma postura mais crítica e autônoma em relação à tradição. Esse período estava associado ao aparecimento da democracia – o novo regime político –, em que foi possível também o surgimento da retórica e da sofística, modos de utilização da palavra intimamente associados à democracia.

Os sofistas eram professores de retórica. Eles percorriam as cidades para vender o seu saber, que era o de ensinar a persuadir pela palavra, não importando muito com o caráter moral da questão. A palavra "sofista" assemelha-se à palavra "filósofo", pois ambas têm origem na palavra grega sophia, que significa "sabedoria". O que diferencia um do outro? O sofista é o "sábio", enquanto o filósofo é "aquele que aspira à sabedoria". Platão passa a combater os sofistas, porque achava que estes dificultavam o livre exercício da justiça no regime democrático.

Como todos os outros jovens de sua época, Platão tinha sido introduzido na retórica. Contudo, teve a oportunidade de conhecer Sócrates, chamado por ele o "mais sábio homem de sua época". A morte de Sócrates, de forma injusta, provocou-lhe uma profunda mudança de concepção. Passou, daí em diante, a defender a filosofia como sendo a única que poderia salvar a cidade dos sofistas. Para ele, somente os filósofos eram capazes de conhecer a verdade, o sumo bem, e, com isso, dirigir corretamente os destinos da cidade, porque não agiriam em causa própria, mas segundo o interesse geral.

Os escritos filosóficos de Platão basearam-se em diálogos e não em tratados. Esses diálogos foram classificados em três tipos: juventude, maturidade e velhice. Os diálogos de juventude ou socráticos representam o questionamento que Sócrates fazia aos sábios da época; nos diálogos de maturidade, Sócrates não aparece interrogando, mas proferindo afirmações que podem ser do próprio Platão; nos diálogos de velhice, Sócrates ainda é personagem, embora nem sempre a principal.

A "Teoria das Formas ou das Idéias", que aparece no Livro VI de A República, é a trave mestra de sua filosofia. É, ainda hoje, muito comentada. Lembremo-nos de que "Forma" não é silhueta, figura ou contorno e "Idéia" não é gestação mental, pensamento. Para Platão, tudo o que vemos no mundo visível tem sua forma perfeita no mundo das idéias. Exemplificando: há vários tipos de mesa, de cadeira, de automóvel. Esses vários tipos de mesa, cadeira e automóvel têm, cada qual, uma única forma ideal. É uma espécie de modelo mental que identifica um objeto, classificando-o como tal.

Platão é um filósofo clássico. Muitas de suas idéias permaneceram no tempo, principalmente aquelas que dizem respeito à reencarnação e à imortalidade da alma. Eis aí uma verdade que deve ser sempre propagada.

Fonte de Consulta

BOLZANI, Roberto Filho. Platão: Verdade e justiça na cidade. In: FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

28/2/2007

PLATÃO E ARISTÓTELES

 

Aristóteles (384-322 a.C.) foi discípulo de Platão (427-347 a.C.), que foi discípulo de Sócrates (470 a 401 a.C.). Eles fazem parte do período clássico da Filosofia grega da Antiguidade. Aristóteles freqüentou por 20 anos a Academia de Platão. Enquanto aluno, respeitava o seu mestre, porém divergia muito das suas idéias, afirmando, inclusive, que era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. Pergunta-se: no que divergiam?

A divergência entre Platão e Aristóteles estava centrada na construção do conhecimento. Platão – idealista – acreditava que as idéias provinham de um outro mundo, o mundo das essências, denominado topus uranus. Aristóteles – realista – acreditava que as idéias provinham das sensações ou do mundo circundante do aqui e do agora. Aristóteles achava que o ser humano não devia ficar preocupado com a contemplação do mundo das idéias, mas viver intensamente o momento presente.

A percepção do conhecimento implicava modos diferentes de analisar as questões: Poder-se-ia vê-las pelo lado sensível ou pela contemplação. Tomemos como exemplo a felicidade. Segundo Platão, a felicidade diz respeito a uma vida futura, àquilo que o individuo poderia esperar pelo que fez de bom ou de ruim nesta vida; Aristóteles, ao contrário, achava que a felicidade era o bem supremo do homem, pois todo o ser humano que alcançasse o fim pelo qual foi criado atingiria esse estado de felicidade.

