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Materialismo Dialético e Espiritismo Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Concepção de Mundo: 2.1. Religião; 2.2.
Idealismo; 2.3. Materialismo. 3. Dialética: 3.1. Definição; 3.2. Antiguidade;
3.3. Idade Média; 3.4. Idade Moderna. 4. Materialismo Dialético: 4.1. Por
Etapas; 4.3. Crítica. 5. Espiritismo: 5.1. Concepção de Deus; 5.2. Dialética
Comparada; 5.3. Marxismo e Espiritismo: 5.3.1. Luta de Classes; 5.3.2.
Felicidade; 5.3.3. Vida Futura. 6. Conclusão. 7. Bibliografia Consultada. 1. INTRODUÇÃO Este trabalho tem o objetivo de comparar o desenvolvimento
das idéias materialistas, que se sucedem no mundo moderno, procurando dar-lhes
uma interpretação segundo a ótica espírita. Os tópicos abordados são: noção de
mundo, dialética e sua inserção na história, a dialética materialista e o
Espiritismo. 2. CONCEPÇÃO DE MUNDO A Ciência, ao se defrontar com um novo problema, busca
solucioná-lo através de um método: o da experiência. O cientista observa,
experimenta, faz hipóteses e tira conclusões. Confirmadas as conclusões, os
fatos observados transformam-se em teoria. Por exemplo: há a hipótese de que o
calor dilata os corpos. O cientista fará uma série de experiências, a fim de
estabelecer os limites de tal hipótese. Depois, transforma-a em lei. Significa
dizer que nas mesmas circunstâncias, as conclusões serão sempre as mesmas. O
oposto ocorre no campo da filosofia, pois não existe uma concepção de mundo
admitida por todos, como existe na Física, na Química, na Biologia etc. 2.1. RELIGIÃO "Com efeito, uma religião é, em certo modo, uma concepção de
mundo. Elas são em grande número e cada uma pretende estar na posse exclusiva da
verdade. Somente essa mostra aos homens o caminho a seguir na vida e o meio de
alcançar outra vida feliz depois da morte".(Thalheimer, 1934, p.13) O caráter fundamental da religião pode ser assim definido: é
um produto da fantasia, da inspiração, contrariamente à concepção do mundo
moderno, que é um produto da ciência. A diferença entre ciência e religião pode ser visualizada da
seguinte forma: suponha o fenômeno chuva. Para as religiões primitivas,
havia o Deus da chuva ou o Deus do trovão. Quer dizer, uma força sobrenatural
fazia trovejar e chover. A ciência busca as causas: o que faz chover e o que faz
trovejar. E o que descobre faz parte das leis naturais. 2.2. IDEALISMO Tendência, atitude ou doutrina que reduz o ser ao pensamento.
Considera o Espírito, a consciência, a idéia e a vontade como dados primários
para a explicação dos problemas filosóficos. Para o idealismo o que move o
universo são as idéias. A matéria surge como uma simples conseqüência, um
epifenômeno. 2.3. MATERIALISMO Doutrina que sustenta que a matéria é a única realidade do
universo, e que todas as atividades são realmente atividades da matéria.
Considera a matéria como o motor do universo. A idéia surge como um epifenômeno.
3. DIALÉTICA 3.1. DEFINIÇÃO 1. Filos. Arte do diálogo ou da discussão, quer num
sentido laudativo, como força de argumentação, quer num sentido pejorativo, como
excessivo emprego de sutilezas. 2. Filos. Desenvolvimento de processos
guiados por oposições que provisoriamente se resolvem em unidades. (Aurélio,
1975) Pode-se definir, também, como a ciência das relações gerais
que existem tanto na natureza como na história e no pensamento. Implica em
movimento, transformação. (Talheimer, 1934, p. 108) 3.2. ANTIGUIDADE Os filósofos gregos da Antigüidade (principalmente
Aristóteles) desenvolveram o ensino das formas e das leis do pensamento,
denominado lógica formal. A lógica formal ensina como se formam as idéias e a
maneira de distingui-las entre si. Trata das diversas espécies de sentenças e
das diferentes formas de conclusões. Propõe-se, numa palavra, a ensinar o modo
justo de pensar. As leis da lógica formal dividem-se em duas: 1ª) princípio de identidade, que se pode formular do
seguinte modo: A é A, isto é, cada objeto é igual a si mesmo. Um homem é um
homem. Uma árvore é uma árvore; 2ª) princípio da contradição, ou melhor, o princípio
da exclusão de um terceiro, que se pode formular da seguinte maneira: A é A ou
não é A. Por exemplo: uma coisa que é preta não pode ser ao mesmo tempo preta e
branca. Uma coisa não pode ser e ao mesmo tempo não ser uma coisa. Heráclito, filósofo jônico, introduz na história da filosofia
o conceito de sucessão, que se pode formular assim: tudo passa; não se pode
entrar duas vezes no mesmo rio. O rio nunca permanece o mesmo, porque está em
constante mudança. Por conseguinte, a fórmula A é A não está certa. Este fato
introduz a dialética como forma de conduzir o pensamento, em que
