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Erro: Algumas anotações

O erro só é combatido eficazmente na medida em que se consegue implantar a verdade.

O tempo que se leva dizendo o que não se deve fazer é perdido com relação a indicar o que deve, por que deve, e como deve ser feito.

O erro é, no mais das vezes, a afirmação da parte pelo todo. Afirma-se, por apreensão parcial de um ser, o ser total. Por exemplo, a cor existe mas não é um ser: é de um ser, é num ser, mas não é o ser. O calor existe mas não é um ser: é de um ser, é num ser, mas não é um ser.

Confundir o sucesso com a verdade é talvez o equívoco e o erro mais difundido entre os homens. Vejamos: o sucesso pode significar pura e simplesmente acontecimento ou ocorrência. Tem, no entanto, uma conotação mais ampla de relacionamento: o que ocorre em seguida a um fato, o que se põe em seguida a outro; e ainda aparece como êxito, que manifesta um sentido de superação, ou de vitória sobre as dificuldades e obstáculos. O indivíduo faz a experiência do sucesso por um sentimento de plenitude interior, por se sentir satisfeito, e por não se lhe apresentarem outras exigências. Neste caso, por exemplo, uma pessoa pode aceitar como verdadeira uma doutrina ou solução que lhe é apresentada apenas pelo fato de corresponder a um seu modo de pensar, que é unicamente uma opinião, e não um efetivo e adequado conhecimento da questão em pauta.

Um boa intenção não é necessariamente uma intenção boa. E não o é porque uma boa intenção é geralmente um ato de boa fé, a a boa fé, na verdade, é uma atitude imperfeita com relação ao seu objeto próprio, porque toma um aspecto favorável de alguma coisa, e a ele se fixa, sem esclarecer com suficiência a sua situação dentro de um todo, que deve ser considerado.

O bom senso exige um esforço constante, um estado de alerta, mais ainda do que estar desperto, um estar esperto, interessado. O enfraquecimento desta tensão produz um certo torpor, que se refugia na rotina, ou comportamento habitual, e na quimera, ou comportamento fabulador. A rotina e a quimera são refúgios onde a inteligência repousa ou adormece um pouco. O processo vital é um desenrolar de criatividade, que prossegue incessantemente.

Extraído de MENDONÇA, Eduardo Prado de. Filosofia dos Erros: Um Olhar Sobre a Vida que Passa. Rio de Janeiro: Agir, 1977.

(Org. por Sérgio Biagi Gregório)

São Paulo, agosto de 2004

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