Sobre a relação ensino-aprendizagem. Platão achava que o indivíduo já trazia no seu subconsciente o conhecimento adquirido em outras vidas. Cita Sócrates ensinando matemática ao escravo. As perguntas de Sócrates faziam desabrochar no escravo o conhecimento que já possuía dentro de si mesmo. Para Aristóteles, o conhecimento tem que ser formado no mundo circundante. Ele é como uma tabula rasa que deve encher a sua memória e o seu intelecto de novos conhecimentos.

De acordo com Marcelo Perine, em Quatro Lições sobre a Ética de Aristóteles, "Para Platão, a phronesis (sabedoria), mesmo quando dirige a ação, o faz elevando-se acima de si mesma, isto é, na medida em que é um conhecimento transcendente adquirido na contemplação da Idéia do Bem. A phonesis aristotélica, ao contrário, não é uma ciência contemplativa, mas sabedoria prática que dirige imediatamente a ação pelo conhecimento do singular e dos meios. Porém, essa sabedoria prática é verdadeira e, portanto, normativa, pois conhece universalmente o fim da vida humana, ‘fim que, seguramente, não é o bem-em-si de Platão, mas a contemplação do Deus da Metafísica’".

Platão descortina-nos a contemplação de uma vida futura; Aristóteles chama-nos a atenção para viver o aqui e o agora. Cabe-nos, assim, fazermos uma síntese das duas concepções para que tenhamos uma vivência plena de sabedoria.

22/9/2006

 

SANTO AGOSTINHO E SANTO TOMÁS DE AQUINO

 

Santo Agostinho (354-430) e Santo Tomás de Aquino (1227-1274) foram, respectivamente, os maiores pensadores da Patrística e da Escolástica. Santo Agostinho valeu-se da filosofia de Platão, enquanto Santo Tomás de Aquino da de Aristóteles. Com isso, cada qual, em sua época, pode influenciar não só a religião católica como muitos pensadores cristãos que lhes sucederam.

Tanto Santo Agostinho como Santo Tomás de Aquino afirmam que Deus, sendo eterno, transcendente, todo bondade e todo sabedoria, criou a matéria do nada e, depois, tudo o que existe no universo. Para Santo Agostinho as idéias ou formas estavam no Espírito de Deus. Santo Tomás de Aquino acrescenta a noção dos universais em seus raciocínios. Dizia que Deus é a causa da matéria e dos universais. Além disso, Deus está continuamente criando o mundo ao unir universais e matéria para produzir novos objetos.

Nenhum deles colocava em dúvida a imortalidade da alma. Santo Agostinho dizia que alma e corpo são distintos, mas não soube explicar como a alma se liga ao corpo. De acordo com Santo Tomás a alma humana — princípio imaterial, espiritual e vital do corpo — foi criada por Deus. Acreditava que a alma espiritual é agregada ao corpo por ocasião do nascimento, e continua a existir depois de morte do corpo, formando, pois, por si mesma, um novo corpo, um corpo espiritual, por meio do qual atua por toda a eternidade.

Em suas teorias, reportam ao "desprezo do mundo". Contudo, Santo Agostinho mostra-se incapaz de decidir entre o mundo e desprezo por ele. A despeito dessa dúvida, apega-se firmemente à idéia de que a Igreja, como a encarnação mundana da cidade de Deus, deve ter supremacia sobre o Estado. Santo Tomás de Aquino, da mesma forma que Aristóteles, doutrinava que o homem é naturalmente um ser político e procura estar em sociedade. Este homem deve tributar lealdade à Igreja e a Deus, mas tem, também, que obedecer ao Estado porquanto este, por sua vez, recebeu o seu poder da Igreja.

Fé, Razão e Revelação são os pontos fundamentais de suas teorias. Santo Agostinho demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma. Santo Tomás consegue, por seu turno, estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito, podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação.

Fiquemos com o lado bom de seus raciocínios, ou seja, a crença num Deus único, causa primária todas as coisas. Refutemos, porém, a supremacia que deram à Igreja, considerando-a como a monopolizadora da revelação de Deus.

Fonte de Consulta

FROST JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo, Cultrix.

Marcço/2001.