contradição e identidade se misturam. As coisas devem ser consideradas em
movimento e não em repouso. A diferença entre a lógica formal e a dialética é que a
lógica formal considera as coisas em estado de repouso e separados entre si,
enquanto a dialética as considera em movimento e em relações recíprocas. (Talheimer,
1934, cap. VI) 3.3. IDADE MÉDIA Na Idade Média, período que se estende de 500 a 1500 anos,
caracterizou-se pela monopolização da Igreja. Tanto a filosofia como a ciência
não desempenharam nenhum papel independente. A filosofia consagrava-se
unicamente a explicar e interpretar os ensinamentos feudais da Igreja. O que
prevalecia eram os ensinamentos filosóficos ditados pela Escolástica, da palavra
latina scola, que significa escola. É, portanto, a filosofia das escolas
superiores eclesiásticas da Idade Média, na qual se formavam os altos
dignitários da Igreja. (Talheimer, 1934, p. 73) 3.4. IDADE MODERNA Hegel (1770-1831), filósofo alemão, retorna à dialética,
redescobrindo-a como um método eminentemente revolucionário. Ele nos ensina que
nada, nem na realidade nem no cérebro humano, permanece tal qual é, mas se
transforma sem cessar. Hegel foi o criador do idealismo absoluto, em que a idéia dá
origem a tudo o mais. Trabalha com os princípios da dialética, ou seja,
penetração dos opostos (contradição) e unidade polar, negação da negação. O seu método resume-se na tese (afirmação), antítese (negação
da afirmação) e síntese (negação da negação). Feuerbach (1775-1833), discípulo de Hegel, nega a divindade e
inverte a dialética de Hegel. Diz ele: o Espírito Absoluto que, segundo Hegel,
rege o Universo não é outra coisa que o Deus do Cristianismo, mas com outra
roupagem. Com isso, Feuerbach criava o Materialismo. Porém, ao contrário de
Hegel, faltava-lhe a dialética. Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) transformam o
materialismo de Feurbach no materialismo dialético, que depois aplicado à
história, transforma-se em materialismo histórico. A base do materialismo dialético de Marx era: - Filosofia de Hegel e Feuerbach; - Luta de classes na Inglaterra (Revolução Industrial); - Revolução Francesa e Contrato Social. (Talheimer, 1934,
cap. VII e VIII) 4. MATERIALISMO DIALÉTICO Pode ser analisado dentro de uma perspectiva global ou por
etapas do desenvolvimento da história. 4.1. POR ETAPAS Tese Antítese: contra eles a classe dos escravos Síntese: feudalismo Tese: classe dos barões Antítese: contra eles a classe dos servos Síntese: capitalismo Tese: capitalistas burgueses Antítese: contra eles os proletariados Síntese: sociedade comunista (Sousa, 1965) 4.2. GLOBAL : comunismo primitivo (posse em comum dos principais meios de produção por um pequeno grupo de homens). Antítese: propriedade privada, economia escravista, produção feudal, produção de mercadorias, produção capitalista Síntese: comunismo num grau superior: restabelecimento da propriedade privada e da produção coletivas, sem negar ou abandonar a técnica do capitalismo 4.3. CRÍTICA Implantação numa sociedade pré-capitalista (China e Rússia). 5. ESPIRITISMO A função do Espiritismo é fazer uma síntese das filosofias existentes. Nesse sentido, ele não segue o idealismo de Hegel, nem tampouco o materialismo dialético de Marx e Enges. Pode-se dizer que o "método kardequiano baseia-se na dialética palingenésica do progresso e da evolução". (Mariotti, 1983, p. 58) 5.1. CONCEPÇÃO DE DEUS Para a Doutrina dos Espíritos, Deus é a causa primária de todas as coisas. De Deus vertem-se dois outros princípios, ou seja, o princípio espiritual e o princípio material, que individualizados denominam-se Espírito e Matéria. Entre o Espírito e a matéria há um elemento semi-material — o Perispírito —, que faz a ligação entre um e outro. 5.2. DIALÉTICA COMPARADA Idealista: o movimento das coisas é o resultado das contradições que existem nas idéias. Materialista: o movimento das coisas constitui o elemento primário e as contradições que se produzem nas idéias são apenas o reflexo do movimento real. Espiritismo: o movimento das coisas está sujeito ao dois princípios fundamentais, ou seja, o Espírito e a Matéria. O homem, por exemplo, é um ser completo composto de Espírito, Perispírito e Corpo Físico. Faz a síntese, afirmando que um influencia o outro. 