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Filosofia e Espiritismo Sérgio Biagi Gregório 1. INTRODUÇÃO O objetivo deste estudo é mostrar que o Espiritismo — que é
ao mesmo tempo Ciência, Filosofia e Religião — faz a síntese histórica da
Filosofia. O nosso roteiro segue os seguintes passos: conceito, histórico, a
atitude filosófica, os grandes problemas filosóficos e o Espiritismo. 2. CONCEITO A origem do conceito de filosofia está na sua própria
estrutura verbal, ou seja, na junção das palavras gregas philos e
sophia, que significam "amor à sabedoria". Filósofo é, pois, o amante da
sabedoria. Mas o que é a sabedoria? É um termo que significa erudição,
saber, ciência, prudência, moderação, temperança, sensatez, enfim um grande
conhecimento. Na tradição mitológica, a sabedoria era um atributo dos
deuses, que revelavam uma verdade apodíctica, evidente, não suscitando nem
interrogações, nem dúvidas. A sabedoria era o dom de conhecer o desconhecido, o
incompreensível e, principalmente, de prever o futuro, o destino. Os deuses, na
hierarquia mitológica, renunciavam uma parcela de sua sabedoria em favor dos
oráculos e de outros eleitos. Enquanto a consciência do homem é dominada pela mitologia ele
não interroga sobre o que é a sabedoria. Foi preciso que surgisse a Filosofia e,
com ela, o questionamento do conhecimento aceito como evidente, a fim de que os
mitos e as adivinhações cedessem lugar ao pensamento reflexivo. A partir daí, o
simples "amor à sabedoria" vai ampliando-se com as contribuições dos vários
filósofos, até chegarmos à complexidade da atualidade. (Oïzerman, 1978) 3. HISTÓRICO Na própria Grécia Antiga o termo filosofia passou a designar
não apenas o amor ou a procura da sabedoria, mas um tipo especial de sabedoria.
Aquela que nasce do uso metódico da razão, da investigação racional em busca do
conhecimento. Platão distingue a doxa, opinião, ou seja, o saber que
temos sem tê-lo procurado, e a episteme, a ciência, que é o saber que
temos porque o procuramos. Então, a filosofia já não significa "amor à
sabedoria", nem tampouco significa o saber em geral, qualquer saber; senão que
significa esse saber especial que temos, que adquirimos depois de tê-lo
procurado e de tê-lo procurado metodicamente. Durante a Idade Média o saber humano dividiu-se em dois
grandes setores: teologia e filosofia. A teologia é o
conhecimento acerca de Deus. A filosofia são os conhecimentos humanos
acerca das coisas e da Natureza e até mesmo de Deus por via racional. Nesta
situação a palavra "filosofia" continua designando todo o conhecimento, menos o
de Deus. E assim adentrou muito o século XVII. (Garcia Morente, 1970, p. 26 a
29) A partir do século XVII, o campo imenso da filosofia começa a
partir-se. Saem do seio da filosofia as ciências particulares: as matemáticas,
física, química etc. Assim, atualmente, a filosofia é uma ciência que estuda as
leis mais gerais do ser, do pensamento, do conhecimento e da ação. É uma
concepção científica do mundo como um todo, da qual se pode deduzir certa forma
de conduta. (Bazarian, s. d. p., p. 37) 4. ATITUDE FILOSÓFICA Atitude significa comportamento, postura, modo de
proceder de uma pessoa. No âmbito da filosofia, são os questionamentos que
fazemos com relação a nós mesmos, à vida, ao outro e ao mundo. Perguntamo-nos:
por que existo? Qual a finalidade de minha existência? Como proceder em relação
ao meu próximo? Devo ajudá-lo? Até que ponto? Dentro de um estudo mais aprofundado da Filosofia, esta
atitude pode ser resumida nos seguintes termos: Dúvida - Estado do pensamento que, espontaneamente ou
deliberadamente, não tem certeza de se adequar ao seu objeto (ou de que o seu
objeto lhe seja adequado). (Legrand, 1986) Desconfiar da autoridade e não
acreditar de imediato em tudo o que nos falam é um bom exercício. Critica - Designa todo o estado de um juízo que vise
estabelecer o seu valor ou a sua legalidade de ponto de vista lógico. (Legrand,
1986). Em termos do pensamento crítico, deveríamos passar tudo pelo crivo da
razão. É por esta razão que se diz que é preferível rejeitar nove verdades a
aceitar uma única como erro. Reflexão, Volta atenta do pensamento consciente sobre si
próprio que, tanto sob o ponto de vista psicológico como ontológico constitui a
sua principal manifestação. Implica sempre uma "separação" da consciência de si
própria, que indica talvez sua essência. (Legrand, 1986) Nesse sentido, devemos
estar sempre remoendo as informações, ruminando aqui e ali para ver um outro
ângulo da questão, buscando o aprofundamento e dando respostas corretas. Contradição - Em lógica, chama-se proposições
contraditórias a duas proposições que não podem ser simultaneamente nem
verdadeiras , nem falsas. (Legrand, 1986) Quer dizer, devemos evitar a expressão
dúbia das palavras. Ou seja: sermos coerentes com aquilo que falamos. O verdadeiro filósofo não pode ser nem otimista, nem
pessimista. Dever ver tudo como se fosse um problema que o obriga a pensar.