SÃO VITOR E O SEU DIDASCÁLION

 

Hugo de São Vitor, filósofo, teólogo, exegeta, místico, gramático, criador da Escola de São Vitor, em Paris, por volta de 1127, é o eminente escritor do livro Didascálion – A Arte de Ler, traduzido por Antonio Marchionni. Nesse livro, ele traça um programa de autoconhecimento, baseado na busca da Sapiência, o melhor método para se educar eficazmente. Vejamos alguns de seus ensinamentos.

Didascálion significa "coisas concernentes à escola". A sua didática é criar condições favoráveis para se adquirir a sapiência. Embora traduzimos sapiência por sabedoria, esta palavra não retrata fielmente o significado que Hugo lhe empresta. Deveria ser traduzida por Mente Divina, Verbo, Logos, Pensamento Divino. Isto porque, "tudo o que o homem quer saber sobre si mesmo está lá, na sua origem, no seu arquétipo, na sua forma boa, ou seja, na Sapiência".

Como o homem chega à Sapiência? Para Hugo de São Vitor, isso se faz em 5 etapas bem definidas: 1.ª) Leitura; 2.ª) Meditação; 3.ª) Oração; 4.ª) Prática; 5.ª) Contemplação. A leitura serve para buscar os conhecimentos, os motivos, os estímulos para a reflexão; a meditação é um discernimento crítico do que se leu; a oração serve para nos fortalecermos em Deus para o agir; a prática é o exercitar-se no bem; por último, a contemplação é a etapa de realimentação para o bem agir.

O que nos diz sobre a escola? Começa nos dizendo que a palavra escola tem sua origem na palavra otium, que pode ser traduzido como: a) não ação, repouso, tempo livre; b) dedicação aos estudos e à expansão da consciência. Observe que otium é, em grego, skholé, que significa pausa, parada, repouso e também colóquio científico, leitura, recitação. Deste último significado a skholé passa a indicar o lugar onde o mestre lê, dá lição, onde se discute, se pensa. Para São Vitor, Otium, é quietude exterior da vida para dedicar-se aos estudos dignos e úteis. O otium representa a verticalidade da vida, o artístico, o religioso, o cultural.

São Vitor pode ser considerado um verdadeiro mestre. Ele demonstra como é importante começar, inicialmente, por um ato de reverência a Deus no sentido de preparar o espírito para o estudo sério. No estudo lembrava ao discípulo a ruminação, a digestão lenta e vagarosa dos novos conhecimentos. Imaginamos que à semelhança de Descartes, ele não pedia aos seus alunos para buscar incessantemente a verdade, mas, ao contrário, que cada procurasse abrir-se à verdade. A sua personalidade contagia de modo saudável todos os que lhe têm contato.

Leiamos, reflitamos e contemplemos. Este é o verdadeiro tripé para forjarmos nossa alma na prática do bem e da virtude. Adquiramos o hábito de perguntar a nós mesmos e, lá no fundo de nossa consciência, teremos as respostas para as nossas dúvidas.

Fonte de Consulta

SÃO VITOR, Hugo de. Didascálion: Da Arte de ler. Tradução por Antonio Marchionni. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001.

13/11/02

LIÇÕES DE SÊNECA

Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer. (Sêneca)

Em Sobre a Brevidade da Vida, a obra mais difundida do filósofo Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antigüidade, o autor reporta-se a Paulino, um funcionário da alta corte imperial romana, para lhe fazer compreender que a única coisa útil na vida é o estudo da filosofia. Quer convencê-lo, através da exortação filosófica e do discurso claro e objetivo, que sem a filosofia a vida se esvai improdutivamente. Parte da opinião comum de que a vida é breve. Contraria-a, porém, estabelecendo uma perfeita distinção entre a ocupação e o ócio.

A ocupação diz respeito à execução de uma tarefa, ao exercício de uma profissão e à busca de riquezas; o ócio, ao cuidado com a alma imortal. O afã empregado em conquistar fama ou riqueza rouba-nos tempo precioso, que poderia estar sendo utilizado na obtenção dos valores morais. Para Sêneca, "Os ocupados não vivem a verdadeira vida, eles simplesmente deixam-se existir e calculam o tempo apenas pelo relógio, e não pela vida interior". Para ele, o único conhecimento válido é o da filosofia, cuja finalidade é o aperfeiçoamento moral do homem.

