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A Filosofia e o Filosofar

Sérgio Biagi Gregório

1. INTRODUÇÃO

O objetivo destes escritos é demonstrar que não precisamos ser exímios conhecedores da filosofia, nem mesmo ter freqüentado uma Universidade, porque o ato de filosofar encontra-se naturalmente em nosso âmago. Basta apenas exercitá-lo pela discussão, pelo debate e pela troca de idéias.

2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A filosofia não é uma atitude de resignação serena face aos caminhos da existência: não se trata de uma atitude, mas de um saber. A filosofia não é igualmente uma Weltanschauung (visão de mundo), pois que se pretende dela que seja explícita e sistemática. Não se identifica nem com a ideologia, na medida em que não se coloca ao serviço de uma causa, nem com a religião, visto que se esforça por apelar unicamente à razão. Finalmente e, sobretudo, a filosofia diferencia-se da ciência ao explicar a totalidade do real a partir de elementos que não se situam no plano fenomenal. Pode-se, por conseguinte, considerar a filosofia como um saber racional radical, incidindo sobre a totalidade do real e dando deste uma explicação última. (Thines, 1984)

3. CONCEITO DE FILOSOFIA

A origem do conceito de filosofia está na sua própria estrutura verbal, ou seja, na junção das palavras gregas philos e sophia, que significam "amor à sabedoria". Filósofo é, pois, o amante da sabedoria.

3.1. ANTIGUIDADE

Os filósofos gregos da Antigüidade fornecem-nos uma visão completa da Filosofia. A atitude desinteressada na busca do conhecimento objetivava à última redução do real, sem compromissos particulares e limitados. Utilizavam o método demonstrativo não apenas aplicando a um plano lógico, mas metafísico. A finalidade era favorecer a reta razão, a perfeição interior e a autoconsciência do homem.

3.2. IDADE MÉDIA

Na Idade Média não existia uma Filosofia, mas correntes de opiniões, doutrinas e teorias, denominadas de Escolástica. Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho são seus principais representantes. Buscava-se conciliar fé com razão. O método utilizado é o da disputa: baseando-se no silogismo aristotélico, partiam de uma intuição primária e, através da controvérsia, caminhavam até às últimas conseqüências do tema proposto. A finalidade era o desenvolvimento do raciocínio lógico.

3.3. IDADE MODERNA

Na Idade Moderna, as ciências se desprendem do tronco comum da Filosofia. Restam à Filosofia as reflexões sobre a Ontologia ou Teoria do Ser, a Gnoseologia ou Teoria do Conhecimento e a Axiologia ou Teoria dos Valores. O método utilizado é o da intuição: intelectual, emotiva e volitiva. Discutem-se problemas relacionados ao ser, ao pensamento e à conexão entre ambos. A finalidade é a transformação da sociedade pela autoconsciência do indivíduo. (Mendonça, 1961)

4. O FILOSOFAR

4.1. ATITUDE FILOSÓFICA

O espanto, que caracterizava a busca do saber na antiguidade, é a postura correta do ato de filosofar. A criança, sem defesas e com a sua inquirição desprovida de interesses, é um exemplo a ser seguido. A dúvida, a crítica, a reflexão e a contradição devem ser sempre lembradas. Além disso, deve-se evitar o preconceito.

4.2. OS QUESTIONAMENTOS

No âmbito da filosofia, o que realmente tem valor são os questionamentos que fazemos com relação a nós mesmos, à vida, ao outro e ao mundo. Perguntamo-nos: por que existo? Qual a finalidade de minha existência? Como proceder em relação ao meu próximo? Devo ajudá-lo? Até que ponto? O filosofar é compreender que cada um de nós tem responsabilidade para com os outros, no sentido de respeitar a sua própria condição. Voltaire, o mais livre de todos os pensadores, dizia: "Não concordo com nada do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la".

4.3. ESPÍRITO CRÍTICO

O ato de filosofar exige o espírito crítico e não o espírito de crítica. O espírito crítico analisa os prós e os contras, enquanto o espírito de crítica está sempre disposto a denegrir a imagem das coisas e das pessoas.

5. A FILOSOFIA ESPÍRITA

5.1. TRADIÇÃO FILOSÓFICA

A Filosofia Espírita se apresenta naturalmente integrada na tradição filosófica.

Dos pitagóricos, passando pela contribuição da doutrina da forma e matéria, de Aristóteles, enaltecendo os pensamentos de Descartes, Espinosa e Kant, a tradição filosófica é terreno vasto e profundo em que podemos descobrir as razões da Filosofia Espírita.

A Filosofia Espírita sintetiza, em sua ampla e dinâmica conceituação, todas as conquistas reais da tradição filosófica, ao mesmo tempo em que inicia o novo ciclo dialético da nova civilização em perspectiva.

5.2. A FILOSOFIA ESPÍRITA NÃO ESTÁ NOS FENÔMENOS

Kardec afirma, na introdução de O Livro dos Espíritos, que a força do Espiritismo não está nos fenômenos, como geralmente se pensa, mas na sua "filosofia", o que vale dizer na sua mundividência, na sua concepção de realidade.

Segundo Gonzales Soriano, o Espiritismo é "a síntese essencial dos conhecimentos humanos aplicada à investigação da verdade". É o pensamento debruçado sobre si mesmo para reajustar-se à realidade.

Trata-se, pois, não de fazer sessões, provocar fenômenos, procurar médiuns, mas de debruçar o pensamento sobre si mesmo, examinar a concepção espírita do mundo e reajustar a ela a conduta através da moral espírita. (Pires, 1983)

5.3. ESPECULATIVA VERSUS AFIRMATIVA

O Espiritismo – doutrina codificada por Allan Kardec – é um conhecimento afirmativo. Afirmativo, mas não dogmático. É um tipo de conhecimento que temos de sedimentar em nossos Espíritos. Às vezes, por não termos condições de absorvê-lo, saímos por aí dizendo que ele não resolve os nossos problemas e, por isso, precisamos procurar um lugar mais forte (Centro de Umbanda, por exemplo).

6. CONCLUSÃO

Deixemos a inutilidade de lado e acolhamos a luz, venha ela de onde vier. Filosofar, tendo por base os princípios da Doutrina Espírita, é um exercício dos mais proveitosos, porque nos conduz ao domínio da verdade.

7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

THINES, G., LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa: Edições 70, 1984.

MENDONÇA, E. P. O Problema do Conceito de Filosofia - Tese de Concurso para Provimento da Cadeira de Filosofia, 1961.

PIRES, J. H. Introdução à Filosofia Espírita. São Paulo: Paidéia, 1983.




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