Pensar não por pensar, mas com o vigor intelectual de descobrir a verdade. E
para conseguir tal fim, deve adquirir uma postura desarmada, sem preconceitos e
sem posições já assumidas anteriormente, isto é, deve estar permanentemente
aberto aos novos acontecimentos. 5. ONTOLOGIA Ontologia é a parte da filosofia que trata do ser enquanto
ser. De acordo com J. Herculano Pires em Introdução à Filosofia Espírita,
"O problema do ser empolga toda a História da Filosofia e podemos considerá-lo
como o elo que mantém a união do pensamento religioso com o filosófico". Diz-nos ele que o Ser, para Pitágoras, era representado pelo
número 1; para Sartre, o Ser é uma espécie desses ovóides de que nos falam os
livros de André Luiz; no marxismo e no neopositivismo é o ser humano o que
importa. Deduz-se daí que o Ser é sempre, em qualquer sistema ou concepção, o
mistério do Um e do Múltiplo. Na Filosofia Espírita esse mistério se aclara através da
revelação e da cogitação A revelação pode ser humana e divina.
No caso é divina, pois reservamos para o campo humano a expressão clássica da
técnica filosófica: a cogitação. Os Espíritos revelaram a
existência do Ser pela comunicação mediúnica (e a provaram pela fenomenologia
mediúnica), mas os homens confirmaram essa existência pela cogitação,
pela pesquisa mental do problema. Assim, cada criatura humana é um ser espiritual, mas é
também um ser físico ou um ser corporal. A ligação entre o ser
espiritual e o ser físico é feita através do corpo perispiritual. Desta forma, o
ser não é apenas o Espírito, é também o perispírito e o corpo vital. O correto, portanto, é dizer "Espírito fulano de tal" e não
como a maioria diz "Espírito de fulano de tal. Expressando-nos com o
prefixo de, dá-se a impressão que separamos o Espírito do corpo físico, o que
não é uma verdade. No que tange ao conhecimento do Ser Supremo (Deus), a
Doutrina Espírita afirma que quando o nosso espírito não estiver mais
obscurecido pela matéria, teremos condições de penetrar no mistério da
divindade. (1983, cap. V) 6. TEORIA DO CONHECIMENTO A maneira pela qual se adquire o conhecimento é de vital
importância não só para a Filosofia como para todos nós. De acordo com a tradição filosófica, há duas formas de se
apreender o conhecimento: 1ª) a platônica ou socrático-platônica, que envolve a questão
da reminiscência das idéias (conhecemos pelo Espírito); 2ª) a sofística ou empírica, que se refere apenas aos nossos
sentidos (conhecemos pelos sentidos). Aristóteles tenta conciliar essas duas posições antagônicas
com a sua teoria do espírito formativo e do espírito receptivo. Para Aristóteles, o espírito formativo era a própria
alma humana procedente do mundo espiritual, não sujeita às influências do mundo
exterior; o espírito receptivo, uma espécie de matéria em que se imprimem
as sensações do mundo exterior. Para Aristóteles, as formas do mundo exterior se
imprimem na matéria dos sentidos e dão forma a essa matéria. Na Filosofia Espírita, a dualidade de espíritos da teoria
aristotélica não existe. Isto porque os sentidos são apenas instrumentos de
captação. - o homem é essencialmente um espírito; - espírito é substância do homem e o corpo seu acidente. A percepção segundo a Filosofia Espírita é uma faculdade
geral do Espírito que abrange todo o seu ser. O espírito é, pois, o grande
conhecedor, é o princípio inteligente da Natureza, cuja faculdade perceptiva se
desenvolve através de fases sucessivas: sensibilidade vegetal, animal e depois
humana. O processo gnoseológico iniciado na era tribal se desenvolve através das
fases anímica, mágica, mítica, mística ou religiosa, atingindo a científica ou
racional e passando então à psicológica ou espírita. (Pires, 1983, cap. III) 7. AXIOLOGIA Axiologia – do gr. axios, valor, valia e logos
teoria. Termo muito usado atualmente para designar a teoria do valor, que
investiga a natureza, a essência, e os diversos aspectos que o valor pode tomar
na especulação humana. Teve início com Platão, na teoria das formas ou idéias
subordinadas à forma do Bem, e desenvolvida posteriormente, por Aristóteles,
pelos estóicos e epicuristas, que investigaram sobre o summum bonum
(supremo bem). Na filosofia escolástica, o Summum Bonum é Deus. No século
XIX, pela influência da Economia, da Sociologia e da Psicologia surgiram
diversas doutrinas sobre a relatividade dos valores. (Santos, 1965) A axiologia trata dos problemas de ética, estética, direito,
política, escatologia etc. Allan Kardec no livro III (As Leis Morais) e no livro
IV (Esperanças e Consolações) de O Livro dos Espíritos faz uma síntese de
todos esses problemas. Diferencia-nos com muita clareza o que é o bem e o que é
o mal; estimula-nos à prática da justiça do amor e da caridade; dá-nos, em fim,
todas as coordenadas para uma atuação mais consciente no seio da sociedade em
que somos obrigados a conviver. 8. CONCLUSÃO A Filosofia Espírita é, e sempre será, a grande educadora do
homem. Podemos, assim, afirmar que não existe nenhum outro processo tão
revolucionário quanto o Espiritismo. Por que? Ele nos oferece as noções do "Ser"
e seus deveres com relação a si mesmo, à família, à pátria e ao planeta em que
habita. Aproxima-nos de uma verdade integral. De posse do conhecimento espírita,
Já não mais pensamos parcialmente, mas como co-participantes de uma verdade
maior, assumindo uma responsabilidade não só para com o Planeta em que vivemos
como também para com o Cosmo que nos absorve. 9. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA BAZARIAN, J. O Problema da Verdade. São Paulo, Círculo
do Livro, s. d. p. São Paulo, novembro de 1996 |