Sêneca escreve: "O homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando na realidade não depende dele o viver muito, mas sim o viver bem". O que é viver bem? É estar sem fazer nada? É estar imerso nas inutilidades das visitas de fim de semana? É estar a par de toda a novidade? Será que assim procedendo não estaremos vivendo nas sombras, descritas por Platão, em seu Mito da Caverna? Sêneca, por seu turno, pretende convencer Paulino a desprender-se das suas atividades do cotidiano. Incentiva-o a filosofar sobre o sentido de sua própria existência.

Baseando-nos nesses ensinamentos, perguntaríamos: como estamos refletindo sobre nós mesmos? Será que estamos sendo realmente senhores de nós mesmos? Sabemos dizer sim quando aceitamos uma ordem e não quando discordamos dela? Qual o grau de influência que o pensamento dos outros tem sobre a nossa conduta? Estamos preocupados em dar explicações sobre o nosso modo de vida? Será que a nossa maneira de viver interessa tanto aos outros, como a supomos?

Se a vida é breve, tenhamos em mente que o minuto que passa não volta jamais. Assim, aproveitemo-lo da melhor forma possível. Que ele seja a perfeita vontade de Deus em nossas almas. Aquele que tem a consciência tranqüila estará sempre bem, inclusive na prisão, porque estará em paz com o seu pensamento. Aquele, porém, que tem a consciência tisnada, não estará bem em lugar nenhum, porque "o criminoso sempre retorna ao lugar do crime". Quer dizer, a nossa consciência estará sempre remoendo aquilo em que contrariou as Leis Divinas.

A vida nada mais é do que a viagem da alma rumo ao seu progresso moral e espiritual. Façamos sempre uma avaliação serena de tudo aquilo que se apresenta aos nossos olhos. Nada de emoção descabida, nem de racionalismo excessivo. A virtude está no meio.

4/12/2006

SÓCRATES

 

Sócrates (470/399 a.C.), filho de Sofronisco (escultor) e de Fenarete (parteira), foi um dos maiores filósofos de toda a história da humanidade. À semelhança de Jesus Cristo, não nos deixou nada escrito. Tudo o que sabemos de Sócrates é através do seu discípulo, Platão. Este, por sua vez, apresentou todas as suas idéias sob a forma de diálogos, pela boca de Sócrates, de sorte que, até hoje, não sabemos exatamente onde acaba o pensamento de Sócrates e onde começa o de Platão.

A vida de Sócrates foi inteiramente dedicada à educação. Era paciente, simples e tinha um perfeito domínio sobre si mesmo. Levantava-se cedo e encaminhava-se à praça pública (Ágora) para iniciar os seus debates esclarecedores. Dissera que tinha abandonado a profissão de escultor, porque, enquanto a sua mãe dava luz à criança, ele daria luz às idéias. Na vida política, participou de três campanhas militares. É considerado o criador do método em Filosofia.

Sócrates procura o conceito. Este é alcançado através de perguntas. As perguntas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto. Por exemplo, querendo apreender o conceito de coragem, dirigia-se ao um general, e perguntava-lhe: — você que é general, poderia me dizer o que é a coragem? O general respondia-lhe: — coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Porém, Sócrates contradizia: — às vezes temos que recuar para melhor contra atacar. E a partir daí continuava o debate ampliando o conceito.

As contestações de Sócrates eram sempre inesperadas. Um amigo de Sócrates perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu-lhe que era Sócrates. Seu amigo tratou de confundi-lo com a observação do oráculo e repetiu-o diante de muita gente. Sócrates comentou: o oráculo escolheu-me como o mais sábio dos atenienses porque o oráculo sabe que eu sou o único que sabe que não sabe nada.

Sócrates foi condenado à morte por duas razões: não crer nos deuses e corromper a juventude. Os jovens de Atenas seguiam Sócrates e escutavam-no, porque Sócrates ensinava-lhes a pensar por si mesmos, e por este caminho fazia-os chegar a conclusões que poderiam parecer subversivas. Na prisão, discutia a imortalidade da alma, ou seja, a possibilidade de existência de outra vida além desta.

A fama de Sócrates é tal que, passados vinte e cinco séculos, ainda estamos por resolver o problema do conhecimento de nós mesmos.