5.3. MARXISMO E ESPIRITISMO 5.3.1. LUTA DE CLASSES Marxismo: o socialismo será implantado pela luta de classes. Espiritismo: o socialismo será implantado pelas classes de luta. 5.3.2. FELICIDADE Marxismo: a felicidade do indivíduo estaria presa aos proventos materiais do trabalho (salários). Espiritismo: a felicidade do indivíduo iria além dos proventos materiais do trabalho (salários), pois implica em evolução espiritual. São os bônus-horas de que nos fala o Espírito André Luiz , no livro Nosso Lar. 5.3.3. VIDA FUTURA Marxismo: como é uma doutrina existencialista, o que temos é o niilismo, portanto sem vinculação palingenésica com o processo histórico. Espiritismo: é também existencialista, porém tem como princípio a pluralidade e individualidade da alma após o desencarne. Há uma vinculação com o processo histórico. Ontem estivemos encarnados, hoje estamos e amanhã poderemos voltar 6. CONCLUSÃO Quer queiramos ou não somos influenciados pelas idéias que os nossos ancestrais nos passam. O marxismo teve uma influência muito grande no desenvolvimento do sentimento materialista, quando quis que tudo fosse ou tivesse origem no econômico. É uma visão unilateral do homem, como foi a de Freud, ao analisar o indivíduo somente pelo lado psicológico. A Doutrina Espírita traz-nos uma idéia mais ampla: quando faz a síntese da ciência, da filosofia e da religião, ele conduz-nos também a uma práxis, ou seja, nossas idéias têm que ser aplicadas no seio da sociedade. Significa dizer que o espírita deve participar do desenvolvimento econômico, político e social. Por fim, a Doutrina traz-nos a solução para uma série de problemas desencadeados pelo materialismo: temos de vencer o orgulho e o egoísmo. 7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1975. São Paulo, julho de 1992 CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES: O APEGO À MATÉRIA Em nosso estudo sobre Materialismo Dialético e Espiritismo procuramos fazer uma comparação entre o materialismo dialético (Feuerbach) e o materialismo histórico (Marx-Engels) com os princípios elaborados pelo Espiritismo. Para uma melhor compreensão do problema, não devemos confundir o materialismo, tratado filosoficamente, com o materialista, pessoa apegada à matéria. O materialismo, filosoficamente considerado, concebe a matéria como essência e o Espírito como epifenômeno, ou seja, o Espírito depende da matéria. Não necessariamente ele é materialista (apegado à matéria). Para o Idealismo (Hegel), o Espírito é a essência e a matéria um epifenômeno. Marx, por exemplo, dizia que os aspectos econômicos sobreporiam os aspectos filosóficos e religiosos. Por isso, a sua repulsa pela religião, considerando-a o ópio do povo. O grande perigo da tese materialista é que, dando importância à matéria em detrimento do Espírito, ela pode nos motivar a ser materialistas, ou seja, apegados à matéria. Daí, a nossa corrida para os gozos do corpo, para as diversões, para os prazeres, para o consumo desenfreado de bens materiais. Se a vida termina com a morte, por que nos preocuparmos com a vida futura? É melhor gozar no dia de hoje. A sociedade, tendo que atender primeiramente as necessidades materiais, direciona suas atividades para o que é útil, o que dá produtividade, o que dá lucro. As atividades voltadas para o amor ao próximo, ensinada por Jesus, ficam para um segundo plano. Observe a revolução científico-tecnológica da atualidade, bem contrária de quando a ciência foi criada no século XVI e XVII. Naquela época, optava-se pela ênfase cognitiva, onde um único cientista ficava vários anos pesquisando no intuito de alcançar uma grande descoberta. Hoje, fala-se em "ciência tecnológica", em que várias equipes de cientistas trabalham num único projeto, financiado tanto pela iniciativa privada quanto pelo Estado. O cientista que quer fazer ciência pelo amor à ciência, acaba sendo marginalizado, pois não dá lucro. Vejamos, contudo, do ponto de vista espiritual. O ser humano produz por produzir. Mas saberá ele para que fim? Os meios (produção) ficam acima do fim (evolução do ser). Em se tratando de uma vida além desta, o que levaremos para lá? Levaremos as nossas riquezas materiais, os nossos títulos acadêmicos, as nossas posses? Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao tratar do problema da riqueza, diz-nos que a verdadeira propriedade não é nada daquilo que é para o uso corpo, mas tudo o que para o uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Esclarece-nos que somos apenas usufrutuários dos bens materiais dispostos por Deus. Acrescenta que é na caridade que está a salvação da alma. Um agravante: a morte não muda o nosso estado interior, apenas nos muda de plano. Quer dizer, sendo apegados à matéria, continuaremos do lado de lá. Nesse mister, há muitas passagens espíritas que relatam a situação de sofrimento desses Espíritos nessas condições. Importante: o desprendimento dos bens terrenos não significa esbanjamento, pois teremos de prestar contas dos bens colocados à nossa disposição para o auxílio do próximo. São Paulo, abril de 2004
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