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A Parte e o Todo

Sérgio Biagi Gregório

1. CONCEITO

Parte - do lat. parte significa o elemento constituinte de um todo. Há parte onde há um todo. As partes são integrantes quando constituem materialmente o todo, e essenciais, quando constituem-no formalmente. No todo, a parte está em potência, sobretudo quando este é contínuo, e não é distinguida em ato, mas em potência apenas. A parte, que está no todo, não atua, mas sim o todo. A parte não move o todo. Nenhuma parte movida é movida por si mesma. (Santos, 1965)

Todo - do lat. totu significa aquilo que, embora tenha partes, ou aspectos distinguíveis, apresenta-se, contudo, como uma unidade, e pode ser tratado sem referir-se às suas partes.

O todo é quantitativamente a soma de suas partes, mas é, de qualquer forma, qualitativamente diferente, e, quase sempre, especificamente diferente. No todo, há algo mais que as partes, quer tomadas separadamente, quer como partes-de-um-todo, partes integrais, que o constituem quantitativamente ou partes essenciais, quando componentes da essência ou natureza essencial de alguma coisa. (Santos, 1965)

2. TODO E DIVISÃO

Em toda a divisão é mister distinguir: 1) o todo, que é dividido; 2) as partes (membros), nos quais é dividido; 3) o fundamento, a razão pela qual é feita a divisão.

Assim:

o Corpo Humano pode ser dividido em cabeça, tronco e membros, cujo fundamento é o organismo humano;

a Empresa pode ser dividida em diretoria, departamentos e produção, cujo fundamento é o organograma.

a Família pode ser dividida em pai, mãe e filhos, cujo fundamento é o parentesco;

a Nação pode ser dividida em Federal, Estadual e Municipal, cujo fundamento é o governo.

3. TEXTO BÍBLICO

1) "Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido". (I Coríntios, 13,12). Explicação: Paulo, muito preocupado com o caráter parcial do conhecimento humano, imaginou o paraíso como um estado no qual alguém podia conhecer totalmente.

2) "Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos." (I Coríntios, 13,,9) Explicação: advertência de Paulo sobre as conclusões inexatas que podemos tirar em virtude de nossa limitação, quando encarnados. (Lerner, 1963)

4. ABSOLUTIZAÇÃO DO RELATIVO

Em nosso dia-dia costumamos confundir os meios com os fins, o relativo com o absoluto.

Observe a frase: "ninguém ensina ninguém, cada qual aprende por si mesmo". Tomada ao pé da letra, coibiria qualquer esforço no ensino-aprendizagem, pois cada um deve aprender por si mesmo. Porém, de acordo com a etimologia da palavra ensino (in + signare), marcar com um sinal, o procedimento deve ser outro. Ora, quando ensinamos, marcamos com um sinal: se estimulante, produtivo; se desestimulante, improdutivo.

No meio espírita, vemos a ocorrência deste equívoco, ou seja, absolutizar o relativo. Observe, por exemplo, a leitura de um romance. Ali é relatado um caso particular, verdadeiro. Porém, ao aplicá-lo ao todo, estamos incorrendo em erro, porque o mesmo pode não ser verdadeiro para todos os casos.

5. VISÃO HOLÍSTICA DA VIDA

Nos tempos atuais já não se comporta uma visão tacanha e reservada da realidade.

Observe que a globalização é uma verdade insofismável. O computador veio para ficar: dizer que não gostamos dele, que é difícil de ser manuseado ou que preferimos a nossa velha máquina de escrever é ser retrógrado, é parar no tempo, é ficar desatualizado.

No âmbito das novas descobertas, temos de acompanhar todo o progresso da ciência, da tecnologia. O homem é holístico por natureza, ou seja, tem dentro de si, intuitivamente, a noção do todo e da parte.

6. AQUISIÇÃO DE UMA CONSCIÊNCIA GLOBAL DA REALIDADE

O melhor exercício é pensar globalmente, no sentido de transcender o próprio eu. Tomar consciência do que ocorre aqui e agora tem mais valor do que todas as regras e técnicas aprendidas.

Assim:

Quando, mesmo vilipendiados, ofendidos, desprezados, cedermos de nós mesmos — renunciando o que somos —, a fim de potencializar o outro, estaremos construindo perenemente uma visão mais ampla e verdadeira de nossa realidade.

 

A PARTE E O TODO

"O que é bom para a parte pode não ser bom para o todo"

A relação entre a parte e o todo pode ser analisado sob vários ângulos: das ciências particulares, da religião, da conduta humana etc. No sentido genérico, cada ação, que é individual, tem uma dimensão mais complexa do que podemos imaginar. Observe um indivíduo jogando lixo na rua, poluindo o ambiente. Ele está limpando um bem privado, mas poluindo o bem público, portanto influenciando a vida de outros seres humanos, como também o cosmos que o absorve.

Paulo, muito preocupado com o caráter parcial do conhecimento humano, imaginou o paraíso como um estado no qual alguém podia conhecer totalmente: "Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (I Coríntios, 13,12). Paulo advertiu nesta mesma epístola sobre as conclusões inexatas que podemos tirar em virtude de nossa limitação, quando encarnados: "Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos".

Esta advertência religiosa não pode desestimular a nossa vontade em buscar um conhecimento global da realidade. Nos estudos da ordem e da desordem, a Física mostra-nos o caráter global desta relação, pois haverá ordem ou desordem sempre em relação a um padrão, nunca somente ao indivíduo isolado. Na Economia, fala-se da indústria e da firma. A indústria seria a totalidade de todas as firmas de um determinado ramo da atividade econômica. Por exemplo, a indústria de sapatos congregaria todas as firmas que produzem sapatos. Na linguagem, uma mesma palavra pode ter vários sentidos, dependendo da colocação na frase, e mesmo da maneira como a pronunciamos.

No âmbito da política econômica, aprendemos que aquilo que é bom para a parte pode não ser bom para o todo. Explica-se: suponha que os salários de uma certa categoria da sociedade aumente em 10%. Esta categoria teve um ganho em relação aos demais salários da sociedade. Mas, imagine que todos os salários de todas as pessoas tivessem um aumento de 10%. O que aconteceria? O resultado seria nulo, ou seja, ninguém sairia ganhando nada.

A reflexão sobre a relação entre a parte e o todo é sumamente valiosa. Precisamos sempre ver pelo prisma do outro. Geralmente, achamos que os outros devem suprir as nossas necessidades de pronto. E se eles não puderem atender-nos? E se Deus, que é causa primária de todas as coisas, acha por bem adiar a súplica? Como fica? Entendemos que a situação deve ser ponderada imparcialmente, a fim de não criarmos um viés entre a vontade divina (total) e a nossa (parte). Nesse mister, pensar que Deus escreve certo por linha tortas, ou que quando o trabalhador estiver pronto o trabalho aparece não deve ser desprezado.

Nada há de inútil. O fluxo de energia que jorra de uma usina pode ser interrompido pela falta de uma simples tomada. Sejamos a simples tomada. Façamos a nossa parte e deixemos o resto por conta de Deus.

 

TEMAS PARA DEBATE

1) A soma das partes pode ser maior que o todo?

2) O que é bom para a parte pode não ser bom para o todo. Comente.

3) O Espírito é a parte e Deus é o todo?

4) Desencarnando conheceremos o todo?

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

LERNER, D. Parts and Wholes (The Hayden Colloquium on Scientific Method and Concept). USA, MIT, 1963.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

São Paulo, abril de 2004

 




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