Fonte de Consulta

COLLINSON, D. Fifty Major Philosophers - A Reference Guide. London and New York, Routledge, 1989

Outubro/2003

 

SÓCRATES: POSIÇÕES FILOSÓFICAS

 

Sócrates (470 a 401 a.C) afirmava que o conhecimento é a chave de todos os demais problemas. Interessou-se especialmente por descobrir um método para alcançar o verdadeiro conhecimento, distinto de simples opiniões. O método que desenvolveu consistia em eliminar, primeiramente, as noções falsas e depois proceder a minuciosas observações e desenvolver pensamentos, a fim de atingir o juízo universal. Em meio à diversidade de pensamentos, Sócrates procurou descobrir aquilo que era comum a todos, uma base que não admitisse contestação.

O bem e o mal. Sócrates pensava que deveria haver um princípio básico do bem e do mal, uma medida que transcendia a toda e qualquer crença do indivíduo. Para ele, o maior bem da humanidade é o conhecimento. Acreditava também que "Nenhum homem é voluntariamente mau"; se souber que uma coisa é boa, preferirá fazê-la. A sua crença era tão intensa que passou a vida toda procurando auxiliar os homens a descobrir o que representa o bem. Daí a frase "Uma vida sem exame não merece ser vivida".

O destino e livre escolha. Com conhecimento o homem age de maneira acertada; sem conhecimento, corre o risco de agir com desacerto. Pelo conhecimento, o homem pode ter certa influência sobre o destino e a vida futura. De acordo com sua escolha, o homem pode exercer influência sobre a sorte que o espera. É o começo da crença na liberdade de escolha. No pensamento de Sócrates, muitas pessoas escolhem erroneamente e, em conseqüência disso, sofrem. Por isso, insistia em transmitir o verdadeiro conhecimento aos seus adeptos.

O cidadão e o Estado. Sócrates não se cansava de perguntar a todos os que encontrava: "Que é Estado? Que é estadista? Que é governante dos homens? Que é um caráter soberano?" Embora não respondesse às perguntas, explicava que o conhecimento deve ser a preocupação de todo ser humano. O bom cidadão é aquele que, constantemente, está em busca do verdadeiro conhecimento e está sempre indagando. Quando o homem descobre o verdadeiro conhecimento – argumentava – age de acordo com ele e conduz-se com acerto em todas as relações com seus semelhantes.

O homem e a educação. Sócrates, embora discordasse dos sofistas em muitos aspectos, participava da crença geral de que a educação torna o homem melhor cidadão e, com isso, mais feliz. Mas, ao passo que os sofistas se preocupavam mais com o homem como indivíduo, Sócrates o considerava como membro do grupo. Doutrinava que a coisa mais valiosa que o homem pode possuir é o saber, que se obtém eliminando as diferenças entre os indivíduos e descobrindo os elementos essenciais com os quais todos eles estejam de acordo.

Para Sócrates, o princípio único, do qual tudo o mais decorre chama-se conhecimento. Esforcemo-nos, pois, na busca incessante do verdadeiro conhecimento.

Fonte de Consulta

FROST JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo: Cultrix, ____

Junho/2006

TOMÁS DE AQUINO

 

Tomás de Aquino (1225-1274) viveu num século em que duas correntes de idéias se opunham: a) um evangelismo radical do movimento de pobreza, ligado à obra de São Francisco, que renova e aprofunda a piedade e "redescobre" a Sagrada Escritura; b) um mundalismo inspirado em Aristóteles, que confere à razão natural e ao mundo material uma importância e uma independência jamais vistas. Tomás aceita, sem tomar partido, essas duas posições antagônicas. Depois, pela reflexão, ultrapassa-as ao desvendar a verdade de cada uma delas.

Tomás dirige sua busca filosófico-teológica ao ser, em abertura para a máxima totalidade. Opta, não por uma lucubração artificiosa, mas pela linguagem simples, a linguagem do povo. Para ele essa linguagem é depositária de grande sabedoria, quando bem garimpada. Dizia que o homem é um ser que esquece. E o filosofar é, em boa medida, uma tentativa de lembrar, de resgatar os grandes insights de sabedoria que se encontram encerrados na linguagem comum.

Todo pensamento medieval estava dominado pelo pensamento de Santo Agostinho que, por sua vez, baseava-se em Platão. Platão dizia que as essências estão fora do mundo, no topus uranus. Santo Agostinho complementou essa teoria, afirmando que as essências estão todas na mente de Deus. Tomás de Aquino, por seu turno, trata do ser existencial, ou seja, daquilo que ele está observando aqui e agora. Assim, ele realiza uma revolucionária descoberta baseada na distinção aristotélica entre potência e ato: a do ato de ser. Potência e ato são noções básicas e intuitivas: "potência" é o que pode vir a ser real, mas de fato não o é.

A concepção de Tomás de Aquino sobre a ética não é aquela que temos hoje em dia, ou seja, uma moral repressiva e punitiva. Para ele a moral é o ser do homem, doutrina sobre o que o homem é e está chamado a ser. É um processo de auto-realização do homem, um processo levado a cabo livre e responsavelmente e que incide sobre o nível mais fundamental do ser homem. A moral de Aquino refere, exclusivamente, à totalidade do ser homem. Por isso, distingue a realização (todo) das realizações parciais, como as profissionais, as artísticas e as religiosas.

Na Teologia de Tomás de Aquino não encontramos novidades. Coloca em pauta os temas já tratados pelos seus antecessores: Santíssima Trindade, Encarnação, Graça, Sacramento, Pecado etc. A única diferença é que aprofunda o seu significado. No que se refere à Graça, diz que há uma participação do ser em Deus. A Santíssima Trindade, por exemplo, expressa um Deus que é o Verbo, o qual se fez carne, através de seu Filho Jesus. Procura explicar tudo isso em termos de um raciocínio lógico, ou seja, nós participamos da natureza de Deus, mas não somos Deus.

Enfim, Tomás de Aquino é o último dos grandes clássicos que soube sintetizar o conhecimento aristotélico com a universalidade do Cristianismo.

Fonte de Consulta

LAUAND, L. J. Tomás de Aquino, Hoje. São Paulo, GRD, Curitiba, Champagnat, 1993.

Agosto/1998

VOLTAIRE: CÂNDIDO OU O OTIMISMO

Voltaire (1694-1778), cujo nome verdadeiro era François-Marie Arouet, escreveu o Cândido ou o Otimismo por volta de 1758 e o publicou em 1759. Esse livro se insere na história do problema do mal, cujo início é reportado ao dilema de Epicuro: "Ou Deus quer extirpar o mal deste mundo e não pode, ou pode e não o quer; ou não pode nem quer; ou finalmente quer e pode. Se quer e não o pode, é sinal de impotência, o que é contrário à natureza de Deus; se pode e não o quer, é malvadez, o que não é menos contrário à sua natureza ; se não quer nem pode é simultaneamente malvadez e impotência; se quer e pode (o que de todas as hipóteses é a única que convém a Deus), qual é então a origem do mal sobre a Terra?" 

Historicamente, várias correntes de pensamento tentaram encontrar uma solução ao problema apontado por Epicuro. Dentre elas, cita-se o maniqueísmo, seita cristã criada no século III. De acordo com o maniqueísmo, há dois princípios no universo: um princípio bom (Deus) e um princípio mal, que a dogmática religiosa denominou diabo. Santo Agostinho, em Confissões, discorda de tal afirmação: ele tenta mostrar que o mal não tem ser, ele é apenas a ausência do bem. Daí dizer que quando o homem comete o mal ele apenas se afasta do bem. Conseqüentemente, deve retornar a ele, porque é o único que tem substância.

No século XVII, Leibniz, com a sua Teodicéia, – de theos (Deus) e dike (justiça), significando justiça de Deus – dá também a sua contribuição à história do problema do mal. As suas teses fundamentam-se no otimismo filosófico ou no princípio da razão suficiente. O princípio da razão suficiente é aquele segundo o qual nada existe sem uma razão para ser assim e não de outro modo. De acordo com Leibniz, a única razão de este mundo existir e não outro é que este é o melhor. O fim do todo é bom, aquilo que vemos como mal se deve à limitação de nossa perspectiva parcial, sempre limitada e incompleta.

Voltaire era adepto do otimismo filosófico – crença de que há um funcionamento ordenado do universo e de todos os eventos. Contudo, o terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755, dizimando e ferindo muitas pessoas, fê-lo mudar de idéia. A partir daí, opõe-se a esse pensamento. Primeiramente, ataca a religião cristã quanto ao dogma do pecado original. O filósofo se pergunta: se o otimismo está certo, qual é o lugar do pecado original na organização perfeita? Depois, faz diversas comparações entre o mal que vê e aquela ordem que o otimismo apregoa.

O Cândido ou o Otimismo é uma crítica ao otimismo filosófico. Voltaire pretende mostrar que a causa – tudo que existe tem uma razão de ser –, apontada pelo otimismo filosófico, não é capaz de se sustentar perante o testemunho do mundo. Defende, em contrapartida, o otimismo prático, aquele se expressa no aqui e no agora. A recusa do otimismo global leva-o a recusar, também, a identificação que era feita pelo otimismo filosófico entre ordem e bondade ou beleza.

O Cândido, de Voltaire, é um ingênuo à espera dos ensinamentos da história. E só consegue obtê-los no final do relato, quando se livra da perspectiva otimista – ilusões da metafísica e do dogmatismo filosófico – e se junta aos amigos para ter uma vida tranqüila por meio do trabalho.

Fonte de Consulta

BRANDÃO, Rodrigo. Voltaire e as Ilusões da Metafísica. In. FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

16/3/2007

WITTGENSTEIN, HEIDEGGER E DEWEY

 

No século XVII, a noção de uma "teoria do conhecimento" baseada na compreensão dos "processos mentais" é atribuída a Locke; a noção de "mente" como entidade distinta em que ocorrem "processos", a Descartes; a noção da filosofia como tribunal da razão pura, a Kant. No século XIX, a noção de filosofia como uma disciplina fundamental que "funda" as pretensões do conhecimento foi consolidada nos escritos neokantianos. Dessa forma, a Filosofia torna-se, para os intelectuais, um substituto da religião, pois preocupavam-se em mantê-la "rigorosa e científica".

Essa aparente predominância da Filosofia entra em crise devido a dois fatores: 1º), a esta altura era quase completo o triunfo dos laicos sobre as pretensões religiosas; 2º), surge uma nova forma de cultura, que eram os escritores de poemas, romances, novelas e tratados políticos. O discurso laico, que se populariza, desvia-se da lógica racional que os filósofos intentavam com as suas teorias do conhecimento. O espaço cultural fica dividido, e os escritos filosóficos perdem terreno para esses outros gêneros literários.

No início do nosso século, nomeadamente Russell e Husserl, preocupavam-se em retomar a Filosofia como "científica e rigorosa". Mas havia uma nota de desespero em suas vozes, porque a cultura laica monopolizava cada vez mais a atenção dos leitores. Em resultado, quanto mais "científica e rigorosa" se tornava a filosofia, menos ela tinha a ver com o resto da cultura e mais absurdas pareciam as suas pretensões tradicionais.

É de encontro a este fundo que surgiram Wittgenstein, Heidegger e Dewey. Cada um deles tentou uma nova maneira de tornar a Filosofia "fundamental" — uma nova maneira de formular um contexto último para o pensamento. Wittgenstein procurou construir uma nova teoria da representação que nada teria a ver com o mentalismo. Heidegger tentou construir um novo conjunto de categorias filosóficas que nada teriam a ver com a ciência, a epistemologia, ou a busca cartesiana da certeza, e Dewey tentou constuir uma versão naturalizada da visão hegeliana da história.

Todos os três vieram a achar auto-ilusório o seu esforço inicial, uma tentativa de conservar uma certa concepção de filosofia após terem sido abandonadas as noções necessárias para dar corpo a essa concepção (as noções seiscentistas de conhecimento e mente). Todos os três, nas suas últimas obras, se libertaram da concepção kantiana da filosofia como fundamento e dedicaram o seu tempo a prevenir-nos contra aquelas mesmas tentações a que eles próprios haviam sucumbido.

Assim sendo, essas últimas obras são mais terapêuticas do que construtivas, mais edificantes do que sistemáticas, concebidas de modo que o leitor questione o seu próprio motivos para filosofar, em vez de lhe fornecerem um novo programa filosófico.

Fonte de Consulta

RORTY, R. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Lisboa, Dom Quixote, 1988.

Abril/1998

Visite o site do Clube de Autores
e folheie o livro Leis Divinas ou Naturais,
por Sérgio Biagi Gregório

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